domingo, 23 de setembro de 2018

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Capa / Ciência – Por Jorge Calife / A estação espacial inflável da Goodyear

A estação espacial inflável da Goodyear

Matéria publicada em 15 de março de 2018, 07:00 horas

 


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Uma estação espacial feita de borracha, como uma enorme câmera de ar de um pneu. Uma ideia assim só podia ter partido de um fabricante de pneus. No caso, a empresa americana Goodyear, que testou a ideia em 1960. Na época a corrida espacial avançava a todo vapor e o complexo industrial americano participava do esforço para vencer a União Soviética. Um ano antes, em 9 de março de 1959, os soviéticos tinham lançado o Sputnik 9. Carregando um boneco astronauta e um cachorro, Chernuska (Pretinho). Que voltou à Terra são e salvo.
Todo mundo sabia que depois dos cachorros o espaço seria invadido pelos homens. Os projetos de estações espaciais estavam sendo estudados desde a década de 1930. A forma preferida era de uma roda, girando a três rotações por minuto, para produzir uma “gravidade artificial” ao longo da borda. Assim os tripulantes não ficariam flutuando o tempo todo, o que já era considerado prejudicial à saúde. Em 1956, em um programa de TV produzido pela Disney, o engenheiro alemão Werner Von Braun tinha explicado que o melhor meio de construir a “roda espacial” seria com módulos infláveis. Que depois de montados, pelos astronautas em órbita, seriam cobertos com placas de metal, como proteção contra os meteoritos. Na época ainda não existia o temido “lixo espacial”.
A Goodyear gostou da ideia e propôs uma estação toda inflável, feita de borracha. A Nasa testou um protótipo, na escala 1:4 no seu centro espacial de Langley, na Virginia. Seria um projeto grandioso, uma casa espacial com acomodações e espaço para 80 tripulantes. Alguns seriam observadores militares, vigiando a Terra lá do alto para detectar manobras de exércitos e marinhas hostis. Outros seriam cientistas, observando as nuvens para previsão do tempo, e o espaço para estudar as estrelas e os planetas.
Infelizmente os planos foram cancelados em abril de 1961, quando os soviéticos enviaram ao espaço o cosmonauta Yuri Gagarin. Em uma nave idêntica a que fora testada pelo cachorro Chernuska. O presidente John Kennedy decidiu que a prioridade era colocar um homem na Lua antes dos russos. E os projetos de estações espaciais foram adiados. A primeira estação espacial americana só subiu em 1973. Era uma casa de três andares montada dentro do terceiro estágio de um foguete Saturno 5. Que tinha sobrado da corrida para a lua. Não tinha gravidade artificial e só levava três tripulantes. Os soviéticos também passaram a lançar engenhos semelhantes, os laboratórios orbitais Salyut.
Mas a ideia de um veículo espacial inflável, feito de borracha, não foi esquecida. E foi retomada no século XXI com uma série de módulos construídos pela empresa Bigelow Aerospace, do bilionário Robert Bigelow, de Las Vegas. Um desses módulos, o BEAM, foi instalado com sucesso na Estação Espacial Internacional em abril de 2016. Ao contrário da roda espacial da Goodyear o módulo inflável da ISS não precisa de proteção contra meteoritos. Ele é feito de um material sintético chamado Vectram, capaz de resistir a impactos de objetos em alta velocidade.
No futuro módulos assim serão usados para montar hotéis espaciais para turistas. E para construir uma base espacial em Marte. A conquista espacial é um empreendimento que envolve toda a espécie humana. E as ideias que não são realizados por uma geração, acabam sendo aproveitadas pela geração seguinte. Outra ideia que aparece no anúncio da Goodyear, de 1960, é o “balute”. Um balão que se enche atrás de um foguete para atuar como freio durante uma descida na Terra ou em planetas como Marte. O “balute” é a base para o escudo de reentrada que a Nasa está desenvolvendo para as futuras expedições a Marte.

Fantástica: A roda espacial e o balute inflável no anúncio de 1960

Fantástica: A roda espacial e o balute inflável no anúncio de 1960

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Interessante. Essa ideia resolve o problema do volume dos equipamentos a serem transportados para a órbita da Terra e viagens interplanetárias. Tomara que estas tecnologias se tornem realmente viáveis em um futuro próximo.

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