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Elogio por um fio

Matéria publicada em 16 de junho de 2017, 13:53 horas

 


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“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica.” Esta frase, dita por Norman Peale, pastor e escritor americano de teorias sobre o pensamento positivo e considerado um mestre da terapêutica espiritual, coloca-nos dentro de algo que adoramos: o elogio.
Quem não gosta de ser elogiado, seja pela beleza, seja pela inteligência, pelas roupas ou pela educação, pelo bom gosto e, até mesmo, pela simplicidade? Elogio, quando chega de forma verdadeira, é algo delicioso de saborear, o pior é que nem sempre conseguimos perceber quando ele vem embrulhado no lindo papel da sinceridade.
Quer ver elogios brotando a três por quatro? Vá a um velório! Quase sempre o morto é a pessoa mais querida da hora. Ele foi o mais excepcional dos amigos que se conheceu nesse mundo, figura simpática e bem-humorada, solidária no limite máximo do amor, apaixonada por todos e pela vida, além de carregar uma força interior inquestionável. Naquele momento em que a tristeza fez parada, os elogios fazem fila, muitos deles mais pela necessidade de dizer algo do que pela verdade que aquela colocação possa carregar.
O elogio é sempre peça obrigatória em casamentos, aniversários, formaturas e posses, seja lá do que for. Nessas ocasiões, pode faltar tudo, mas elogios… nunca! Se não tem o que dizer, elogie que funciona. Em momentos assim, a autoestima do elogiado vai a mil e, com isso, o orgulho narcisista entra em ebulição. Não há quem não goste de um confete bem jogado, uma seda bem rasgada, um afago lá no fundinho da alma. Mas o pé no freio e o olho no retrovisor do semancol são primordiais.
Todos nós gostamos de receber elogios, eles fazem com que nos sintamos bem. Como já falei, nossa autoestima aumenta, bem como a nossa confiança. Porque é fato que o elogio é uma ferramenta essencial para um desenvolvimento emocional e social ao longo de todo o ciclo de nossa vida. Ele pode funcionar como o reforço positivo, e por isso desencadeia uma série de substâncias, como prazer, alegria e satisfação, que passam pela corrente sanguínea de quem o recebe. Uma pessoa elogiada fará melhor, dará muito mais de si numa próxima vez.
O elogio é um meio para alcançar um comportamento desejado no outro, fazendo aumentar a produtividade das pessoas e até de uma empresa; ajuda a fortalecer as amizades e a criar novas outras; aumenta a resistência física e psicológica contra situações de doença ou desesperança e até de pessimismo; alavanca a identidade profissional em direção ao sucesso; e promove mudanças comportamentais pessoais e profissionais, dentre outras maravilhas.

Elogiar nunca é demais, mas atenção as palavras

Agora, muita atenção, pois o ditado recomenda que elogiar nunca é demais. Por outro lado, a ciência diz que não é bem assim. Na próxima vez em que afagar o ego alheio, escolha bem as palavras, pois, do contrário, o alvo delas pode se tornar um dos maiores fracassos e o tiro sairá pela culatra. Como tudo tem o seu avesso, é bom ficar de olho no elogio “extra G”. Na verdade, não aprendemos a elogiar nem, muito menos, a receber elogios. Temos o hábito de disparar comentários elogiosos em todos os lugares, gratuitamente, e nem sempre esse agrado sem tamanho funciona. Os resultados de tanto paparico podem ser catastróficos. Em curto prazo, a pessoa que foi enaltecida no seu limite máximo pode ficar desconfortável, insegura e até ansiosa. Em longo prazo, esse gênio elevado a pi pode dar com os burros n’água, correndo o sério risco de virar um arruinado pela vida afora.
Em alguns casos, o estrago começa já na infância. Se for reconhecida como inteligente, uma criança pode sentir pressão demais sobre suas costas e, no pique de tentar corresponder às expectativas, deixa de alcançar o real objetivo, perde o foco. Isso, às vezes, é bom porque incentiva a criança a estudar para conseguir boas notas, mas também pode estimular a criança a usar alguns truques para se destacar. Portanto, ao invés de dizer que a criança é inteligente, diga que ela é esforçada. Eis a diferença entre não motivar e motivar para o melhor, para que tente mais uma vez.

‘Prefiro a crítica de um inimigo à bajulação de um amigo’

Lembre-se do ditado: “Prefiro a crítica de um inimigo à bajulação de um amigo”. Isto porque a crítica, quando verdadeira, faz crescer enquanto a bajulação, quando falsa, impede o próprio aperfeiçoamento. O elogio tem seu importante papel em nossa vida, mas ele deve andar acompanhado de conselhos sinceros que, às vezes, são duros de falar e, principalmente, de ouvir, porém necessários.
O elogio é uma arte e, como tal, deve ser desenvolvida com cuidado e parcimônia, porque não é possível somar amigos sem nunca ter dito a eles sobre suas qualidades ou seus defeitos. Porque, até para apontar erros e defeitos, é preciso saber fazê-lo, usando os mesmos moldes do elogio e a preocupação de nunca ferir ninguém.
Os livros também têm seu espaço reservado aos elogios, como: Elogio da sombra, de Junichiro Tanizaki; Elogio da consciência, de Paul Valadier; Calabar: o elogio da traição, de Chico Buarque de Holanda ou ainda Elogio da teoria, de Hans-Georg Gadamer. Na nossa música, Caetano Veloso não se cansou de fazer elogios em “Você é linda”, Djavan em “Meu bem-querer”, Skank com a sua “Garota nacional” e o maestro soberano Antonio Carlos Jobim transformou seu hino “Garota de Ipanema” em um elogio que até hoje atravessa o mundo e faz fãs por onde é ouvido.
O crítico literário e romancista Afrânio Peixoto sempre dizia que os elogios são como a moeda falsa: não empobrece quem despende, mas ilude sempre quem recebe; portanto, olho vivo quando receber um. Porque, com certeza, é dessa pobreza que devemos ficar sempre longe, mas, se quiser fazer elogios à coluna, basta enviar um e-mail.

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