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Ebony and ivory

Matéria publicada em 18 de agosto de 2017, 07:10 horas

 


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“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”

Martin Luther King

 

O ébano e o marfim vivem juntos em perfeita harmonia. Mentira!

O branco está longe de aceitar o negro como seu parceiro, como alguém exatamente como ele, sem a menor diferença.

Ebony and ivory, letra de um dos maiores sucessos de Paul McCartney, canta a beleza da união entre o ébano e o marfim, lado a lado no teclado do piano.

Tudo muito diferente do que temos visto pelo mundo e em especial nos EUA, onde supremacistas brancos e grupos antirracismo entraram em confronto na cidade de Charlottesville, no estado americano da Virgínia, no dia da realização de uma marcha convocada pela extrema-direita. A marcha “Unir a Direita” havia sido convocada devido aos planos de remoção da estátua do general Lee, pró-escravidão que lutou na Guerra Civil Americana. Os supremacistas brancos acenderam tochas – em uma clara referência ao grupo Ku Klux Klan – e gritaram palavras de ordem como “vidas brancas importam” ao marchar pela Universidade da Virgínia, localizada na cidade. O triste episódio matou uma pessoa e feriu 19.

O ébano e o marfim mais uma vez deixam a beleza do piano e transformam tudo em vermelho. Esse ato racista é a mais nova chaga aberta no mundo, uma guerra interminável que coloca em lados opostos negros e brancos e a ela se soma nacionalistas, neonazistas e supremacistas brancos.

Por aqui o racismo começou no período colonial, quando os portugueses trouxeram os primeiros negros, vindos principalmente da região onde atualmente se localizam Nigéria e Angola.

Na Idade Média o racismo se parecia muito mais com a xenofobia permanecendo assim até a expansão das nações europeias. Na verdade mais que a própria xenofobia o que havia era um sentimento de superioridade de origem religiosa. Isto era algo bastante comum devido a força do poder político da igreja cristã, que promovia a submissão de povos conquistados buscando incorporá-los à cristandade. Assim, os que não se submetiam, era aplicado genocídio, algo que provocava imediatamente sentimentos racistas por parte dos vencedores e dos submetidos.

Os primeiros contatos entrem os conquistadores portugueses e africanos ocorrido no século XV, não provocou o menor atrito que pudesse levar a origem racial. Isto porque os negros, entre outros povos da África, entraram em acordos comerciais com os europeus, algo que incluía, inclusive, o comércio de escravos, algo que naquela época, era totalmente aceito como uma forma de aumentar o número de trabalhadores em uma sociedade.

No Brasil os negros foram trazidos para serem escravos nos engenhos de cana de açúcar, devido às dificuldades da escravização dos ameríndios, na verdade os primeiros habitantes brasileiros do qual se tem relato. O caso mais extremo foi a instituição do apartheid  na África do Sul, em que essa discriminação foi suportada por leis decretadas pelo Estado.

Doutor em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP), o professor Kabengele Munanga, nos diz: “Cada país que pratica o racismo tem suas características. As características do racismo brasileiro são bem diferentes. Por que o brasileiro nunca se considera racista ou mesmo preconceituoso em termos de raça? Ele se olha no espelho do sul-africano, do americano, e se vê: ‘olha, eles são racistas, eles criaram leis segregacionistas. Nós não criamos leis, não somos racistas’. Tem mais: tem o mito da democracia racial, que diz que não somos racistas”.

Absurdamente o racismo, um triste fenômeno comportamental e social, tenta a todo custo patentear que existe sim raças puras, e que estas são superiores às demais. Com isso busca de todas as formas justificar a hegemonia política, histórica e econômica.

Olhando pela ótica racial, todos os grupos humanos, sobretudo, os atuais em sua maioria são produtos inquestionáveis de mestiçagens. Sendo assim afirmar que existe uma raça pura é algo absurdo. Lamentavelmente os séculos passaram e nada mudou, na verdade piorou circunstancialmente, o mundo se tornou mais irascível, comportando-se de maneira a separar as raças, provocando com isso morte e destruições sem precedentes.

Tomara que as palavras de Martin Luther King um dia se transformem em realidade.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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