sábado, 21 de outubro de 2017

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Bem perto do impensável

Bem perto do impensável

Matéria publicada em 22 de setembro de 2017, 13:01 horas

 


Ditadores acabam sempre cometendo erros fatais; Coreia do Norte detonou recentemente sua primeira bomba de hidrogênio

wp-coluna-espaco-aberto-jorge-calife

 

Desde a década de 1960 que o mundo não esteve tão perto de um conflito nuclear como agora. Na quinta-feira, dia 14, o líder norte-coreano Kim Jong-un ameaçou “afundar o Japão e reduzir os Estados Unidos a cinzas e escuridão”. Terça-feira, dia 19, o presidente americano Donald Trump respondeu com um discurso na ONU onde prometeu “destruir completamente a Coreia do Norte” se for ameaçado. A Coreia do Norte detonou recentemente sua primeira bomba de hidrogênio e vem fazendo testes com mísseis de longo alcance. Os americanos são donos do maior arsenal nuclear do planeta.

A última vez em que o mundo esteve tão perto de um conflito com armas atômicas foi em outubro de 1961. Durante a crise dos mísseis de Cuba. A diferença é que naquela ocasião os líderes dos Estados Unidos e da União Soviética eram o presidente John Kennedy e o premier Nikita Kruschev. Que tinham a quem responder por seus atos. Kim Jong-un não responde a ninguém e o presidente Trump é conhecido por seu temperamento intempestivo.

Ditadores costumam cometer erros fatais de avaliação e julgamento. Foi o caso da junta militar argentina, que invadiu as ilhas Malvinas achando que os ingleses não iam reagir. O resultado foi a Guerra das Malvinas que deixou um saldo de milhares de mortos. Dez anos depois o ditador iraquiano, Saddam Hussein, invadiu o Kuait achando que os americanos não iam fazer nada. O resultado foi a Guerra do Golfo, que também matou milhares de pessoas.

A diferença é que tanto a Guerra das Malvinas quanto a Guerra do Golfo foram travadas com armas convencionais. Daí a contagem de mortos na casa dos milhares. Com armas nucleares a escala muda bruscamente. Para contar o custo em vidas humanas de uma guerra termonuclear foi inventado uma nova unidade. A megamorte. Um megamorte equivale a um milhão de mortos. Estima-se que mesmo conflitos nucleares restritos resultem em 100 ou 200 megamortes em ambos os lados.

Estrategistas americanos e soviéticos pensaram muito nessa questão durante os anos da Guerra Fria. Ronald Reagan achava que seria possível “ganhar” uma guerra atômica se fossem distribuídas pás suficientes para a população. As pessoas poderiam usar as pás para cavar buracos no solo e se abrigar durante um ataque. Acontece que as armas atômicas não matam só pelo calor e a radiação na hora da explosão. Elas lançam nuvens de poeira radioativa que provocam a morte lenta a centenas de quilômetros de distância.

Em 1954 durante um teste com uma bomba de hidrogênio americana, nas ilhas Marshall, um pesqueiro japonês, o Dragão Feliz, foi atingido pelas cinzas radioativas da explosão a uma distância de 100 quilômetros do atol de Bikini. Todos os 23 tripulantes adoeceram e um deles morreu. E isso como resultado da explosão de uma única bomba. Agora, imagine as consequências de um conflito onde várias bombas desse tipo são detonadas.

Kim Jong-un sabe que seria suicídio atacar uma superpotência como os Estados Unidos. O problema é que ele anda lançando mísseis balísticos por cima do Japão, em uma atitude temerária. Pode acontecer um acidente. O sistema de orientação de um míssil pode falhar, ele sair da rota e atingir o Japão por engano. O que poderia desencadear um contra-ataque americano imediato.

Acidentes assim aconteceram no passado. Nos anos de 1950 um míssil Snark americano, lançado de Cabo Canaveral, endoidou e foi cair na floresta amazônica. Não houve danos maiores porque o míssil estava sem ogiva de combate e o Brasil não se encontrava em pé de guerra com os Estados Unidos.

A junta militar argentina acabou na cadeia por seu erro nas Malvinas. Saddam Hussein acabou na forca. Do Kim Jong-un não sobrarão nem cinzas se ele cometer um erro. Será vaporizado.

Poder: Vítimas atômicas se contam em megamortes

Poder: Vítimas atômicas se contam em megamortes

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

 

Um comentário

  1. É bem difícil de afirmar algo sobre o verdadeiro poderio militar da Coréia do Norte, mas o mais provável é que não tenham recursos para nem uma semana de conflito. O país é miserável e sua população passa fome. O que eles poderiam fazer é atacar a Coréia do Sul ou Japão com um artefato nuclear, matando milhões de pessoas – Seul fica relativamente próximo à fronteira entre as Coréias. Neste cenário, um ataque em conjunto liderado pelos Estados Unidos iria apagar o país do mapa.
    Só não ocorreu ainda um ataque preventivo à Coréia do Norte devido o apoio que este país recebe da China, porém esta provavelmente ficaria neutra no caso de Kim Jong-un atacar primeiro. Neste caso, a Força Aérea americana atrasaria o país e uma ocupação se seguiria nas próximas semanas com a chegada de equipamento bélico pesado à Península Coreana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document