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As idiossincrasias das avós

Matéria publicada em 17 de março de 2017, 07:00 horas

 


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A escritora e imortal Rachel de Queiroz certa feita alardeou que netos são como heranças: “Você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente eles caem do céu”.

Indiscutivelmente não se pode negar que ser avó é algo maravilhoso! Mas há quem diga que exista controvérsia nessa colocação, pois da mesma maneira que existem pais amantíssimos e outros de final de semana, também existem avós apaixonados e outros que são nitroglicerina pura.

Mais que celebrar no dia 26 de julho as alegrias ser uma avó, estas simpáticas senhorinhas ou seria melhor dizer, mulheres, já que faz algum tempo que avó deixou de ter o perfil “Dona Benta” de ser, muitas delas têm desfilado por aí lindas e faceiras no alto dos seus quase 40 anos.

Sendo assim, as idiossincrasias de uma avó, ou seja, as suas características, o seu comportamento, tem sofrido grandes mudanças ao longo dos últimos anos.

A marca imortalizada pela querida atriz já falecida Zilka Salaberry, a primeira Dona Benta do Sítio do Picapau Amarelo, obra de Monteiro Lobato, praticamente já entrou com o pedido de aposentadoria junto ao INSS.

Hoje, muitas das avós jogam no time da Vovó Zilda da Família Dinossauro, série de TV exibida entre 1991 e 1994. Era uma personagem sempre com frases cortantes e até ácidas, ou ainda da avó Inês da novela Mulheres Apaixonadas, exibida em 2003, cuja atriz, também já falecida, Manoelita Lustosa, infernizava sem dó a vida da netinha Salete, personagem da atriz Bruna Marquezine.

Para ficarmos no momento atual, basta dar uma expiada na novela das 18 horas da Globo, Sol Nascente, onde a atriz Laura Cardoso, que interpreta a personagem Sinhá, vive uma avó que dá um show de destreza e mau caratismo.

Vovó Mafalda, palhaça criada pelo ator Valentino Guzzo e que fazia o programa do Bozzo na década de 1980 ou mesmo a vovó da Família Buscapé, sitcom de 1960, estão cada vez mais fora de moda, ficaram somente na lembrança daqueles que já passaram dos 40.

Na atualidade nua e crua, temos até avós do pó, velhinhas nada doces que do alto dos seus 70, 80 anos têm mostrado “talento” no crime em várias partes do país. Só nos últimos meses foram presas sete vovós traficantes em cinco Estados brasileiros.

É fato que não se faz mais avó como antigamente, isso, com certeza, pode-se afirmar sem medo de errar.

A própria escritora Tânia Zagury escreveu um livro intitulado “O mal que os avós fazem”, mostrando a outra face de alguns avôs e avós.

Portanto, Vovó Donalda só mesmo nas histórias em quadrinhos, mas figuras enlouquecidas como a Vovó Zona, interpretada pelo ator Martin Lawrence, em filmes do mesmo nome, essa sim, encontramos aos montes pelas esquinas todos os dias.

Painel histórico

Não tenho nada, absolutamente nada contra nenhuma avó seja ela que estilo tiver, na verdade apenas tento traçar rapidamente aqui um painel histórico dessa mulher, na maioria das vezes fantástica, que cresceu e mudou seu jeito de ser e pensar com o passar dos anos, que assume uma casa ainda quando mãe e muitas vezes ao se tornar avó continua a carregar nos braços não só os netos, mas também os filhos, os abrigando embaixo do mesmo teto e mais do que isso, trabalhando incansavelmente para mantê-los.

Avós em cadeiras de balanço, com mantas sobre o colo, novelo e agulha realmente ficaram para trás, o momento agora é outro. A nossa realidade faz por revelar mulheres-avós ativas e determinadas, vigorosas, capazes de ir muito além, verdadeiras guerreiras de um bom combate.

Ser avó não é para qualquer um, requer o mínimo de vivência e o máximo de sensibilidade. É ser suficientemente inteligente e perspicaz para saber a hora de se colocar entre o filho ou a filha, não metendo a colher ou outro instrumento na vida da nora ou do genro, sem ser chamada.

