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Desurgência nossa de cada dia

Matéria publicada em 8 de dezembro de 2017, 07:00 horas

 


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Não confunda desurgência com insurgência, que é uma rebelião contra um poder estabelecido. Desurgência, palavra que ainda não existe no dicionário, é o ato de não ter urgência, ou seja, de deixar tudo para amanhã.

Diz-se que essa atitude é muito comum no dia a dia da juventude. A mais pura tranquilidade, livre de compromissos para poder dormir até o meio-dia.

Mas na verdade esse deixar para amanhã é algo muito comum do brasileiro.

O Brasil tem inúmeras qualidades, mas seus defeitos são gritantes e um dos mais graves, certamente, é a falta de urgência. Deixamos sem o menor pudor coisas de enorme importância para serem resolvidas mais tarde, bem mais tarde.

Problemas é algo que o Brasil não tem poucos, muitos acham que se resolvem sozinhos, em um estalar de dedos. Mas, a quem esteja convicto de que muitos deles não têm a menor solução e, sendo assim, é melhor nem mexer nesse vespeiro. Com isso a solução não chega, vai na cara dura sendo postergada para um futuro próximo, algo que de próximo só tem o nome.

Enquanto isso o mundo olha para frente e segue seu rumo, sem pensar duas vezes. E eles, os países em pleno desenvolvimento, não pretendem ficar esperando o Brasil caminhar no seu passo lento. Estamos em plena corrida e não cabe aqui a fábula da lebre e da tartaruga.

Sem convicção

Falta a convicção de que alguma coisa deve ser feita agora, a transformação urge acontecer e não há o menor tempo a se perder. Algo para o bem comum, mudanças que privilegiem a todos e não a meia dúzia, onde boa parte desse número sejam políticos com suas carapaças impenetráveis. Figuras que tem o corpo fechado, protegidos pelo abracadabra do Foro Privilegiado.

No artigo 5º da Constituição reza que está assegurado que todos são iguais perante a lei. Todos e não quase todos! Isso soa absurdamente estranho porque para alguns nomes, nada mais nada menos que 55 mil pessoas no Brasil, as regras são diferentes, ou seja, a sensação de impunidade é total.

Temos que pensar de maneira coletiva, deixar de lado o individualismo. Temos que lutar pelo que é nosso e nesse pacote estão os nossos direitos. Veja que para reunir pessoas nas ruas para coisas sérias é feito um esforço hercúleo. Não levar as coisas a sério é um tipo de mecanismo de defesa de quem tem preguiça de pensar no outro, de se imaginar lutando, buscando soluções para todos.

Estamos às vésperas de novas eleições para presidente e o quadro que nos é apresentado é algo no mínimo sofrível, então, o que fazer diante desse caos político, onde sobra ações orquestradas e votadas na calada da noite, desde o aumento da taxa de iluminação pública aos salários das Vossas Excelências, evitando que sofram com a inflação. O povo, esse que se vire, que corra atrás do prejuízo, que tente achar a sua boquinha seja tentando um Bolsa Família ou indo ao mercado para comer na encolha um saco de biscoito ou uma fruta, enquanto fica rodando com o carrinho de compras, para então no final não comprar nada.

Entre tantos apelidos terríveis que o nosso país já recebeu, o mais novo é o de país Miojo: fácil de preparar, fácil de comer, fácil em tudo.

Sedentário

O Brasil é um país sedentário, em um ranking de 46 países avaliados em uma pesquisa, ficamos em sétimo lugar quando o assunto é falta de atividade física. Pena que isto se estenda a outras áreas igualmente importantes e que são fundamentais para a nossa sobrevivência.

Infelizmente temos preguiça de lutar pelos nossos direitos, um ranço de não sair as ruas, de não buscar uma solução para os problemas, algo adquirido por muitas lutas sem sucesso. A indisposição por saber que as mudanças vêm de cima para baixo e que não podemos nos manifestar, são imposições oriundas dos nossos governantes, pessoas que governam muito mais para os seus pares do que para quem os elegeu. Falta liderança e união para acabar com a preguiça no Brasil, uma luta que pouco se viu por aqui, buscando dar cabo a resultados medíocres na educação e na saúde, na segurança e na habitação, nos transportes e no saneamento básico. A única coisa que aqui se mostra em alta para alegria daqueles que nos usurpam, é o comodismo.

Como disse Gonzaguinha em sua música “É. A gente não tem cara de panaca / A gente não tem jeito de babaca / A gente não está com a bunda exposta na janela / Pra passar a mão nela (…)”.

Mesmo que a preguiça, a desurgência muitas vezes possa nos deixar assim, expostos na janela, temos que acreditar que tudo pode mudar, depende de sabermos votar e cobrar daqueles que acreditam que são seres imprescindíveis de um reinado interminável.

 

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br


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