quarta-feira, 25 de abril de 2018

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Branco, um cachorro onírico

Matéria publicada em 20 de março de 2018, 07:00 horas

 


Companheiro no mundo real ficou preservado no mundo dos sonhos

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Como meus leitores se lembram, meu melhor amigo, o Branco, morreu no final do ano passado. Ele deixou de fazer parte da minha vida, mas passou a fazer parte dos meus sonhos. O que não é nada de extraordinário. Quando sonhamos nosso cérebro faz uma varredura em nossas memórias, das mais recentes as mais distantes. E tudo aquilo que foi parte importante de nossas vidas é revisitado e relembrado.
Acho que é daí que vem a crença popular de que os mortos continuam vivos em outro mundo. Geralmente um mundo melhor do que o mundo real em que vivemos. Crença que está na maioria das culturas e foi tema daquele desenho animado “A vida é uma festa”, que ganhou o Oscar de 2018. Na verdade aqueles que foram importantes para nós não morrem nunca. Eles vivem para sempre em nossas memórias e em nossos sonhos.
Branco, o meu cachorro, adorava passear comigo pelas ruas da Pinheiral moderna e maltratada. Agora, no mundo dos sonhos, percorremos trilhas bem mais interessantes, superando os limites do espaço e do tempo. Afinal, no mundo dos sonhos o tempo não é linear e o passado, o presente e o futuro convivem sem limites.
As vezes caminhamos pela Pinheiral do passado, que era muito mais bonita e interessante que a cidade degradada dos tempos atuais. O passeio onírico começou com o Branco colocando a pata direita sobre a minha perna como ele fazia sempre que queria passear. Resolvi ir com ele até a casa da minha tia, que ficava perto do porto da balsa. E lá fomos nós em uma tarde de primavera, sentindo o cheiro de eucalipto e a brisa fresca que vinha do Rio Paraíba.
Detalhe, no mundo real a minha tia já morreu há mais tempo do que o Branco e o porto da balsa não existe há décadas. Mas graças ao milagre da memória estava tudo lá. O gramado, o longo cabo fazendo uma curva catenária sobre a torrente marrom do rio. A casa com a varanda e a figueira inclinada sobre o rio.
Foi um sonho agradável e um tanto banal. Em outra aventura onírica eu e o Branco fomos parar na praia de Cocoa, que fica a milhares de quilômetros de Pinheiral, perto da ilha Merrit, na Flórida. Na vida real eu jamais deixaria o Branco andar na areia quente de uma praia, mas no mundo dos sonhos a areia está sempre fria e fresca. Branco não gosta muito de praia e logo se meteu nos pântanos que ficam por trás da faixa de areia. Em Pinheiral ele gostava de perseguir lagartos na beira do Cachimbal. Mas nos pântanos da ilha Merrit os répteis são jacarés de quase três metros de comprimento.
Branco resolveu não encarar aqueles “lagartões” e fomos parar perto da cerca, diante da plataforma 39B. Onde um imenso foguete Saturno 5 fumegava nos momentos finais da contagem regressiva. Era algo mais perigoso do que os jacarés. Peguei meu amigo no colo e voltamos correndo para a praia enquanto o foguete estrondava e partia em mais uma missão lunar.
Anoiteceu rapidamente e o céu e a passagem se modificaram rapidamente. No mundo dos sonhos a gente pode avançar milhões de anos no tempo sem problema nenhum. O céu ficou crivado de estrelas e cheio de nuvens fluorescentes coloridas. Tínhamos avançado quatro bilhões de anos no futuro e estávamos observando a colisão da Via Láctea com a galáxia de Andrômeda. Branco não se impressionou com o céu fluorescente e começou a escavar a areia, atrás de uns tatuís insignificantes. Tatuís? Quatro bilhões de anos no futuro? Minha mente rejeitou o absurdo e acordei em uma manhã preguiçosa de domingo. O Branco ficou lá, no mundo dos sonhos, pronto para voltar em outra noite de aventuras.

