terça-feira, 19 de junho de 2018

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A magrela esquecida

Matéria publicada em 12 de junho de 2018, 07:55 horas

 


A gente só percebe que o conforto da nossa vida é muito frágil quando se rompe algum elo da corrente infinita de partes que formam o nosso sistema civilizatório.

Ninguém agradece nas orações dominicais a eletricidade nossa de cada dia até que enfrentemos um blecaute. Ou a falta de água ou a hecatombe, que os deuses não me ouçam, que uma falha planetária nos sistemas de acesso à internet provocariam.

Ou então a dependência que ainda temos do velho e bom ouro negro, o petróleo. Esse líquido que nasce nas insondáveis profundezas oceânicas, como uma iguaria orgânica lentamente cozida em milhões de anos e que queimamos impiedosamente dando rolês ou exercendo nosso supostamente inalienável direito de ir e vir.

Exemplo disso foi a histeria coletiva que tomou de assalto o Brasil, e este inculto articulista que vos escreve foi parte integrante da manada indócil. Hordas de pessoas madrugaram em filas intermináveis para completar tanques semi-cheios e galões sobressalentes, como se estivessem adquirindo o último estoque de oxigênio antes da implosão final do planeta Terra.

Subimos muitos degraus na escada material nos últimos séculos. Já nos acostumamos com tantas traquitanas do mundo moderno que não conseguimos mais nos imaginar sem elas.

Mas os mesmos degraus que nos conduzem para cima nos levam para baixo. O choque de realidade é duro, mas depois de algum tempo percebemos que a vida continua, na escuridão, off-line ou sem gasolina.

O efeito mais notável da crise foi ver as pessoas voltando a caminhar pelas ruas, como se as cidades fossem feitas finalmente para elas. Pessoas que usavam o carro para ir à padaria no mesmo bairro em que moram.

Desci três degraus do meu Panteão automobilístico e passei a cumprir os meus trajetos a pé. Só então lembrei de uma ex-namorada esquecida na garagem de casa: a minha magrela de alumínio e 18 marchas. Levei-a na bicicletaria para uma geral e saí destemido pelas ruas da cidade, com o vento soprando na cara e uma alegria juvenil que nem o prazer de dirigir os melhores sedãs é capaz de se comparar.

Dizem que paladar não regride, e que depois que você tem o melhor é quase impossível retroceder ao que você tinha antes. Hoje já tenho algumas dúvidas sobre a validade desse pensamento.

O velho ouro negro está de volta aos postos de todo o Brasil, mas espero que eu consiga estabelecer novamente uma relação de amor com a minha velha e boa magrela de 18 marchas. Faz bem pra saúde, pro bolso e pro planeta.

Bora pedalar?

 

 

 

 

2 comentários

  1. Gostei da matéria, Alexandre.
    Já estava pensando em voltar a usar a minha magrela de 18 marchas pelo menos pra dar umas voltas no bairro. Padaria perto de casa sempre vou a pé na caminhada da manhã. No mercadinho no bairro próximo só uso o carro quando a compra é grande. Se for pouca coisa, vou a pé.
    Bom dia a você, a todos do Diário do Vale, jornal que leio todos os dias e a todos os leitores.
    Que todos tenha sempre, Jesus no pensamento!

  2. A magrela é bom para quem anda sem crianças…
    Quem tem criança pequenas não dá…
    Muita tranqueira para carregar…
    Compras a fazer, tempo no relógio a economizar…

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