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100 dias ou sem dias

Matéria publicada em 14 de abril de 2017, 07:10 horas

 


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Pautou-se que o resultado de algo para que tenha consistência, tem-se que esperar 100 dias. Pois bem, a política joga com esse número e assim muito dos olhares daqueles que se preocupam de verdade com o coletivo se voltam para este dia, na maioria das vezes fatídico porque nem sempre o resultado é o esperado.

Muita retórica em torno do “vou fazer”, algo bem distante da realidade que bate as portas todos os dias. O indefectível presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que as mudanças iriam começar logo no seu primeiro dia no cargo, uma delas seria desfazer algo que o ex-presidente Barack Obama havia feito. Ai é mole, fazer buraco no bolo dos outros é algo fácil e prazeroso.

E, infelizmente, isso tem sido uma máxima por parte de muitos governos, sobretudo no Brasil: apagar a marca do antecessor, principalmente se este era de outro partido e que não o tenha apoiado, é de lei.

Por estar na política há 34 anos, desde que trabalhei ao lado do falecido governador Leonel Brizola, que já vi muito político recém empossado, usar a caneta para defenestrar muito do que o governo anterior tenha feito, isso sem se importar se foi bom ou não. Derrubar totem com a marca do antecessor, apagar a logomarca do inimigo declarado, então, é ato número 1.

Nos tempos atuais, bicudos ao extremo, uma realidade onde se roubou até o rato do cofre, ficou ruim para muitos governantes cumprir suas promessas logo nos seus primeiros 100 dias. Ele chega nessa marca ainda tateando no escuro, tentando achar o interruptor e se não o acha, culpa mais que imediatamente aquele que acaba de levantar, agora, da sua cadeira. Quem perde obviamente é o povo que não sabe a quem delegar a culpa e buscar resultados consistentes. E culpado é o que não falta nessa história que desde que o mundo é mundo se repete em um ciclo vicioso.

Mudança

O novo dono da bola, afirma e confirma que vai fazer, para logo a seguir a partir do momento que o tempo começa a ser contado, mudar o discurso e dizer que não fez porque o seu antecessor levou a chave do cofre, os computadores, mesas, cadeiras e tudo o mais que ele iria precisar para promover todas as mudanças depositadas aos pés dos eleitores durante a campanha; onde beijos, abraços e tapinhas nas costas eram de lei.

Algumas respostas para tantas perguntas encontrei no livro “E Se…” editado pela Abril Editora e ainda em uma cartilha que ensina o passo a passo para fazer uma cidade caminhar: “Apoio à Gestão Municipal – Orientações para o Gestor Municipal em Início de Mandato”, publicado pela presidência da República desde 2008. Não é bula de remédio e nem receita de bolo, mas se fizer direitinho, não abusar da farinha e nem do fermento da pretensão e do narcisismo dá para fazer um bolo onde todos comam com fartura, sobretudo, o povo que foi acostumado a ver navios na hora de receber o seu quinhão.

É fato que os primeiros 100 dias de governo são vitais para imprimir a identidade da nova administração. Um governo que começa atuando de maneira tímida revela hesitação, falta de prioridades e incapacidade de aproveitar um dos momentos mais valiosos para promover mudanças importantes. O início de mandato é um instante crucial para implementar reformas institucionais, propor projetos inovadores e promover mudanças de crenças e de atitudes. Antes de assumir o mandato, o líder tem de definir claramente as suas prioridades e desenvolver um plano de ação estruturado para ser implantado desde o primeiro dia de governo.

