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O monstro do espaço sideral

Matéria publicada em 24 de maio de 2018, 07:00 horas

 


Galáxia gigante devora suas vizinhas e emite raio da morte

Os cartógrafos da Idade Média deixavam grandes vazios em seus mapas, correspondentes às áreas inexploradas do nosso planeta. Nessas regiões desconhecidas eles costumavam escrever: “aqui há monstros”. Sempre foi assim, o ser humano costuma projetar seus sonhos e pesadelos sobre as incógnitas do desconhecido. Hoje não é diferente, os filmes de ficção científica se encarregam de povoar o oceano do espaço com todo o tipo de seres perigosos e assustadores, mas há uma diferença, o espaço sideral realmente tem seus monstros e eles são muito maiores e mais perigosos do que os monstros da ficção cinematográfica.

É o caso da galáxia gigante M-87, na constelação da Virgem, ela é tão grande que atrai e devora qualquer galáxia menor que se aproxime. E como se não bastasse o núcleo da M-87 emite um raio da morte, que faz aquela arma da Estrela da Morte parecer um palito de fósforo. O feixe de energia concentrada tem 4900 anos-luz de comprimento, e seis e meio anos-luz de largura (Um ano-luz é igual a 9,5 trilhões de quilômetros). Se o raio da Estrela da Morte pode destruir um planeta, o da M-87 é capaz de cauterizar sistemas solares inteiros.

A origem desse feixe de energia é um buraco negro gigante que se oculta no núcleo da M-87, ele tem uma massa equivalente a 3,5 bilhões de sóis, ou seja, ele já engoliu o equivalente a 3,5 bilhões de estrelas iguais ao nosso Sol. Felizmente para nós a M-87 se encontra a uma distância segura, a 53,5 milhões de anos luz. E não há perigo desta gigante ameaçar a nossa galáxia, a bela espiral da Via Láctea. Tudo na M-87 é grande. Enquanto nossa galáxia tem “apenas” 200 aglomerados globulares de estrelas, a M-87 tem um cortejo de 12 mil desses enxames de estrelas. O diâmetro da galáxia monstro fica em torno dos 120 mil anos-luz, que é a mesma largura da Via Láctea. Mas a semelhança termina aí, enquanto nossa galáxia é um disco chato de estrelas e M-87 é esférica e sua massa, que inclui estrelas, nuvens de gás e o buraco negro no centro pode ser 200 vezes maior que a massa total da Via Láctea.

Por suas características a M-87 sempre fascinou escritores e cientistas. Em seu livro “Perfis de Futuro” publicado no início da década de 1960, o escritor Arthur C.Clarke comenta sobre o feixe de energia emitido pela M-87. Clarke achava que o raio podia ser obra de alguma supercivilização alienígena, na época ainda não sabíamos nada sobre buracos negros gigantes ou sobre os mecanismos naturais que ocorrem no núcleo das galáxias ativas. Em 1980, na abertura do primeiro episódio da série Cosmos, o astrônomo Carl Sagan incluiu duas galáxias semelhantes a M-87 na sua viagem imaginária pelo Universo. E meditou sobre quantas civilizações não podem ter sido destruídas no rastro daquele feixe de energia colossal.

Mas a M-87 não é a única galáxia de seu tipo, ela foi a primeira a ser estudada porque se encontra relativamente próxima de nós. Para observa-la basta um telescópio com seis centímetros de abertura, ela vai aparecer como uma bolinha luminosa. Ver o raio da morte é mais difícil, já que sua luminosidade é bem mais pálida em relação ao resto da galáxia. A primeira pessoa a vê-lo com os próprios olhos foi o astrônomo 0tto Struve, que usou o telescópio Hooker de 100 polegadas. O mesmo telescópio que o famoso Edwin Hubble usou para descobrir a expansão do Universo. Com os telescópios modernos é possível observar o raio em dias de céu muito límpido.

A imagem em destaque foi feita pelo telescópio espacial Hubble, que tem sensores de luz muito mais sensíveis que o olho humano. Os astrônomos profissionais preferem estudar as galáxias através de fotografias, já que a foto pode captar a luz em exposições de vários minutos e até horas. Semana passada a equipe do Hubble anunciou a descoberta de outro monstro sideral, um aglomerado de galáxias cuja massa é tão grande que curva a luz criando uma gigantesca lente gravitacional. É o lar de outras galáxias gigantes como a M-87.

Jorge Luiz Calife
jorge.calife@diariodovale.com.br


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2 comentários

  1. Muito interessante o artigo. A escala destes fenômenos assusta!

  2. ALEXSSANDRO CORREA DUARTE

    Conhecer a grandeza do Cosmo nos deve servir como uma lição de humildade, não só nossa própria existência como indivíduos é insignificante, bem como todo nosso planeta e toda a nossa história é apenas um sopro em uma tempestade, um gota no oceano, um mero geao de areia de todas asmprais da Terra.

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