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Bilíngue

Matéria publicada em 16 de maio de 2017, 07:00 horas

 


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Uma viagem a Portugal traz sempre boas recordações. A culinária generosa, farta de azeitonas, bacalhaus, sardinhas, queijadinhas e doces de todo tipo, a arquitetura pouco virtuosa mas bastante familiar, o clima agradável, sem os rigores de invernos ou verões de outras paragens, os bons vinhos, seus mosteiros, os labirintos do Porto, as calçadas do Rossio, e um sem fim de outras coisas, ora pois.

Mas Portugal, berço de alguns mestres da literatura, como Fernando Pessoa, Camões ou Saramago, também traz algumas surpresas naquilo que deveríamos ter de mais prosaico e indiferenciado: a língua.

Apesar de todos falarmos português, a língua que se gorjeia lá não é assim tão parecida com a que se gorjeia cá. O lusitano tem um jeito todo particular de dizer as coisas. Aliás, é provável que seja bem ao contrário, afinal o berço da língua é lá, e não cá, e essas diferenças vão muito além dos chavões de ora pois e as orações de ação precedidas de “estar a”:

Estou a chegar, Joaquim.

Lembro da primeira viagem que fiz a Portugal, quando ainda no voo da extinta e saudosa Varig, uma criança brasileira perguntou para a aeromoça:

–     Moça, que língua você fala?

–     Ela, horrorizada com a pergunta, retruca, cheia dos seus chiados:

–     Mas ora que falo a mesma língua que tu falas, não percebes?

–     O menino, fez uma cara de quem não entendeu patavinas e se retirou para o fundo da aeronave.

–     Assim que pisamos em solo português temos a impressão de estar ouvindo alguma outra língua latina, mas logo nos acostumamos com o ritmo, inflexões e chiados e peculiaridades da língua mãe.

Em primeiro lugar, eles usam o diminutivo com uma intensidade muito maior que nós: Bilhetinho, franguinho, pratinho, comidinha, bocadinho.

Algumas palavras que parecem óbvias, lá não existem, ou adquirem outro significado. Café da manhã, por exemplo, lá é “pequeno almoço”, o que no caso de muitas pessoas é uma expressão bastante apurada. Comboio é trem (ou melhor, trem é comboio), bicha é fila, cacete é pãozinho. E se de noite ouvir jovens pedindo um “fino” na balada, fique tranquilo que é o velho e bom chopp.

Além disso, utilizam algumas expressões bastante curiosas. Foi no além mar que ouvi a expressão “mulher de moral distraída”, para designar as moças de vida nada fácil, que dizem ser a profissão mais antiga do mundo. Um eufemismo pra lá de curioso.

Nos EUA, o ex-presidente Bill Clinton fez escola na arte dos eufemismos: disse que fumou (maconha) mas não tragou e que não manteve relações sexuais com sua estagiária Monica Lewinsky, teve apenas uma relação imprópria. Fez, mas não fez. Entendeu?

Fico pensando se a moda pega no Brasil. Logo não teremos políticos corruptos, mas apenas representantes de honestidade distraída.

Não Dr. Moro, eu apenas estava com a moral distraída na hora que recebi aqueles milhões na Suíça…

Quando você volta de uma viagem como essa você descobre, para o bem e para o mal, que existe um pouquinho de Portugal em cada um de nós, e que você voltou dessa jornada pelo menos bilíngue: agora você fala não apenas português, mas brasileiro também.

Ora pois pois !

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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