Renata Vilhena escreveu um excelente trabalho sobre Gestão Pública Eficiente, algo que deveria estar na mesa de muito alcaide veterano ou aqueles que ainda cheiram a leite e se aventuram nessa seara de maneira atrevida, apaixonada e combativa, mas que já no centésimo primeiro dia já começa a dar sinais de cansaço. É importante que se faça uma aprofundada análise do município, a fim de detectar quais são os principais problemas e gargalos, e quais devem ser os focos de ação prioritários. Os indicadores devem ser verificados de maneira comparativa: Como está meu município em relação ao restante do país?, sobretudo em relação ao restante do estado? ou ainda como o município se compara a outros de porte semelhante? E ainda exemplos de importantes indicadores municipais Desenvolvimento Econômico, como: vagas fechadas no último ano, desemprego  e PIB por setor da economia. Isso passando pela saúde, educação, segurança, habitação, saneamento, transporte e cultura. Cultura, bom essa é o patinho feio da maioria de muitas gestões, salvo em alguns casos quando se trata de uma grande cidade como Rio ou São Paulo, aí a coisa ganha um outro olhar. Mas nem sempre isso é real, porque o Rio tem perdido feio para as gestões culturais paulistas. Falo isso diante das minhas muitas décadas trabalhando na área de literatura, onde ao primeiro sinal de crise, cortam-se os livros da cesta básica, isso sem falar em cinema, teatro e museus, entre outros.

Lado bom e lado ruim

Governar uma cidade, estado ou país obviamente que não é sopa no mel, tem suas agruras, mas também tem suas maravilhas, basta ler nas diversas mídias e ver que o lazer muitas vezes supera o suor do trabalho, assim como fez a vice-ministra de Agricultura do Peru, Eufrosina Santa María, que foi sumariamente demitida depois de ter sido filmada em horário de trabalho tomando sol enquanto o norte e o centro do país lutavam contra as chuvas, inundações e avalanches, que causaram dezenas de mortes. Santa María, vice-ministra de Desenvolvimento e Infraestrutura Agrária e Irrigação, também foi filmada andando de bicicleta e patinando perto de sua residência em horário de trabalho. Realmente suor havia sido constatado na gestora, mas era do sol que havia tomado em uma espreguiçadeira em um clube.

A política é muito mais que benesses e prazeres mundanos, até porque as pessoas inteligentes sabem que esse prazer é momentâneo, que ele tem um começo e um fim. E nem sempre o fim é dos melhores, vide o exemplo do ex-governador Sérgio Cabral.

Claro que a inocência passa longe de mim e dos meus leitores, porque não será essa crônica, um libélulo que fará com que o mundo político ganhe contornos coloridos e honestos, sobretudo no nosso país. Ainda teremos que viver e amargar muitas décadas de descaso. O Brasil tem apenas 517 anos, bem diferente de uma Suíça com seus 726, ou ainda Dinamarca, Suécia, Holanda, Canadá e Noruega, considerados os melhores países para se viver.

O Brasil é um país maravilhoso pela sua geografia e clima, pelo seu povo cordato e muitas vezes passível além da medida, que precisa aprender regras básicas de convivência, como não jogar papel no chão, cuspir em via pública, avançar sinal de trânsito, entrar na contra mão. O brasileiro tem arraigado no seu interior e é isso que precisa aprender a mudar com urgência, a visão sem sentido de que o que é meu, eu cuido e o que é público, eu destruo. Uma forma de se vingar da vida que meia-boca se leva. Uma vingança-bumerangue, que volta em uma proporção meteórica. Conhecer quem governa sua cidade, estado ou país, não tem nada haver com gostar ou não de política, mas sim opinar acerca de quem você deseja e confia para entregar as chaves da sua casa, para quem irá cuidar de você e de sua família. Não se esquecendo de que enquanto houver esse distanciamento, essa mentalidade, os políticos apaixonados pelo poder e dispostos a fazer de suas cadeiras, camas king size, dormem confortavelmente em berço esplêndido.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

4 comentários

  1. Cem dias do governo Samuca,ruim demais até o momento só faladeira.Igual ou pior que o Neto.

  2. Parabéns por assuntos tão relevantes,tenho lido com frequencia.

  3. Por falar em 100 dias de governo ainda faltam a divulgação dos prefeitos de Mendes, Piraí, Barra do Piraí, Rio Claro, Paraty, Barra Mansa, Porto Real e Resende.

    • Quanto a Porto Real digo que:Prefeito doente e para completar um vice muito fraco.A CIDADE ESTA. Num matagal horroroso sem medicações na farmácia, e outras coisas mais.

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