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Conecte-se ao mundo, mas não se desplugue da vida

Matéria publicada em 19 de setembro de 2017, 13:25 horas

 


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“As pessoas testemunharão nos próximos 50 anos mais coisas do que Matusalém viu em quase 1000 anos de vida”.

 

Quem disse isso foi o escritor americano Mark Twain. Bastante apropriado, não? Só que ele fez essa citação ainda no século XIX.

Considerando o ritmo das mudanças e invenções que temos testemunhado nos últimos 20 anos a citação parece mais contemporânea (e ainda assim conservadora) do que nunca.

É provável que testemunhemos nos próximos 50 anos mais transformações do que houve em todo o restante da história da civilização, ainda que essa afirmação mereça um debate mais aprofundado.

Não dá para afirmar que as invenções recentes são maiores que as antecedentes, pois elas são de naturezas distintas. Como categorizar descobertas antigas mas que mudaram o curso da história, como a invenção da linguagem ou o domínio do fogo?

Seja como for, vivemos a era da informação, da comunicação e do digital, e isso só vai aumentar. Cada inovação na área amplifica a próxima, numa progressão geométrica inalcançável.

Li o estudo de um maluco (e a internet está repleta deles) que teve a ousadia de calcular quanto tempo um ser humano levaria para consumir todo o conteúdo disponível na internet, todos os blogs, sites, notícias e vídeos. Ele calculou que a tarefa poderia ser completada em 226.000 anos. Ou seja, teríamos que viver 3.000 vidas dedicadas apenas a digerir informação e ainda assim jamais conseguiríamos concluir a empreitada, porque no primeiro ano já estaríamos defasados da informação produzida naquele mesmo ano.

A montanha de informação não para de crescer e jamais teremos fôlego para escalar esse Everest digital.

É um mundo 3.0, mas ainda estamos equipados com o software caverna 1.0. Não fomos preparados digerir esse banquete informacional. É overdose certa.

Dizem os evolucionistas que temos uma inclinação natural para consumir informação, porque desde tempos imemoriais a informação era um diferencial que nos ajudava a sobreviver. Em outra dimensão, continua assim. Por que você acha que a mídia é uma indústria poderosa e os telejornais possuem tanta audiência?

Só que agora a informação ficou mais acessível e mais barata e tem muita gente morrendo afogada nesse oceano. A gente acha que navega na internet, mas na realidade a gente naufraga.

Já existe até uma patologia digital catalogada: FOMO (fear of missing out), que é a fobia de não conseguir estar atualizado sobre tudo que está acontecendo no mundo. Uma verdadeira loucura, porque jamais estaremos atualizados de tudo.

O medo de estar desatualizado é a ansiedade dos tempos modernos. E quanto mais mergulhamos nas profundezas de blogs, tuítes e redes sociais, mas temos a sensação de que o mundo nos escapou pelos dedos.

A gente não pode esquecer que a internet pode ser 4G, o processador do computador i7 e o HD de 700 terabytes, mas nosso dia terá sempre as mesmas 24 horas que nossos primos das cavernas tinham.

Além disso, estudos neurológicos têm demonstrado que para termos uma vida saudável e sermos profissionais criativos precisamos mesclar ciclos de aquisição de aprendizado (o que é diferente de naufragar das redes sociais) e períodos de ócio e descontração, para que o cérebro tenha o tempo adequado de recomposição e as boas ideias possam entrar num estado adequado de maturação.

Portanto, se informe (porque a fila está andando depressa), mas não se torne um paranóico.

O mundo está mudando tão rápido que se você acha que está informado é porque você está profundamente desinformado.

E pior do estar desinformado é deixar a vida escorrer pelos dedos, alijado da própria existência.

Conecte-se ao mundo. Mas não se desplugue da vida.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Bom!

    Só faltou dizer que internet é muito diferente de redes sociais.

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