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Então é Natal

Matéria publicada em 22 de dezembro de 2017, 07:00 horas

 


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Mais um ano, mais um dia 25 de dezembro, mais um Natal. Então, é Natal!

Então esse ir e vir de ruas e compras me lembrou um texto do dramaturgo alemão Bertolt Brechet. “Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso, eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.

Mais que um texto escrito por um comunista de renome mundial, ele fala de descaso e abandono, algo que vivemos no nosso dia a dia, ao longo de 365 dias, todos os anos.

Surpreendentemente quando chega o mês de dezembro muitas pessoas são tocadas pela fada do bem ou outra entidade mágica e saem a promover encontros e festas de confraternização entre os mais carentes. Um calendário de amor com apenas um mês. Onde foi para os outros onze meses?

A vida passa célere por nós, falta tempo para tudo, do almoço ao médico, e se preocupar com um alguém distante de nós, nem sempre é algo muito fácil de se lembrar diante de tanto corre-corre.

Estamos fechando as portas de 2017 e já ansiosos esperamos pela chegada de um 2018 menos sofrido, menos ruim. Um ano novo que como diz a música, traga: “(…) muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”. É bem verdade que não deverá ser assim, tão ao pé da letra, mas seria muito bom não ver a reprise de um 2017, da falta de quase tudo, uma triste cópia fiel de 2016.

Por inúmeros motivos, em sua maioria bons, somos tocados nesse período por uma espécie de nostalgia, um saudosismo quase inexplicável e isso acaba por nos mover em direção ao outro, em uma busca por momentos onde podemos exercitar ao máximo a palavra amor.

Isso é maravilhoso, apenas temos que aprender a administrar esse amor de maneira mais elástica, dividindo-o cuidadosamente ao longo de doze meses. Temos que ter a consciência que não somos a personagem de Brechet que viu tudo calado, as pessoas sendo levadas para algum lugar e não fez nada para mudar isso, até que ela também foi vítima de um sequestro sem destino.

É apaixonante poder se permutar em amor, dar um pouco do seu tempo sem cobrar por ele, recebendo apenas e tão somente a moeda valiosa do sorriso, a lágrima sincera do obrigado e com isso ter a certeza que fez brilhantemente a sua parte.

Mudança

O Natal pode ser a chave que starta a mudança. Natal quer dizer natalício, o nascimento de algo, algo dentro de nós. Algo que se bem cuidado, alimentado, deve crescer e tomar conta dos outros, assim como um vírus que semeia amor e contagia a todos. Algo para o qual nunca deverá existir um antídoto ou vacina.

Então, aquela árvore que todos os anos montamos e decoramos com peças muitas vezes douradas e prateadas, também deverá ser montada dentro de nós, deixando suas raízes se expandirem por todo o nosso corpo; é primordial que sintamos internamente o que externamente mostramos ao outro.

O Natal pode e deve ser o momento de encontro e renovação. Não apenas o encontro com o amigo oculto, do brinde alegre, da comida farta, das fotos e dos abraços. Isso tudo passa e passa muito rápido, no dia 26 tudo já terá sido passado. Mas se tivermos nos alimentado de verdades, de sonhos altruístas e mais ainda de desejos e realizações sinceras, onde sempre haja lugar para aquele que um dia foi levado, assim como o negro, o operário, o miserável e o desempregado do texto de Brechet, certamente o nosso Natal, o verdadeiro Natal não terá durado apenas uma noite, mas sim centenas delas.

Então, que todos os dias, de todos os meses seja Natal quando estivermos de verdade imbuídos da certeza de que não estamos sós, de que não somos uma ilha.

Sejamos, portanto, a linda e frondosa árvore de Natal e que preso a nós estejam aqueles a quem queremos bem e, principalmente, aquele a quem nem conhecemos ainda, mas que acreditamos que quando ele chegar será muito amado como os demais.

Feliz Natal, deixe a festa acontecer em você!

 

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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