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A jornalista e o garoto tatuado

Matéria publicada em 18 de junho de 2017, 09:00 horas

 


Em poucos dias, duas atitudes de militantes de esquerda e de direita fazem a delícia dos palpiteiros de redes sociais

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Primeiro foi o caso de um adolescente, supostamente apanhado em flagrante ao tentar roubar uma bicicleta de um deficiente físico, que teve a imagem exposta na rede social mais popular do mundo, tendo a expressão “sou ladrão e vacilão” tatuada na testa. Dias depois, a jornalista Miriam Leitão, ao embarcar em um voo, foi agredida verbalmente por um grupo de militantes do PT que estava no mesmo avião.
Resultado: tretas e mais tretas. O interessante é que gente que se identifica com a chamada direita defendeu a punição ao adolescente, enquanto militantes da chamada esquerda – nem todos, diga-se de passagem – defenderam a atitude das pessoas que atacaram com palavras a jornalista e colunista especializada em economia.
E, como sempre, os extremistas de ambos os lados passaram das medidas e escreveram um bocado de bobagens defendendo seus pontos de vista. Além disso, as opiniões mais equilibradas e racionais acabam não tendo muita ressonância, porque para os militantes, não importa a realidade: importa defender seus pontos de vista.

O caso do garoto tatuado

Quando uma pessoa é apanhada cometendo um crime, o que existe é um flagrante. E, como diria o comentarista e ex-árbitro de futebol Arnaldo César Coelho, “a regra é clara”: quem é apanhado cometendo um crime deve ser encaminhado à Justiça, a quem cabem as providências necessárias.
No caso do adolescente, ele poderia ser encaminhado a uma unidade para aplicação de medidas socioeducativas e, se for confirmado que se trata de pessoa com problemas mentais, como foi dito, ao devido tratamento.
Os militantes de direita, movidos pela vontade de assegurar punição e, em alguns casos, pelo descontentamento com a lei que torna menores de 18 anos inimputáveis (ou seja, não são passíveis de serem processados criminalmente), defenderam a agressão nas redes sociais e receberam respostas. Algumas vieram, sim, de militantes de esquerda e de ativistas pelos direitos humanos, mas também houve respostas de gente que simplesmente estava vendo o caso com bom senso.
No fim das contas, excluídos os argumentos que fazem do caso um debate entre defensores dos direitos humanos e das punições rigorosas, e olhando-se simplesmente os fatos, não há o que discutir: de acordo com a lei, o que foi feito ao rapaz foi tortura e lesão corporal. E tanto o tatuador quanto o homem que filmou a tatuagem estão presos. Vão responder pelos crimes.

O caso da jornalista xingada

Quando Miriam Leitão entrou naquele avião e ouviu um coro de xingamentos de um grupo de petistas, estava passando por um dos “ossos do ofício”: em geral, quanto melhor é um profissional de jornalismo, mais gente ele/ela incomoda com reportagens e opiniões e mais ofensas está sujeito a ouvir.
O detalhe é que ela resolveu que não ia simplesmente “deixar pra lá”. Resolveu usar sua coluna no jornal “O Globo” para contar o que havia ocorrido.
E aí veio a choradeira dos petistas: teve gente reclamando que ela tenha usado um espaço que conquistou com os méritos de sua carreira para narrar o que houve. Teve também gente dizendo que não foi bem assim, que os xingamentos eram dirigidos às Organizações Globo, não a ela, e que ela estava exagerando.
Pois bem: manifestar sua opinião, mesmo que ofensiva, não é crime. Todo mundo tem direito de gostar ou não deste ou daquele jornal, emissora de TV, site ou seja que meio de comunicação for, e de dizer isso.
Mas o que Miriam Leitão fez também não está errado. Ela é jornalista e fez o que jornalistas fazem: escreveu sobre algo que aconteceu. Se estivesse escrevendo uma reportagem, haveria a questão do envolvimento pessoal, mas ela usou um espaço de opinião, onde a ideia é ser pessoal mesmo. Contou o que houve e disse o que achava.
“Ah, mas ela não precisava ter feito isso de levar o caso a milhares de leitores”, pode dizer alguém. Não precisava, mas pode. E fez. Saiu caro pro PT. A presidente do partido escreveu uma nota condenando a atitude dos militantes, não sem se queixar do tratamento que o PT, segundo ela e a maioria dos petistas, recebe das Organizações Globo. Mas pedir desculpas em público é sempre chato.

Mais uma

Na sexta-feira (16), outro militante do PT aprontou: ofendeu o jornalista Alexandre Garcia, também das Organizações Globo. Desta vez as agressões verbais começaram antes do embarque e prosseguiram durante o voo. Garcia foi bonzinho. O piloto perguntou a ele se queria que o “mala sem alça” fosse retirado do avião e ele disse que não.

E nós com isso?

