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A flor e a náusea

Matéria publicada em 9 de março de 2018, 07:00 horas

 


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Como um apreciador incontrolável de poesias, aprendi mais que lê-las, por conta do meu ofício de editor, consegui ao longo das últimas décadas traduzi-las, decantá-las, depurá-las de forma que eu entenda suas entrelinhas, mais que as próprias linhas.
Por conta desse universo em que vivo, um dos poetas modernistas que mais aprecio é Carlos Drummond de Andrade, nome singular que marcou o século XX com suas palavras e deixou um rastro de profunda admiração, muitas vezes sendo comparado ao poeta português Fernando Pessoa, não pela semelhança dos textos, mas sim pela legião de leitores que só faz crescer desde sua morte em 1987.
Ao meu ver uma de suas poesias que mais provoca reflexão e que se identifica com o momento presente, o caos do dia a dia, a perda de visão (leia-se falta de sensibilidade) por parte de nós que vivemos no intenso corre-corre, é indiscutivelmente “A flor e a náusea”.
Drummond consegue fundir o tempo real e o tempo da ficção. Fala da indignação se colocando no lugar de todos os que caminham pelas ruas do centro de uma grande cidade. Mostra que se incomoda como nós com os erros do totalitarismo de esquerda e também de direita.
Revela a mesquinhez do homem, do quanto nos tornamos urbanóides, isso na distante década de 1940. Na poesia ele coloca todo o seu desconforto em relação a vida e como ela era tratada já naquela década. O poeta mostra há 70 anos, que tudo já era caótico e sufocante, pura mercadoria de consumo e mais nada.
A náusea colocada na poesia, nasce do mal-estar das coisas que ele vai se deparando pelo caminho. “Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me?”.
E pelo seu caminho vê coisas, sente a clausura de sua época, assim como sentimos agora a nossa. Ele busca a todo instante uma saída, por isso continua o seu caminho de puro idealismo ou alienação. Ele professa em sua poesia que acredita de alguma forma nas mudanças, assim como nós que buscamos avidamente uma luz no fim do túnel, acreditando como o poeta que vamos mudar o curso desse rio imundo, onde como bonecos, somos muitas vezes controlados por ventríloquos de terno e gravata.
O que ele tenta nos dizer é que não podemos viver enclausurados pela miséria e muito menos pela repressão. Ele prega que temos que resistir mesmo vivendo no tempo sujo. Veja que o nosso tempo não é muito diferente de 70 anos atrás.
Ele diz em um dos momentos mais contundentes do poema: “Sob a pele das palavras há cifras e códigos”, e cá estamos nós vivendo mais do que nunca as voltas com as cifras que alimentam as máquinas do bem e do mal, e, os códigos, os que escondem aqueles que nos roubam e ainda os itens que compramos e vendemos para poder sobreviver.
O tempo inteiro ele clama, esse é um grito ad eternum, sempre por liberdade e solidariedade. Sua poesia, esta em especial, é arma de combate e resistência, talvez um grito surdo porque ele não é percebido pela multidão que transita ao seu lado pela rua.
Mas talvez pela sua sensibilidade, como poucos, ele percebe as mudanças, acredita que estas sejam possíveis, assim como acreditamos e nos prometemos sempre mudar a cada nova eleição, redescobrindo o Brasil e enterrando as velhas espécies de seres hediondos e egoístas.
Por fim, mais a frente ele vê a flor que rompe o asfalto e chama a atenção de todos. “Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto”.
No sentido metafórico, a flor que desabrocha pode ser o novo mundo, sonhos e desejos que independente dos anos sempre irá existir em nós. Assim como Drummond que concebeu esta poesia em 1940, ainda temos esse mesmo sentimento de amor e repulsa, de alegria e ódio, de tristeza e esperança, mas sempre acreditando que uma flor poderá romper o asfalto trazendo melhores dias.
Tudo pode parecer inocente, pueril e até tolo, mas não é. A flor, a náusea, o asfalto, o sonho, a realidade e a esperança sempre existiram, seja em 1940 ou agora em 2018.

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br


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