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A espinha e o conversível

Matéria publicada em 7 de fevereiro de 2017, 13:45 horas

 


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Tudo começou com aquela espinha, pensava ele enquanto assinava a papelada indicada pelo advogado. Um catatau de folhas determinando quem ficaria com o que.

Considerando o inferno que fora aquela batalha, não era de todo mal por um ponto final naquilo, fosse como fosse.

Raquel também assinou aliviada a papelada.

Não sabe exatamente em que ponto o príncipe virou sapo, passava um filme na sua cabeça enquanto virava sem ler as páginas do processo.

A primeira vez que o viu dentro daquele XR3 amarelo, lindo de morrer, de óculos espelhados e relógio dourado enorme no seu braço forte e peludo para fora do carro, ficou enfeitiçada.

Como uma mulher inteligente como ela se iludiu tanto assim?

Renato sim, sabia claramente porque se encantara por Raquel.

Ela tinha a melhor bunda que um dia um ser da espécie humana ousou desfilar pelo planeta. E olha que desse assunto o Renato entendia.

Bunda para ele era um troço sério, merecia tese de doutorado, políticas públicas e reconhecimento das Nações Unidas.

Tinha até mesmo criado o manual da bunda perfeita, que deveria atender a pelo menos três requisitos:

1 – Arquitetura. A bunda perfeita vem num molde especial que os Deuses da beleza consignam a poucos mortais. Não pode ser plana como uma tábua, nem exageradamente redonda, como se fosse uma bola de futebol. Tem que ser simétrica e com um nível de arrebitamento moderado, nem tão pequeno que a torne discreta demais, nem tão exagerado que a torne vulgar. A bunda perfeita é como obra de arte pacientemente esculpida pelos melhores mestres renascentistas.

2 – Textura e consistência. Se a arquitetura marca a forma básica do projeto, a textura é o acabamento e deve estar a altura do conjunto. Tem que ser aveludada, suave, na medida certa. Também não pode ser flácida nem rígida demais a ponto de eliminar a poesia que emana do suave balançar da obra.

3 – Coloração. A bunda perfeita tem uma cor certa: Pantone 4665. E após exposição solar, dever incorporar um tipo de pigmentação que oscile entre o dourado e o marrom claro, nunca para o avermelhado.

Era uma combinação quase impossível de ser encontrada numa única pessoa, mas ele encontrou tudo isso em Raquel, e enlouqueceu.

A paixão foi fulminante e o casamento um desbunde.

Mas um dia apareceu uma espinha naquela obra de arte. Foi como ver uma Ferrari riscada a canivete. Cogitou suicídio, mas tentou se acalmar, devia ser coisa de hormônio. Mas não era coisa de hormônio, devia ser coisa do demônio, porque a espinha inflamou e virou uma espécie de furúnculo horrível, enorme. Uma bolha vermelha horrenda no meio da bunda mais perfeita que um dia veio dar as caras na Terra.

Cogitou até mesmo vender seu XR3 para pagar uma cirurgia plástica para ela.

– Nada jamais será como antes.. – sua intuição de homem sensível lhe dizia ao pé da orelha peluda.

Coincidentemente, nessa mesma época o casamento começou a ficar uma merda e nunca mais foram os mesmos. Só brigas e desentendimentos.

Agora estavam ali, com cara de bunda, assinando a papelada do divórcio.

Raquel não lembra quando tudo começou a acabar, mas acha que foi mais ou menos na mesma época que viu o vizinho num XR3 conversível com capota elétrica, lindo de morrer.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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