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A árvore e a floresta

Matéria publicada em 20 de abril de 2018, 07:15 horas

 


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Quantas foram às vezes que distraidamente ou não focamos o olhar em um ponto perdido e nos deixamos viajar em pensamentos. Algumas vezes são eles alegres, noutras ruins, mas são apenas pensamentos que vem e vão, que nos deixam a refletir por alguns instantes e depois nos permite viver a vida real.

Cada um de nós carrega na mala da vida problemas e soluções, vivendo inevitavelmente no dia a dia a rotina das horas e se deixando abduzir rumo ao dia seguinte. Dessa maneira levamos os dias e as noites, somando anos e décadas… vivendo da forma que acreditamos ser a mais correta.

Reza a lenda de que onde se vê a árvore, não se vê a floresta. Essa reflexão nos diz que a nossa subjetividade se faz a partir do convívio, da interação com o outro, mas também pode ser de alguma forma desconstruída se não soubermos olhar e ser olhado, porque a vida é feita de parcerias verdadeiras, com raízes bem nutridas.

A metáfora da árvore e da floresta serve para nos mostrar que muitas vezes e não são poucas, nosso olhar é fracionado, se retrai, está aturdido por regras. Falta em nós muitas vezes a humanização, algo que somente através de um resgate profundo, um olhar que se fará enxergar de verdade, é que tudo poderá ganhar amplitude, nos possibilitando ver a floresta de cima com suas centenas, milhares de árvores.

Em uma floresta onde o fogo começa a ganhar terreno, todos fogem, os homens e os animais. Todos correm em pânico buscando proteção, um abrigo para tentar sobreviver. As árvores ali permanecem, não fogem, não correm, não se protegem e acabam por ser consumidas. Muitas delas morrem e jamais voltarão a florescer, já outras pouco a pouco renascerão das cinzas e ainda com suas raízes firmes, presas ao solo, voltarão algum tempo depois a dar folhas e frutos.

Venha o fogo que vier, se estivermos firmes e fortes, mesmo com a perda de galhos, folhas e frutos, nos manteremos de pé, porque a raiz ainda com vida foi capaz de nos sustentar e nos trazer de volta.

O poeta Mário Quintana dizia que nos tempos atuais de céus de cinzas e chumbos, precisamos de árvores desesperadamente verdes. Esta é uma triste constatação, porque vivemos tempos de cores sem cor, o cinza ou as cinzas são consequência do chumbo que nos mata, o chumbo letal das armas de fogo e de tantas outras formas usadas para dizimar o outro, aquele que como nós faz parte da floresta. Isso porque muitas vezes não pensamos como floresta, mas somente como árvores isoladas.

Uma árvore é sábia, veja que ela nunca dá as costas para nós. Seja em qual ângulo estivermos, ela sempre se colocará de frente para nós, pronta a nos proteger com sombra e frutos. Ela é o exemplo claro do bem, porque nasceu exclusivamente para nos servir… e nós?

Mais do que comermos o fruto da árvore da vida, a que trazia os frutos do bem e do mal, conforme nos conta a Bíblia, um ato de profunda desobediência, ainda hoje repetimos, muitas vezes involuntariamente essa ação, isso quando não somos capazes de dar bons frutos àqueles que encontramos pelo caminho. Porque se somos exemplo, somos árvores a dar frutos de sabedoria.

Não nos esqueçamos jamais que da árvore cuja madeira se faz o berço, também se faz o caixão.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

 

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