domingo, 26 de março de 2017

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A gaveta do amor

Matéria publicada em 10 de março de 2017, 07:00 horas

 


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Não faz muito tempo, ouvi de um amigo uma história diferente das muitas que li nos milhares de livros que produzi ao longo dos últimos 34 anos.

Ele, cada vez mais apaixonado, enamorado por uma linda mulher, a cada novo encontro onde o amor crescia de maneira vertical, criava com a amada, brincadeiras e jogos sedutores, onde se permitiam mais que beijos de amantes e a troca de confidências, buscavam algo mais, queriam a todo custo descobrir uma forma de perpetuar esse amor quase pueril, mesmo que ambos já tivessem passado dos 30 anos.

Assim, no armário do quarto da namorada, pensou-se em criar um “esconderijo” para guardar tudo o que eles trocavam ao longo dos dias de amor e paixão. Nesse local tudo o que fosse significativo para ambos, seria ali carinhosamente depositado. Para isso, elegeu-se a maior gaveta ali existente.

Então, naquele espaço incensado de desejos, permitiam-se depositar bilhetes e cartas de amor, corações recortados em papéis coloridos, fotos onde sempre apareciam juntos e sorrindo, perfumes depositados em pequenos frascos, anéis e pulseiras, carinhos, escova e pente, programa de peças de teatro que haviam assistidos juntos, lágrimas de saudade, ingressos de filmes exibidos em cinemas da cidade onde moravam e até de outras para as quais já haviam viajado, flores diversas, todas já sem aroma e com folhas secas, porém, repletas de promessas e até algumas peças íntimas.

Seria talvez aquele local uma Caixa de Pandora moderna, um pouco diferente do artefato da mitologia grega, objeto tirado do mito da criação de Pandora, a primeira mulher criada por Zeus? Na verdade a caixa original continha todos os males do mundo que um dia fora aberto por ela, deixando escapar um a um, conservando apenas em seu poder a Esperança.

Esse casal apaixonado, certamente pelo que descrevera meu amigo, também buscara conservar sempre viva a esperança, que unida à certeza, acreditavam que naquele pequeno espaço, oásis descoberto em meio a tantos outros dentro de um armário que ocupava muito do quarto de sua amada, poderia funcionar como um altar onde quase que diariamente eram depositadas ofertas de louvor ao amor e a vida, um espaço que como uma flor era regado religiosamente, não com água, mas sim com fé e esperança no que acreditavam ser um futuro perfeito para ambos.

Eu, meio incrédulo ouvia esta história saída da boca do meu querido amigo de maneira embevecida, e à medida que me contava a sua paixão pela linda mulher e pela sua quase devoção por aquela gaveta repleta de esperanças, assim como a Caixa de Pandora, tomava-me de sonhos e pensamentos buscando imaginar como seria aquele espaço quase surreal, repleto de referências e emoção, inevitavelmente desejei de pronto conhecê-lo, bem como a sua doce Pandora, surpresa que me está sendo reservada para os próximos dias.

O amor tem matizes e formatos quase indescritíveis, vem sempre embrulhado em papéis delicados e expectativas infindas, uma verdadeira Arca da Aliança. Algo talvez parecido com aquela descrita na Bíblia como o objeto em que as tábuas dos Dez Mandamentos e outros de sagrado valor teriam sido guardados, veículo de comunicação entre Deus e seu povo.

Meu amigo ao fim da conversa me confidenciara que a tal gaveta de sonhos era periodicamente inspecionada por ambos, pois aquele recanto de amor servira para guardar o registro de uma vida a dois que começava a nascer e que prometia ser longeva e feliz. Todas as alegrias se permitiam morar ali, algumas vezes ele fez questão de dizer que chegaram a guardar umas duas ou três pequenas brigas, rusgas que carinhosamente chamavam de “aparas”. Uma forma de conhecer um ao outro, alinhando de maneira alegre e cordata o sentimento que sentiam um pelo outro, evitando arranhões futuros e lágrimas que não fosse de saudade e emoção.

Essa confidência tão infantil e sincera me fez lembrar do querido e saudoso poeta Caio Fernando Abreu que cunhou esta frase: “Porque guardar roupa velha dentro da gaveta, é como ocupar o coração com alguém que não lhe serve”.

Eis aí uma história diferente, quase uma ficção, algo que me levou a refletir de maneira mais detida no amor e o que ele desencadeia quando chega ao coração. Inevitavelmente somos tomados por uma onda de desejos, um renovar de forças que faz nascer os sonhos e a criatividade, assim como criar uma gaveta de amor, algo tão mágico como garrafas lançadas ao mar, ação que na hora costumamos classificar com um olhar romantizado que nos leva a imaginar que ali enclausuradas estão cartas de amor flamejante, poemas com rasgos de paixão e dor ou mesmo reais pedidos de socorro enviados por pessoas em lugares longínquos deste nosso enorme planeta.

Esse amor que não tem medidas me remete por fim a poesia sempre renovada da poeta portuguesa Florbela Espanca, cujos livros tenho em minha cabeceira. Fanatismo, é uma obra que se tornou ainda mais imortal na voz de Fagner.

“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida. / Meus olhos andam cegos de te ver. / Não és se quer razão do meu viver. / Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida. / Passo no mundo, meu amor, a ler. / No misterioso livro do teu ser. / A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa. / Quando me dizem isto, toda a graça. / Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros: / Ah! Podem voar mundos, morrer astros, que tu és como Deus: princípio e fim!”.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. Parabens. Textos maravilhosos.

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