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A dificuldade de fazer arte

Matéria publicada em 26 de abril de 2017, 06:30 horas

 


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Frio. Coloco água na chaleira. Preciso de um chá quente. Retiro as luvas. Ligo o computador. Faço uma breve massagem para esquentar os dedos. Depois de um rápido aquecimento das articulações, pois a baixa temperatura faz doer o punho recém operado. Ligo o aquecedor.  Sento para vos escrever essa coluna. São 9h, de uma segunda-feira.

Você, leitor, deve estar se perguntando: “Às 9h, mesmo no outono, já está quente lá no Rio de Janeiro, ou em qualquer cidade aqui do interior do Rio. Onde então caberia essa narração que engloba aquecedor e não ar-condicionado?”.

Tirei férias. Estou em Buenos Aires. Vim com uns amigos artistas passar uns dias na cidade mais europeia da América Latina. Não estou a trabalho, nem a estudo. Minha orientadora do mestrado após um bloqueio meu, uma crise pessoal de escrita, mandou eu não pensar na dissertação durante os dias que estivesse aqui para conseguir focar na volta. Estou simplesmente reabastecendo as energias. Minha licença médica acaba nos primeiros dias de maio e volto para a sala de aula. Tenho que me reunir com uma parceira, também professora de teatro, para pensar o futuro do curso gratuito que estamos ministrando em Angra desde o ano passado, preciso decorar o texto da peça que fui convidado para ficar de stadin, uma espécie de substituto, de um ator nos dias que ele tiver gravação na Globo, tenho que ensaiar a outra peça que surgiu como montagem universitária, sem dinheiro, que fará sua estreia em maio, no teatro da UFF em Niterói, também sem dinheiro. Preciso fazer o planejamento das aulas, inscrição em festivais, escrever a monografia, escrever essa coluna. O despertador tocou, preciso me arrumar para aproveitar as últimas horas na Argentina. Peguei-me de novo pensando em trabalho.

É o último dia da curta viagem onde pude conhecer vários museus, restaurantes, teatros, feiras de artesanato, bares e cemitério. Sim, um cemitério que possui diversos mausoléus construído por diversos artistas portenhos consagrados, que construíram verdadeiras obras de arte que parecem edifícios visto de fora. Além de fazer um tour a pé pela cidade, à noite, sem medo de ser assaltado, pois há segurança pelas ruas, e conhecer os monumentos que de dia ficam cheio de turistas. Ir até uma cidadezinha turística no interior da Argentina e lá assistir em uma praça dois espetáculo de teatro de rua, andar de trem, bicicleta e metrô, comer comidas e bebidas típicas. E dar um novo significado para a palavra descansar.

As pessoas começam a circular pelos cômodos da casa, a caixa de som começa a tocar uma playlist animada, a chaleira apita sob o fogão, estamos nos arrumando para dar à última volta pela cidade. Estávamos cansados de pensar como sobreviver de arte na cidade que já acorda te cobrando por você respirar.

Passeando pelas ruas observei muitos cartazes e fachadas de teatros que divulgavam espetáculos que estavam três, cinco, dezesseis anos consecutivos em cartaz. Não consigo imaginar, hoje, no Brasil, espetáculos que estejam a tanto tempo se apresentando no mercado profissional. Espetáculos argentinos como o “Fuerza Bruta”, que estava recentemente no Brasil, com um outro elenco, e que por aqui mantinha suas atividades e apresentações de quarta à domingo. Muitas importantes escolas de teatro e cinema que recebe pessoas de outros países para estudar Arte. Um amigo brasileiro está dirigindo dublagens por aqui e nos convidou para dublarmos, porém, não conseguimos diante das programações que tínhamos.

Diante desse cenário artístico contemplativo fiz uma associação direta com o atual cenário das artes no Brasil que vem sofrendo diariamente com os constantes cortes e falta de incentivo. No Rio de Janeiro, por exemplo, a classe artística vem se reunindo semanalmente para discutir o não recebimento das subvenções do último Fomento das Artes, que a atual gestão não quer pagar. Edital esse que movimenta o setor e ajuda a manter o trabalho de diversas companhias de teatro e artistas independentes. No interior do estado a falta de políticas culturais fica ainda mais exacerbada, fazendo com que os poucos artistas resistam, e existam, buscando muitas vezes exercer outras profissões que possam subsidiar o seu próprio fazer artístico. Me uso como exemplo. Não consegui viajar com o meu trabalho como ator e sim o meu ofício como professor concursado.

Outro exemplo é a atual situação de Angra dos Reis, onde a atual gestão ainda não conseguiu estabilizar as dívidas deixadas pela antiga e isso acarreta um desgaste e defasagem das atividades artísticas do município que sofrem pela falta de recursos e investimentos. Fazendo com que muitos artistas angrenses deixem de pesquisar e desenvolver um trabalho artístico, pois precisam pagar suas contas exercendo outras profissões.

