quinta-feira, 26 de abril de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Cópias e réplicas

Cópias e réplicas

Matéria publicada em 12 de dezembro de 2017, 12:54 horas

 


wp-coluna-contos-e-cronicas-alexandre-correa-lima

Dia desses estava lembrando de uma viagem internacional que fiz.

Bom, pra falar a verdade, a viagem mesmo foi pra Foz do Iguaçu, mas aproveitei uma manhã para cruzar a ponte da amizade e conhecer Ciudad Del Leste, no Paraguai, que foi a tal viagem internacional que me referi.

Ciudad Del Leste é um fuzuê duzinferno, um lugar tão tumultuado e caótico, que vale a pena visitar nem que seja pra rir e poder contar história depois. Parece uma vinte e cinco de março gigante, mais tumultuada e heterogênea. Milhares de barraquinhas e lojas vendendo tudo que você possa imaginar, de DVDs piratas a celulares “importados”.

Nessa visita que fiz, e já se vão uns bons pares de anos, fiquei impressionado com a indústria das falsificações. Tudo tinha um similar genérico.

O mais emblemático foi um tênis Mike, com o mesmo design e logotipo da marca quase homônima. Um cliente desatento poderia facilmente ter levado gato por lebre. Se bem que a julgar pelo preço seria muito pouco razoável acreditar ser um produto original. Mas esse ainda teve a elegância de adicionar uma perna no “n”, cuidado que a maioria das outras cópias não se dignavam a ter, estampando nome e logotipo de marcas mundialmente famosas, de Rolex a Louis Vouitton.

Mas globalização é globalização. Hoje em dia estamos cheios de Paraguais em todo lugar, ou sua variação mais forte, os Xing Lings. Na Avenida Paulista tem um enclave, em Aparecida outro e em toda cidade certamente também. Aqui onde moro já tem uma pequena Chinatown.

Faz um tempo li num jornal de negócios que já estavam produzindo cópias tão perfeitas que as marcas de luxo precisavam contratar peritos para diferenciar as falsas das originais. Uma espécie de falsificação premium, ou cópia gourmet.

Semana retrasada entrei numa pequena loja de eletrônicos com um colega de trabalho que queria comprar um fone de ouvido bacana, marca JVC, uma marca americana reconhecida pela alta qualidade. Quando o atendente soltou o preço, percebi que não deveria ser original, mas ao mesmo tempo era caro o suficiente para desenquadrá-lo da velha categoria de cópias baratas. Era uma cópia premium. Foi quando ele soltou um:

– É primeira ou segunda linha?

– Primeira linha, produto top!

E então descobri que existem gradações na produção dessas cópias, o que eles chamam de primeira, segunda ou terceira linha, dependendo da qualidade da cópia.

O Brasil inventou os medicamentos genéricos, os chineses inventaram as grandes marcas genéricas. Sony, JVC, Rolex, Nike, Michael Kors. Mas não são mais meras cópias, são cópias de primeira linha, o que para essas grandes marcas pode ser o fim da linha.

Outro nome que estão dando para essa arte da cópia é réplica, que se divide entre réplica comum e réplica premium.

Dizem que nada se cria, o que é no máximo uma meia verdade.

Verdade inteira mesmo é a constatação que tudo se copia. Em Ciudad Del Lest, na China ou logo ali na esquina.

 

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

Untitled Document