ÔĽŅ O monstro do espa√ßo sideral - Di√°rio do Vale
terça-feira, 21 de agosto de 2018

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Capa / Ci√™ncia ‚Äď Por Jorge Calife / O monstro do espa√ßo sideral

O monstro do espaço sideral

Matéria publicada em 24 de maio de 2018, 07:00 horas

 


Gal√°xia gigante devora suas vizinhas e emite raio da morte

Os cart√≥grafos da Idade M√©dia deixavam grandes vazios em seus mapas, correspondentes √†s √°reas inexploradas do nosso planeta. Nessas regi√Ķes desconhecidas eles costumavam escrever: ‚Äúaqui h√° monstros‚ÄĚ. Sempre foi assim, o ser humano costuma projetar seus sonhos e pesadelos sobre as inc√≥gnitas do desconhecido. Hoje n√£o √© diferente, os filmes de fic√ß√£o cient√≠fica se encarregam de povoar o oceano do espa√ßo com todo o tipo de seres perigosos e assustadores, mas h√° uma diferen√ßa, o espa√ßo sideral realmente tem seus monstros e eles s√£o muito maiores e mais perigosos do que os monstros da fic√ß√£o cinematogr√°fica.

√Č o caso da gal√°xia gigante M-87, na constela√ß√£o da Virgem, ela √© t√£o grande que atrai e devora qualquer gal√°xia menor que se aproxime. E como se n√£o bastasse o n√ļcleo da M-87 emite um raio da morte, que faz aquela arma da Estrela da Morte parecer um palito de f√≥sforo. O feixe de energia concentrada tem 4900 anos-luz de comprimento, e seis e meio anos-luz de largura (Um ano-luz √© igual a 9,5 trilh√Ķes de quil√īmetros). Se o raio da Estrela da Morte pode destruir um planeta, o da M-87 √© capaz de cauterizar sistemas solares inteiros.

A origem desse feixe de energia √© um buraco negro gigante que se oculta no n√ļcleo da M-87, ele tem uma massa equivalente a 3,5 bilh√Ķes de s√≥is, ou seja, ele j√° engoliu o equivalente a 3,5 bilh√Ķes de estrelas iguais ao nosso Sol. Felizmente para n√≥s a M-87 se encontra a uma dist√Ęncia segura, a 53,5 milh√Ķes de anos luz. E n√£o h√° perigo desta gigante amea√ßar a nossa gal√°xia, a bela espiral da Via L√°ctea. Tudo na M-87 √© grande. Enquanto nossa gal√°xia tem ‚Äúapenas‚ÄĚ 200 aglomerados globulares de estrelas, a M-87 tem um cortejo de 12 mil desses enxames de estrelas. O di√Ęmetro da gal√°xia monstro fica em torno dos 120 mil anos-luz, que √© a mesma largura da Via L√°ctea. Mas a semelhan√ßa termina a√≠, enquanto nossa gal√°xia √© um disco chato de estrelas e M-87 √© esf√©rica e sua massa, que inclui estrelas, nuvens de g√°s e o buraco negro no centro pode ser 200 vezes maior que a massa total da Via L√°ctea.

Por suas caracter√≠sticas a M-87 sempre fascinou escritores e cientistas. Em seu livro ‚ÄúPerfis de Futuro‚ÄĚ publicado no in√≠cio da d√©cada de 1960, o escritor Arthur C.Clarke comenta sobre o feixe de energia emitido pela M-87. Clarke achava que o raio podia ser obra de alguma superciviliza√ß√£o alien√≠gena, na √©poca ainda n√£o sab√≠amos nada sobre buracos negros gigantes ou sobre os mecanismos naturais que ocorrem no n√ļcleo das gal√°xias ativas. Em 1980, na abertura do primeiro epis√≥dio da s√©rie Cosmos, o astr√īnomo Carl Sagan incluiu duas gal√°xias semelhantes a M-87 na sua viagem imagin√°ria pelo Universo. E meditou sobre quantas civiliza√ß√Ķes n√£o podem ter sido destru√≠das no rastro daquele feixe de energia colossal.

Mas a M-87 n√£o √© a √ļnica gal√°xia de seu tipo, ela foi a primeira a ser estudada porque se encontra relativamente pr√≥xima de n√≥s. Para observa-la basta um telesc√≥pio com seis cent√≠metros de abertura, ela vai aparecer como uma bolinha luminosa. Ver o raio da morte √© mais dif√≠cil, j√° que sua luminosidade √© bem mais p√°lida em rela√ß√£o ao resto da gal√°xia. A primeira pessoa a v√™-lo com os pr√≥prios olhos foi o astr√īnomo 0tto Struve, que usou o telesc√≥pio Hooker de 100 polegadas. O mesmo telesc√≥pio que o famoso Edwin Hubble usou para descobrir a expans√£o do Universo. Com os telesc√≥pios modernos √© poss√≠vel observar o raio em dias de c√©u muito l√≠mpido.

A imagem em destaque foi feita pelo telesc√≥pio espacial Hubble, que tem sensores de luz muito mais sens√≠veis que o olho humano. Os astr√īnomos profissionais preferem estudar as gal√°xias atrav√©s de fotografias, j√° que a foto pode captar a luz em exposi√ß√Ķes de v√°rios minutos e at√© horas. Semana passada a equipe do Hubble anunciou a descoberta de outro monstro sideral, um aglomerado de gal√°xias cuja massa √© t√£o grande que curva a luz criando uma gigantesca lente gravitacional. √Č o lar de outras gal√°xias gigantes como a M-87.

Jorge Luiz Calife
jorge.calife@diariodovale.com.br

2 coment√°rios

  1. Muito interessante o artigo. A escala destes fen√īmenos assusta!

  2. ALEXSSANDRO CORREA DUARTE

    Conhecer a grandeza do Cosmo nos deve servir como uma lição de humildade, não só nossa própria existência como indivíduos é insignificante, bem como todo nosso planeta e toda a nossa história é apenas um sopro em uma tempestade, um gota no oceano, um mero geao de areia de todas asmprais da Terra.

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