Branco: Vivo dentro de um sonho

Branco: Vivo dentro de um sonho

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

15 comentários

  1. Me fez lembrar uma galinácea q eu tive. Se chamava kiroka, era grande, apesar de ser nova, tinha a cabeça avermelhada. Tinha uma vizinha q não podia ver a minha kiroka, queria brincar, alisar, passar a mão, enfim, sempre q eu estava no quintal ela pedia p eu botar a kiroka para fora, inclusive a irmã mais velha dessa minha vizinha, ficava absmada c o tamanho da minha kiroka, muitas das vezes quando eu ia lavar a kiroka elas faziam questão de passar sabonete, Enfim cresci, a minha kiroka também, e hoje agradeço a minha kiroka os momentos felizes q tive c minhas vizinhas.

  2. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    Legal o carinho com o qual vc guarda na memória seu falecido cão…

  3. Lembrei de quando amarrava um pano no pescoço e com uma vara de goiabeira
    encarnava o ZORRO. Belo texto Calife.

  4. Talvez seja interessante marcar para vocês uma terapia… pode ser individual mas em grupo promete ser mais proveitosa. Outra ótima opção é trabalhar, até mesmo alguma atividade voluntária, como ajudar em asilos, varrição de vias públicas, banho e tosa de animais carentes, etc.

  5. As capivaras terão paz…

  6. Muito legal a crônica! Esses peludos são os melhores amigos que uma pessoa pode ter. Se for um viralatas adotado das ruas então, melhor ainda. Deixam uma saudade danada quando se vão.
    Adote outro, Calife!

  7. Bolsonaro, o ORNITORRINCO.

  8. Pagador de impostos

    Muito bacana o texto. Parabéns Calife! Nesses “tempos esquisitos” em que estamos mergulhados, essa “viagem” que você nos proporcionou ajuda a esquecer um pouco das agruras. Valeu !

  9. Os verdadeiros amigos nunca são esquecidos…

  10. Gostei muito da matéria. Lembrei-me do meu dia a dia. Eu tinha dois canarinhos belgas que cantavam pra caramba. Um morreu há uns três anos. O outro amanheceu morto no dia 18 de fevereiro deste ano. Todo dia de manhã eu vou ao quintal tratar do canarinho. O mesmo ocorre quando há ameaça de chuva. Vou ao quintal pra remover a gaiola pra baixo da cobertura. Acostumei muito com isso e o meu canarinho continua presente no meu dia a dia.

    • Eu também lembrei da minha Crotalus durissus (sogra), vivia lá em casa, as vezes usava o chocalho, as vezes as presas, sempre pronta para dar o bote, mais um bote q muitas vezes era só p brincar, principalmente comigo, o qual a minha Crotalus (sogra) tinha uma certa predileção. Mas como nada na vida é p sempre, (in)felizmente ela veio a sucumbir, vítima de um descuido próprio. Como tinha um veneno muito forte, língua afiada e presas grandes, enfiou as mesma na própria língua e veio a óbito, tentei leva-la ao veterinário mais próximo q disse q nada poderia fazer, então sua filhinha, Crotalusinha durissusinha (esposa) levou-a ao Butantan, mas já era tarde.
      Hoje as vezes tenho sonhos (pesadelos) c a mesma………

    • Também gostei muito da matéria. Lembrei-me, também, do meu dia a dia. Eu tinha uma Pygocentrus piraya, que trouxe do Pantanal, era linda, uma pele meio amarronzada, uma cauda linda, que quando desfilava no aquário lá de casa meus amigos ficavam loucos, só quem não gostava da minha Pygocentrus piraya, também conhecida no meio não acadêmico como Piranha, era minha esposa. O seu aquário era enchido c água Perrier, sua comida era da melhor qualidade q, como se sabe a Pygocentrus piraya adora coisas boas.Quase toda noite eu passava no aquário dela, mas em um dado momento ela sumiu, não sei o q houve, não culpo ninguém, só me restou a tristeza de q nunca mais a verei. Acostumei muito c isso e a minha Pygocentrus piraya continua presente no meu dia a dia.

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