Crônica de um paraíso perdido - Diário do Vale
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Crônica de um paraíso perdido

Matéria publicada em 26 de janeiro de 2018, 11:58 horas

 


Nossas praias foram poluídas e viraram áreas de risco; paraíso que conheci na minha juventude ficou apenas na memória

Eu tinha uns quatro anos de idade quando meus pais foram morar em São Gonçalo, perto da baía de Guanabara. Era uma região de mangues e estaleiros e o mar parecia escuro e sujo mesmo naquela época. Durante os primeiros anos da minha vida eu achava que o oceano era assim, sujo e escuro como a baía entre o Rio de Janeiro e Niterói. Aos nove anos fui ao cinema e assisti ao clássico de Walt Disney, “20 mil léguas submarinas”. O filme tinha cenas rodadas nas praias da Jamaica e a cor do mar era um azul turquesa como eu nunca tinha visto. Pensei que aquele mar da Jamaica era um efeito especial do cinema. Era transparente perto da praia, depois ficava verde e então azul.
Aos doze anos, pré-adolescente, descobri as praias da zona oeste do Rio de Janeiro. E fiquei maravilhado com a cor e a transparência da água. Era igualzinho a Jamaica nas “20 mil léguas submarinas”. A essa altura dos acontecimentos meus pais tinham se mudado para os Pilares, na zona norte do Rio. Que era um bairro de casas com quintais, de classe media, com poucos prédios de apartamento. A distância dos Pilares até as praias da zona sul do Rio era a mesma até as praias da zona Oeste. Como Recreio dos Bandeirantes, Grumari e as praias da Reserva Biológica. Mas estas últimas tinham uma vantagem, eram desertas e bem mais limpas.
E assim passamos a frequentar o Recreio dos Bandeirantes. Era mais de 40 minutos de carro, atravessando a região de Jacarepaguá. Estávamos na década de 1960, e a zona oeste do Rio era um lugar de pequenos sítios e fazendas, que as pessoas chamavam de zona rural do Rio de Janeiro.
No meio do caminho tínhamos uma visão de futuro. A estação rastreadora de satélite da RCA que tinha uma enorme antena parabólica, para captar os sinais do satélite artificial Syncom. Se o leitor tem televisão via satélite hoje em dia, é graças aquelas experiências feitas com engenhos como o Syncom entre 1962 e 1965. Passada a estação de satélite percorríamos mais alguns quilômetros até um canal de água verde, que ia desaguar no final da praia do Recreio. A estrada subia uma elevação e tínhamos a primeira visão da imensa faixa de areia branca e do mar azul e verde.
Havia poucas construções e a maior de todas era um bar e restaurante que ficava em frente ao Pontal de Sernambetiba. O pontal é quase uma ilha, um morro que se ergue do meio do mar, ligado a praia por uma faixa estreita de areia. Que desaparece nos dias de ressaca. A direita do pontal fica a praia do recreio, propriamente dita. A esquerda a praia da Reserva, que se estende por mais de dez quilômetros até a Barra da Tijuca. Passávamos o dia naquele paraíso e só voltávamos para casa quando o Sol se escondia atrás dos morros que separam Grumari da Barra de Guaratiba.
Ao contrário de Copacabana e Ipanema, que já ficavam lotadas naquela época, ali tínhamos centenas de metros quadrados de areia livre para cada família. Dividíamos o espaço, democraticamente, com três tribos que não se misturavam. Os banhistas de fim de semana, os surfistas que ficavam além da arrebentação esperando a onda ideal, e os pescadores, comuns e subaquáticos que frequentavam o costão do pontal. Perto tinha uma pequena colônia de pescadores que vendiam o peixe fresquinho, que tinham acabado de pegar em suas redes, ali mesmo na praia. Voltávamos para casa com o jantar dentro da caixa de isopor.
Aí, na década de 1970 nosso paraíso virou alvo da especulação imobiliária. Espigões começaram a brotar em frente às praias. Edifícios de 30, 40 andares que despejavam o esgoto e coliformes fecais no mar antes azul. Foi o começo do fim. Domingo passado uma jovem universitária chamada Larissa da Silva levou um tiro na barriga ali na praia da Reserva. E o paraíso que conheci na minha juventude ficou apenas na memória.

 Linda: A faixa de areia que termina no pontal. (Foto: Divulgação)

Linda: A faixa de areia que termina no pontal. (Foto: Divulgação)

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

5 comentários

  1. Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório de beleza e do caos…

  2. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    Transformaram o litoral dessa região numa espécie de Miami Beach tupiniquim, inclusive foi onde se iniciou no Brasil a cultura do subúrbio rico extensivamente dependente do carro e de autoestradas urbanas… Só que aqui, diferente de lá, não dá para se esconder as mazelas…

    Certo é que a cidade do Rio é hoje muito menos do que seu potencial sempre sugeriu… Uma embalagem bonita com pouco conteúdo, uma periferia depauperada mesmo se comparada a outras capitais brasileiras. O Rio é seguramente a região metropolitana com maior desequilíbrio econômico e social entre a cidade-sede e os demais municípios que a compõe…

  3. Ué, mas está reclamando de que ? Quem acabou c esse “paraíso” foram as oligarquias, que apesar de não fazeres parte dela tanto defende, que através da grilagem, especulação e meios nada ortodoxos, acabaram c o que sentes falta hoje. Só a camada q idolatras-te, é a maior responsável por construções em áreas de preservação ambiental, desrespeito ao espaço público, grilagem……….

  4. Os bairros Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes estão irreconhecíveis hoje. Receberam tantos empreendimentos imobiliários, que de uma espécie de zona rural do Rio de Janeiro, se tornaram uma extensão da Zona Sul, com condomínios de luxo e Shopping Centers aos montes. Quem mora lá tem que usar o carro e enfrentar engarrafamento até para comprar um simples pão francês. A violência seguiu o progresso e os índices de roubo de veículos e roubo a transeuntes estão altíssimos. Quando o PSOL do Marcelo Freixo assumir a prefeitura ou o governo do estado, aquela região vai ficar pior que a Síria.

  5. Tempos dourados que não voltam mais…

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