E se o caro leitor fizer a pergunta: “Por que não consegue subvenção com os órgãos privados?”. E minha resposta vai ser: “Muitas empresas privadas suspenderam seus editais culturais”. E as que ainda possuem fazem com que os grupos do interior tenham que competir com companhias do Brasil inteiro.

Essa coluna reflexiva sobre as artes no Brasil, surgiu pelo desejo de discutir sobre a falta de apoio e investimentos no setor artístico tanto municipal, estadual, quanto federal. Por exemplo, prestes a reestrear o espetáculo “Fala Comigo sobre todas as formas de amor antes da chuva cair” o grupo teatral angrense Chão de Estrelas foi selecionado para participar do 7º FETUBA (Festival de Teatro de Ubá – MG), porém não sabia se seria possível, pois não estava conseguindo transporte.

O próprio 7º FETUBA, que é realizado pela Associação FezeFaiz de Promoção da Cultura e das Artes e pelo Movimento Teatral de Ubá, que conta com mais de 50 pessoas em sua produção de forma totalmente colaborativa, levou para o evento 18 espetáculos teatrais de várias regiões do Brasil, que acontece totalmente gratuito para a população de Ubá e região, não tem patrocínio e participou de um financiamento coletivo.

O espaço da coluna EM CENA está aqui também para divulgar e ajudar a construir as diretrizes e os pensamentos que possam nortear as políticas públicas do interior do estado.

Chão de Estrelas reestreia espetáculo

A reestreia traz uma nova concepção e um elenco totalmente renovado. A peça conta com a presença da atriz Juliette Lima, que vivi Chris, e Richard Marx, que vive Pedro.

A apresentação em Angra dos Reis acontecerá nos dias 27 e 28 de abril, às 19h, no Teatro Municipal de Angra dos Reis, localizado no Centro Cultural Theóphilo Massad, Centro, e conta a história de Cris que se encontra no abismo, decidida a pôr fim a sua vida, pois está desiludida com seu ex. Na beira do abismo surge Pedro, um desconhecido que diz ser ator e que é completamente diferente de Cris. Ela deseja ficar um pouco mais antes do que virá, porém, Pedro já tem um compromisso marcado. Pedro, o estranho do abismo, deseja apenas ser um ator reconhecido. E agora? Será que eles pulam do abismo, antes de começar a chover?

Os ingressos para as apresentações em Angra dos Reis já estão sendo vendidos, no valor único de R$ 10 e podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro Municipal.

‘O Último Lutador’ em Angra dos Reis

Nesta quarta-feira, dia 26 de abril, às 19h30, no Teatro Municipal Câmara Torres, acontecerá a encenação de “O Último Lutador”, que tem autoria de Marcos Nauer, que também atua no espetáculo, e Teresa Frota, com direção de Sérgio Módena. A peça conta a história de Caleb (Rogério Freitas), patriarca de um clã desgarrado de lutadores, que, diagnosticado com câncer, sonha em reunir novamente a família.

Ele decide então realizar uma luta usando como pretexto um campeonato que vale um milhão em dinheiro. Para tal, precisa trazer de volta o neto perdido (Nauer) e o aproximar do pai ex-alcoólatra (Antonio Gonzalez), que por sua vez é brigado com seu outro filho (Daniel Villas) e com seu próprio irmão (Gláucio Gomes). Caleb é passional e visionário, o homem que “faz tudo errado, mas dá tudo certo”, como diz sua companheira Diná (Stella Freitas). Também integram o elenco as atrizes Thais Belchior e Carol Ana Velloso.

Encontros, desencontros e os conflitos que estes implicam regem a história que mostra que por trás desses guerreiros, gladiadores modernos, existe um lado humano e familiar. Uma metáfora às lutas enfrentadas no dia a dia.

– A luta diária pela aceitação, pelo perdão, pela superação dos limites e pelo amor pode ser facilmente identificada pelo espectador. A família, com todas suas contradições, é a grande protagonista nesse ringue que chamamos vida – afirma o diretor Sérgio Módena. “A proposta da encenação é fazer com que o espaço cênico nos remeta a um grande galinheiro (cenário das cruéis rinhas de galo), onde os inúmeros embates familiares acontecem continuamente, evidenciando assim a violência e aridez que muitas vezes regem as relações humanas”, completa Módena.

‘O Último Lutador’: Encontros, desencontros e conflitos regem a história (Foto: Divulgação)

‘O Último Lutador’: Encontros, desencontros e conflitos regem a história (Foto: Divulgação)

 

 

JOÃO VITOR MONTEIRO NOVAES  | joao.vitor@diariodovale.com.br

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