É saber enxergar ao longe sem precisar de óculos na ponta do nariz. É ter todos os sentidos bem afiados, evitando muitas vezes que a língua que não faz parte tão diretamente desse grupo, ganhe mais espaço que todos os outros.

Avó indiscutivelmente é presença, um ser malabarista, artista das mais completas. Aquela que tem a certeza do seu papel e que nunca, se não for extremamente necessário tentar substituir, sobretudo, a mãe, não deixando a sogra das piadas maldosas vir à tona.

Ser avó é presente e não aquela visita exigente que chega para tocar o rebu na casa que não é sua.

As idiossincrasias de uma avó são incrivelmente marcantes, não tão diferente dos avôs, tios e tias, mas trazem marcas muito peculiares.

Conheci e trabalhei com muitas mulheres que já eram avós e outras que ao longo do nosso convívio se tornaram uma espécie de segunda mãe de seus netos. Algumas espetaculares de quem mesmo como homem herdei ensinamentos singulares e outras verdadeiros H2SO4, ácido sulfúrico, capazes de fazer buraco em chapa de aço.

Obviamente não existe um manual a ser seguido, patenteando como deve ser uma avó, mas li em um desses sites espalhados por aí algumas coisas que me chamaram a atenção, como: É muito importante manter uma boa relação com todas as partes envolvidas com os netos, ser presente é mais importante que dar presente e para mim uma que é de extrema importância. Desautorizar os pais é algo totalmente prejudicial ao relacionamento com os netos. Creio que esses itens fazem uma boa diferença na relação familiar.

É claro que avós não nascem prontas! Por mais que tenham passado pela experiência da maternidade, ser avó é outra história. Reproduzo a seguir parte de um artigo escrito por uma recém-avó, um trecho bastante interessante que diz: “O que causa essa ilusão do conhecimento é que os netos são filhos de nossos filhos e para nós, os filhos são sempre crianças, daí a dificuldade em vê-los como pais e mães, daí a tendência de achar que nós é que somos os pais de nossos netos”.

Pais são advérbios. Avós são substantivos. Pais são prosa e avós, poesia. Avós não atuam 100% no plano do real, do cotidiano, em que pese seu papel utilitarista de socorrer os pais nas várias ocasiões, e por todas as razões, em que eles se ausentem. Avós não devem querer ser pais quando estes ainda existirem e mais do que isso, estiverem ativos em seus papéis.

Acredito que a vida nos dá os netos para que de alguma maneira sejamos recompensados de certas mutilações trazidas pela chegada ou proximidade da velhice. São amores novos, marcantes, profundos e felizes que chegam para ocupar aquele lugar as vezes vazio, deixado pelos arroubos da juventude ou até mesmo pela falta de um companheiro que já se foi ou porque a separação se fez presente. Eu ainda não os tenho, mas acredito que netos produzem mais alegrias do que lágrimas, essas bem vindas somente em momentos de emoção, isso quando da chegada ao mundo desses seres especiais, ou ainda ao sentirmos de perto o progresso e o crescimento com o passar dos anos desses mesmos seres, presentes singulares dado pelos nossos filhos.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

4 comentários

  1. Mas hoje em dia conheço vó que gosta de neto mesmo é na foto para mostrar para as amigas, quando os netos chegam continuam na frente dá tv, ai do Neto se fizer um barulho…
    Não brincam, não gracejam, não levam para passear, acham que só o neto tem que agradar, gracejar, mesmo sendo crianças.
    Péssimas mães existem e com certeza serão péssimas avós. A pessoa egocêntrica nunca será uma boa: mãe, avó ou filha.

  2. Ser avó nos dias atuais é um privilégio, porque os jovens estão morrendo muito cedo e eu conheço mães que não terão esse privilégio porque perderam cedo os filhos. Avó tem que ser respeitada, mas também tem que respeitar. Nosso amor pelos filhos e netos é infinito, mas nem por isso devemos ir aos extremos. Sou apaixonada pelos meus netos. Um abraço, Artur.

  3. GOSTEI .

  4. Muito bom!

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