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Dois amigos

Matéria publicada em 31 de janeiro de 2017, 07:00 horas

 


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Era uma vez um menino muito bonito e curioso. Ele tinha os olhos grandes e redondos como os anéis de Saturno.

Ele adorava o céu, vivia tanto com a cabeça nas nuvens que parecia que podia comê-las feito algodão doce, mas ele não comia, porque preferia chocolate Alpino.

Ler para ele ainda era uma coisa meio nebulosa, mas já sabia de A a Z todas as constelações que via no céu.

As Três Marias eram suas amigas, a Ursa Maior era de pelúcia e a Via Láctea sua estrada para o infinito.

Conhecia os mistérios do espaço: planetas, sóis, luas, satélites, meteoros e estrelas.

Parecia que qualquer dia montaria no rabo de um cometa e sairia voando por aí.

Um dia ele foi viajar. Mas como seus pais ainda não tinham um foguete espacial, ele foi para a praia mesmo.

E então, o menino da cabeça nas nuvens enterrou os pés na areia, catou conchas, decifrou rochas, desviou de siris.

Um dia a maré baixou, mas baixou tanto que formou um aquário entre algumas rochas.

Alguns peixinhos ficaram presos ali. Um cardume de peixinhos cinza com listras pretas. Um monte deles. E no meio daquele cardume, um único peixinho muito diferente, azul, brilhante, quase cintilante. Parecia que o peixinho estava aceso de tanto que brilhava sob o sol.

E ali começou uma grande amizade entre o menino da cabeça nas nuvens e o peixinho azul que brilhava mais que o sol.

A maré subiu depois de algumas horas, inundando as rochas e desfazendo o aquário, mas o peixinho azul não saiu mais de lá, parecia não querer mais se afastar de seu novo amigo.

E todo dia, quando a maré baixava, o menino dos olhos curiosos ía lá conversar com o peixinho. Todos os peixes se escondiam assustados, mas o peixinho azul ficava lá. O peixe não dizia nada, porque peixe só nada, mas o menino sabia que ele era seu amigo de verdade, e ficavam ali, um perto do outro, num tipo de conversa que só entendem os peixinhos azuis e os meninos de cabeça nas nuvens.

E foram assim todos os dias daquela viagem, a maré baixava, o menino chegava, o peixinho ficava.

Mas as férias um dia acabam, os peixinhos nadam e os meninos vão embora.

O menino voltou pra casa pelo meio das nuvens, que era de onde sua cabeça quase nunca saía. Mas agora ele tinha a cabeça nas nuvens e o coração no fundo do mar.

O peixinho sabia que o menino tinha ido embora, aproveitou a maré alta, se despediu dos seus amigos cinzentos e foi para o meio do oceano procurar seus amigos azuis.

Ele voltou para o fundo do mar, mas nunca mais esqueceu daquele amiguinho de olhos grandes feito conchas gigantes.

O menino voltou para o mundo do espaço, mas nunca mais esqueceu aquele peixinho azul brilhante feito estrela.

Essa foi a história de uma grande amizade, maior que a galáxia e mais profunda que os oceanos, de dois amigos que nunca mais vão se esquecer.

 

(Em homenagem ao meu pequeno e amado menino astronauta, Cássio)

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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