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A gata que foi para o Espaço

Matéria publicada em 16 de novembro de 2017, 07:10 horas

 


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Qualquer livro sobre a história das viagens espaciais menciona a Laika, a cachorrinha que morreu a bordo do Sputinik 2, em 1957. Também são lembrados os macacos Able e Baker, que viajaram em um foguete Júpiter, e o Chimpanzé Ham, que testou a nave americana Mercury em 1960. Mas ninguém se lembra do primeiro gato a viajar além da atmosfera da Terra. Na verdade era uma gata chamada Félicette e ela viajou no foguete francês Véronique AG-1, que subiu a 157 quilômetros de altura no dia 18 de outubro de 1963.

Semana passada um grupo de entusiastas iniciou uma campanha na internet para angariar fundos e construir uma estátua da Félicette, que será colocada em uma praça de sua cidade natal, Paris. As pessoas podem contribuir com quantias que vão de um a dez euros. Dependendo do valor da doação o simpatizante da causa poderá receber uma foto da Félicette com seu autógrafo (a pata impressa em tinta).

Ao contrário da Laika, que morreu no Espaço, Félicette voltou a Terra sã e salva, caindo de paraquedas que nem o Yuri Gagarin, o primeiro homem no Espaço. Mas aí começou a infâmia. Um erro em um comunicado à impressa mudou o sexo da gata. E a chamou de Felix. Até um selo postal, com a figura de Félicette foi emitido com uma inscrição em homenagem ao gato Felix.

Se depender dos admiradores da felina francesa esses erros serão corrigidos.

Muitos animais foram ao Espaço durante as primeiras experiências de voo espacial. Ninguém sabia com certeza como os organismos vivos reagiriam a ausência de gravidade. Alguns médicos supunham que o sistema nervoso e digestivo poderia entrar em colapso. Assim, antes de enviar pessoas ao Espaço, as agências espaciais começaram a mandar bichos dentro de cápsulas e cones de foguete.

Félicette ficaria indignada se soubesse que alguns dos primeiros seres vivos que foram ao Espaço eram ratos. Em 1950 os americanos lançaram vários camundongos e um macaco rhesus dentro de mísseis V-2 capturados dos alemães. O macaco Albert II chegou a 159 quilômetros de altura em 1949, mas morreu quando o paraquedas da capsula não se abriu. Alguns ratos também tiveram o mesmo destino.

Enquanto os americanos usavam ratos e macacos, os russos passaram a lançar foguetes com cachorros de rua. Eles eram recolhidos nas ruas de Moscou e a preferência por cachorros de rua era devido a sua resistência ao frio. Para os cientistas russos um cachorro capaz de resistir ao frio do inverno de Moscou teria mais chances de aguentar o frio do Espaço Sideral.

Era um raciocínio bem simplista e levou à morte da Laika. A primeira cachorra a orbitar a Terra morreu de calor, quando a temperatura dentro do Sputnik 2 passou dos 50 graus centígrados. O satélite fora construído sem o isolamento térmico adequado, devido a pressa dos soviéticos em superar os americanos na corrida espacial.

Em 1963 a França criou a sua agência espacial. Sendo o terceiro país do mundo a fazer isso, depois dos Estados Unidos e da União Soviética. Os franceses só tinham foguetes capazes de voos suborbitais, como o Véronique. Mas iniciaram um programa de testes biológicos com gatos. Seguindo o exemplo dos russos eles recolheram vários gatos abandonados nas ruas de Paris. Eles foram submetidos a um treinamento igual ao dos astronautas humanos, que incluía girar dentro de uma câmara centrífuga para simular as altas gravidades durante o lançamento do foguete.

Félicette suportou tudo isso e foi escolhida para o missão por ser mais tranquila do que os outros gatos. Antes do voo ela passou por uma cirurgia e teve eletrodos implantados no cérebro. São os fiozinhos que aparecem na foto. Eles seriam para registrar o eletroencefalograma do animal durante a missão. Que foi um sucesso.

Autógrafo: Foto vem com a pata da felina

Autógrafo: Foto vem com a pata da felina

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Muito legais estas curiosidades sobre o início da exploração espacial. Mereciam estar em um livro novo, hein Calife?

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