Pois bem, nos dois casos, temos exemplos de opiniões extremadas sendo expostas em redes sociais. Um dos motivos do sucesso dessas redes é esse mesmo: elas dão a quem não tem acesso ao espaço dos órgãos de comunicação o direito de se manifestar. Só que “pau que dá em Chico, dá em Francisco”. A resposta pode vir.
No caso do garoto tatuado, a ação contra ele foi criminosa, e a resposta foi a prisão dos autores.
No caso dos militantes petistas que ofenderam a jornalista – ou a empresa em que ela trabalha, dependendo da versão – a resposta foi o uso da prerrogativa da ofendida de narrar o que aconteceu. Isso acabou gerando prejuízo à imagem da instituição que os militantes defendiam.
Enquanto isso, os palpiteiros de redes sociais continuam com seus comentários. Estão no direito deles, assim como estará em seu direito quem responder. Coisas da liberdade de expressão.

4 comentários

  1. Meu nome é Zé Pequeno!

    Estou cansado de ler tantas tolices porque o mundo é 99,9% capitalista com alguns poucos países e ditadores.
    Cada mídia, políticos,pessoas e etc possuem os seus interesses e naturalmente vão defende-los.
    O que eu quero ver na mídia são criminosos presos, crimes punidos e leis eficientes não este “eterno blá-bla” porque se fosse assim, mesmo sendo imperfeito o mundo no qual vivemos não teríamos que ler a inocência de pessoas que não o são, da justiça que não existe, dos Salvadores da Pátria que acumulam milhões no exterior e de poucos moldando a cabeça das pessoas menos esclarecidas por pelo menos dois anos e apregoando ódio político enquanto o problema real é a falta de justiça rápida e certa para os criminosos de todas as matizes.
    Na China a família paga a bala, aqui se constrói um presídio novo, inocenta quem não é inocente em cadeia nacional, eu não “sabia” vale para algumas pe$$oas e cadê as jóias, a grana,etc.
    Tô cansado e nem comecei…!

  2. الفتح - الوغد

    Miriam Leitão é uma mulher inteligente, boa profissional, mas suas opiniões não são a verdade dos fatos e não concordo com muito do que ela diz… Outra coisa é vc ser importuno e desrespeitoso com alguém. Aí não é questão de concordar ou não com opiniões, é juízo de fato. O errado passa a ser você…

  3. Todo mundo que comete roubo, furto ou ato ilícito/antiético deveria ter a testa tatuada: quem usa carteirinha estudante falsa, quem faz aquele “gatilho” no motor ferrado pra vender o carro usado, quem usa gatonet, quem dá a cervejinha do guarda, quem pega atestado médico falso pra faltar ao trabalho, quem pede à avó para pagar todas as contas da casa para se valer da fila de idosos, quem usa xerox da empresa pra cópia particular, quem pega recibo falso pra sonegar imposto de renda, quem bate ponto pro amigo que faltou, quem dirige depois de beber, quem pede àquele amigo da prefeitura pra aliviar aquela multa, quem recebe troco a mais e fica quieto, quem compra mídia pirata…
    De algum modo, pessoas assim estão furtando dinheiro, tempo ou confiança de alguém.
    Ah, o criminoso que tatuou o jovem em questão já havia sido preso por roubo anteriormente. Tatoo na testa dele também.

    Quanto a M. Leitão, lembrei-me do episódio de Serra e do “atentado” da bolinha de papel. Factóide já desmentido. É, sra. Leitão, quem planta colhe.

    • Até achei interessante o seu comentário, mas ainda acho que cada caso é um caso. Concordo com a grande maioria das situações que você falou, mas algumas delas, embora sejam erradas, infelizmente vejo como uma consequência do sistema que praticamente não dá opção.

      E eu digo mais: todo mundo é criminoso. Seja eu, você, o prefeito, o Papa! Todo mundo já cometeu crime um dia na vida! Não adianta falar que não…

      Particularmente, sobre pegar atestado médico falso para faltar: não sou a favor dessa atitude, porém, você tem que ver o dia-a-dia de cada um para poder julgar! Aqui no Brasil os trabalhadores são sobrecarregados e recebem salários muito pequenos para a responsabilidade que, muitas vezes, carregam! Sem falar dos patrões que muitas vezes não pagam os direitos deles (isso você não citou e também é desonesto). Então, todos somos seres humanos e precisamos trabalhar, porém algumas vezes estamos no nosso limite e é difícil ser obrigado a estar sob pressão. Você vai tentar conversar com o seu chefe sobre o assunto, ele será amistoso com você? Em muitos casos, não! Então, acaba que o atestado infelizmente vira a única opção, não queria que fosse assim porque sei que é errado também, mas…

      Sobre pegar recibo falso, é errado sim! Mas mais errado ainda são os políticos que usam esse dinheiro para as farras deles! Como você se sente bem em pagar impostos (sendo que seu dinheiro já é pequeno) pra eles usarem assim?

      Entendo o seu ponto de vista, mas não saia julgando assim…

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