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Ao infinito e além

Matéria publicada em 10 de outubro de 2017, 07:05 horas

 


Reflexões sobre as fronteiras do espaço e do tempo; Universo luta contra a entropia através de um fenômeno poderoso chamado vida

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De onde viemos e para onde vamos? Essa é uma pergunta que os seres humanos tentam responder, desde que moravam em cavernas. Sem um conhecimento maior sobre o mundo em que vivemos, o homem inventou fábulas, mitologias e religiões. Nossos antepassados achavam que algum gigante superpoderoso tinha criado o mundo. E um dia certamente iria destruí-lo. Podia ser no apocalipse da mitologia judaico-cristã, ou no Ragnarok, o crepúsculo dos deuses da mitologia escandinava, não importava, o mundo tinha prazo de validade. O nome do criador do mundo também variava de acordo com cada povo e sua cultura. Mas de uma coisa todos concordavam: Ou esse criador era eterno ou então tinha surgido do nada em um passe de mágica.

Nos últimos duzentos anos os seres humanos construíram instrumentos de observação e criaram um método científico que permitiu que passássemos da fantasia para a realidade. Algumas pessoas acham que teria sido melhor se continuássemos embalados em nossos antigos mitos e fantasias tranquilizadoras. Porque o mundo em que vivemos se revelou muito maior, perigoso e assustador do que nossos antepassados lá das cavernas poderiam ter imaginado.

Descobrimos por exemplo que nada, absolutamente nada é eterno. Até o Universo teve um começo e vai ter um fim algum dia. A ideia do infinito é uma ilusão humana, alimentada pela nossa pequenez diante do Universo. Mesmo com o foguete mais rápido que podemos construir, uma pessoa envelheceria e morreria antes de percorrer uma fração ínfima do espaço estrelado. Como aquele astronauta no final do filme “2001”. Mas os físicos não precisam de naves espaciais para sondar os limites do espaço e do tempo. Eles dispõem de telescópios, como o Hubble, que fica lá em cima no Espaço, ou o futuro James Webb.

Com a ampliação desses aparelhos podemos voltar no tempo e capturar imagens do Universo como ele era há bilhões de anos atrás. Isso se deve a velocidade finita da luz. Quando o Hubble fotografa uma galáxia a milhões de anos luz de distância, ela aparece como era há milhões de anos no tempo. Porque sua luz levou esse tempo todo para viajar de lá até os nossos olhos.

E podemos olhar além da luz, captando, por exemplo, a radiação cósmica de fundo. O brilho que restou da explosão que criou o Universo atual há mais de 13 bilhões de anos.

É um tempo imenso, mas não é infinito. E assim como começou, o Universo vai decair lentamente, perdendo energia através da entropia, esfriando até virar um vácuo morto de partículas atômicas. Não vamos viver para ver nada disso. Ao contrário do apocalipse mitológico o fim do Universo vai ocorrer daqui a bilhões e bilhões de anos. E é pouco provável que ainda exista algum ser humano vivo para ver o espetáculo.

O Universo luta contra a entropia através de um fenômeno poderoso chamado vida. Desde que surgiu a vida evolui para estruturas cada vez mais complexas. A entropia destrói suas formas individuais, mas os seres vivos enganam a morte criando cópias de si mesmos. E se perpetuando através das novas gerações.

Aqui na Terra a vida inteligente já chegou ao ponto de entender como o Universo surgiu e como vai terminar. Mas podem existir outros tipos de vida inteligente por aí afora. Inteligências artificiais como aquelas que já começamos a construir aqui na Terra. Esse tipo de vida pode se tornar imortal, sobrevivendo até mesmo a morte do Universo. Como eles fariam isso? Criando novos universos a partir da espuma quântica do espaço-tempo.

Semana passada três cientistas dos Estados Unidos ganharam o Nobel da Física ao comprovar que o tecido do espaço-tempo pode ser alterado por ondas gravitacionais. Essa trama que forma o Universo é o que eles chamam de brama, da palavra membrana. E ela não é única. Além dela podem existir outras bramas, cada uma contendo um universo diferente. São as fronteiras de outras realidades onde quase tudo é possível.

Universo: Galáxias como grãos de areia

Universo: Galáxias como grãos de areia

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

7 comentários

  1. Magnifico. Obrigado pelo brilhante texto.

  2. liberdade e propriedade

    “Ou esse criador era eterno ou então tinha surgido do nada em um passe de mágica.” E o Ovo Cósmico, origem do mundo pela ciência, surgiu de um passe de mágica???? Deixando a fé de lado e falando de forma racional, quando criança eu perguntava de onde surgiu Deus. Resposta: As vezes nos esquecemos, mas a cronologia, o tempo e até a razão, também são crias e estão subordinadas à Deus. Na nossa “razão”, Deus tem que ter nascido de alguém cronologicamente e invariavelmente, mas não é bem assim, Deus não está subordinado a razão nenhuma, Ele tudo pode.

    Falando ainda de razão, a partir do momento que decido que tudo foi criado por um Deus, como escolher qual o Deus? Qual foi o único que sem tem notícia que ressuscitou?? E a noticia é forte, vem sendo trazida por milênios, por ninguém menos que uma linha ininterrupta de sucessores, daquela que é a maior organização do planeta. Nada na terra, sem o governo de Deus, pode ser tão grande e longevo como essa organização.

  3. Ótima matéria, há muito tempo não lia por aqui!

  4. Realmente a imortalidade sempre esteve ao nosso alcance, pois literalmente viemos do pó e a ele voltaremos. Tudo o que vivemos aqui nada mais são do que consequências de fenômenos físicos, dos quais nos originamos e para os quais estamos destinados a retornar.

  5. As vezes me perco com tantas informações que deixo esquecido buscar sua coluna Jorge.
    Quando a reencontro aqui no Diário do Vale, sinto-me em festa. Você escreve muito bem!
    É objetivo, sabe sintetizar e abordar matérias tão áridas, desconhecidas e controversas, como essa, com elegância e lucidez.
    Parabéns!

  6. Fascinante! Quando paramos para pensar no quanto evoluímos em nossa compreensão do universo nos últimos 200 anos – comparados com os 200.000 anos do homo sapiens no planeta – tem-se a impressão de que fomos tocados pelo monolito do “2001 – Uma Odisseia no Espaço” em algum momento do século XVIII ou XIX. O nascimento da república moderna como sistema político e do capitalismo como sistema econômico permitiram que a humanidade alcançasse vôos inimagináveis.
    Um universo novo de descortinou ante nós. É como a máxima atribuída ao cientista britânico J. B. S. Haldane: O Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos; ele é mais estranho do que podemos imaginar!”

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