2.476 dias com o Branco - Diário do Vale
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2.476 dias com o Branco

Matéria publicada em 29 de dezembro de 2017, 07:30 horas

 


Ter um cachorro pode ser muito gratificante, mas o final é sempre muito triste

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Ter um cachorro é muito bom para nossa saúde. Eles são ótimos companheiros e um excelente remédio contra depressão. Hoje em dia existem hospitais que permitem que os cães visitem seus donos doentes. A alegria de rever o companheiro de quatro patas contribui para a melhora do paciente. O problema é que os cachorros não duram para sempre. Eles têm um tempo de vida relativamente curto comparado com nossas vidas humanas. E quando morrem a sensação de perda é muito grande, principalmente quando se trata de um companheiro muito querido, como foi o caso do meu amigo Branco.

Calculando na ponta do lápis foram 2.476 dias de uma convivência muito gratificante. Desde que o Branco apareceu no meu quintal, com a perna machucada, em uma manhã de março de 2011. Ele se escondeu embaixo da carcaça de um carro, que ficava no fundo do quintal e só saía de lá para tomar sol de manhã. O problema na perna traseira provocava uma dor intensa e ele gania sempre que levantava. Comecei a oferecer comida para ele e logo conquistei sua confiança.

A médica veterinária examinou a perna dolorida e concluiu que não estava quebrada. Era só uma distensão muscular que tratamos com algumas gotas de Novalgina. E a partir daí o Branco passou a morar comigo. E a me acompanhar aonde eu ia em Pinheiral. Naquela época, em 2011, eu tinha uma cachorra preta muito doida, a Kiara, que um vizinho tinha trazido de uma fazenda em Ipiabas. E o Branco logo formou uma dupla com a Kiara, o que quase foi a perdição dele. Kiara tinha mania de atravessar o Rio Paraíba a nado, para perseguir pacas e capivaras nos terrenos de uma granja que fica lá para os lados de Barra do Piraí. E o Branco ia atrás dela.

Um dia um pescador que costuma percorrer o rio me contou a novidade. “Sabe aquele seu cachorro branco, aquele que anda mancando? Estava lá do outro lado do rio, na granja da Rica, com uma cachorra preta”. Custei a acreditar, mas as evidências eram muito fortes. Branco e Kiara costumavam sumir depois do almoço, e só apareciam lá em casa de noite, por volta das 22 horas, molhados e cansados. Mas, muito felizes.

Nunca cogitei em prender os dois. Não acho que possamos possuir um ser vivo como se fosse um objeto. Aliás, boa parte das tragédias humanas decorre do sentimento de posse sobre criaturas vivas. Cachorros que vivem presos têm uma vida mais longa, mas são neuróticos e infelizes. Kiara e Branco tinham decidido morar comigo, espontaneamente, eu não tinha o direito de tirar a liberdade deles. Fiz uma portinhola no portão lá de casa e eles saíam e entravam quando queriam. Kiara teve uma vida intensa, e morreu de câncer em outubro de 2012. Branco ficou sozinho por uns tempos, mas depois arrumou outras companheiras.

Quando ficava no cio ele sumia por dois, três dias. Quando voltava para casa eu cantava para ele uma velha canção do Nelson Gonçalves cuja letra diz: “O boêmio voltou novamente, saiu daqui tão contente, por que razão quer voltar?”. E depois de abraçá-lo concluía os versos que dizem: “Só me resta o consolo e alegria, de saber que depois da boemia, é de mim que você gosta mais”.

Ano passado Branco pegou uma doença transmitida por carrapatos, mas se recuperou depois de umas injeções de antibiótico. Viveu feliz por mais um ano até a doença voltar em dezembro. E dessa vez ele não resistiu e morreu depois de 21 dias de luta. Morreu com a cabeça no meu colo e foi enterrado ao lado da sepultura da Kiara. Lembrei de uma definição de vida feita pela atriz Sandra Bullock no filme “Quando o amor acontece”, que se aplica perfeitamente ao Branco: “A vida é assim, o começo é complicado, o fim é sempre muito triste, o importante é o que vem no meio”.

Eu e o Branco tivemos momentos maravilhosos. E ele continuará vivendo em minhas memórias e nos meus sonhos.

 

Branco: Companheiro de bons momentos (Foto: Jorge Luiz Calife)

Branco: Companheiro de bons momentos (Foto: Jorge Luiz Calife)

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

12 comentários

  1. CALIFE SABER QUEM É VOCÊ E NÃO SABER QUEM É O BRANCO, NÃO EXISTE.
    QUE COLUNA SHOW DE BOLA. SIMPLESMENTE ASSIM. ABRAÇO

  2. Meus sentimentos! Do pó viemos e ao pó voltaremos… você ainda vai se unir a todos que amou, inclusive o Branco. Estaremos todos juntos em breve. Boa tarde.

  3. O importante foram os momentos bem vividos e compartilhados com muito amor! O Branco se foi, mas certamente feliz e realizado por ter ganhado um lar, um amigo pra todas as horas, missão cumprida. Fiquem em paz.

  4. Espero que arranje outro cachorro logo e que escreva muitos textos sobre as aventuras do novo dog, entremeados por outros com o saudosismo das séries de ficção científica; até para nos poupar daqueles textos repletos de tropeços quando se aventura a escrever sobre comportamento, atualidades e política.

  5. Em alguma galáxia distante

    Quero o “lunático” de volta. Menos textos sobre a vidinha na região e mais sobre a poética vida em Andrômeda ou sobre o novo episódio de Star Wars. Essa do cachorro superou das bicicletas.

    • Então procure a coluna correta. Essa é do espaço aberto, dedicada a falar de coisas diversas, principalmente do cotidiano.

  6. Meus pêsames, Calife. Tenho 3 cachorros vira-latas que eu adotei da rua, como você fez com o Branco, e são meus melhores amigos. Me dá tristeza só de pensar que um dia eles me deixarão. Aconselho você a adotar outro.

  7. Somos como a relva, que cresce e depois é aparada. Somos como a flor que desabrocha na primavera e murcha no verão. Somos amor e amamos o que desaparece!

  8. Os meus sentimentos, Calife. Eu também tenho meu lado canino. Tenho 4 cães, três dos quais advindos da rua, e por isso, sei do companheirismo que o cão nos oferece, o que é muito gratificante. A perda realmente é, por outro lado, bastante dolorosa, porém inevitável.

  9. Sinto muito , talvez vc tenha perdido seu único e verdadeiro amigo.

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