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Et cetera

Matéria publicada em 2 de março de 2018, 12:47 horas

 


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“Viver é etecetera”, Guimarães Rosa

 

E assim por diante… São muitas as opções que a vida nos dá, mas, talvez, poucas soluções para se poder achar as respostas para algo que vem sempre ao final, para aquilo que fecha uma ideia central, o nosso pensamento e que por vezes fica em suspense, um mero elemento de ligação entre nós e o que sonhamos em fazer.

Ao longo da vida, costumamos enumerar as nossas mais diversas vontades, desejos de imensuráveis valores: namorar, casar, mudar de cidade, abrir um negócio, escrever um livro, viajar, comprar um carro, estudar, etc.

A vida vai caminhando e muito do que sonhamos e listamos vai se realizando, já outras vão se perdendo na longa estrada do tempo. Talvez porque nos esqueçamos de nos cobrar com mais afinco que elas se realizem, ou até mesmo porque resolvemos, em determinado momento da caminhada, substituirmos este ou aquele item, algo muito normal e que faz parte dos planos, isso é da vida.

Não se pode perder o foco, desviar do objetivo, mesmo que seja por alguns segundos, porque a vida é muito veloz. Bem já começamos o ano e já estamos em março, onde as águas, segundo Tom Jobim, prometem fechar o verão, muitas vezes com a fúria e a avidez de quem quer a todo custo mudar de planos.

Quando pensei em escrever esta crônica, muitas coisas estavam acontecendo ao meu redor e o etc estava lá, perdido no final das opções. Ela na verdade me foi sugerida de maneira curiosa e apaixonada por alguém que queria muito mais que um final que deixasse antever uma simples opção, um assim por diante. Quem me fez buscar pelo que vem depois dos et ceteras da vida é capaz de se entregar de corpo e alma ao tudo e ao todo, algo que o universo nos presenteia no dia a dia. De A a Z, ela para mim é o B da bondade.

Com ou sem reticências os et ceteras são parte integrante do que fazemos, das opções que dispomos, algo muitas vezes velado porque não sabemos bem o que vem depois, mas sabemos que elas existem e isso por si só muitas vezes nos dá segurança, pois imaginamos que temos uma saída, seja ela qual for.

Guimarães Rosa dizia que viver é et cetera. “Viver é um descuido prosseguido. / Mas quem é que sabe como? / O senhor já sabe: viver é et cetera”. Um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, autor de obras memoráveis como Grande Sertão: Veredas e Sagarana, se meteu a descobrir os porquês do et cetera e nos deu de presente o que descobriu.

Viver

Viver, eu acredito, é o ato do buscar, do criar com afinco a ponte que irá nos levar para o outro lado do rio. Dizem que o melhor da festa é esperar por ela, sendo assim o que vem a seguir é o que nos instiga a novas buscas.

E vamos atrás dele com uma determinação sem tamanho. Nos relacionamentos a dois, buscamos a intimidade, algo que encontramos quando se estamos mais próximos. O mesmo acontece nos estudos, no trabalho, nos esportes, da diversão et cetera. Ele nos acompanha e sabe que mais dia, menos dia, vamos lançar mão dele.

Claro que tudo isso é uma grande brincadeira se levarmos a vida de maneira leve e solta, sem cobranças excessivas. Talvez o et cetera pode até ser uma saída divertida, algo de maneira a nos ensinar, mas também nos dando a liberdade de optar entre essa ou aquela saída.

Estamos aqui neste plano ou planeta como queira, para buscar ser o melhor, dar o melhor de nós e buscar fazer o outro feliz. De nada adianta pregar o contrário, até porque os efeitos são como bumerangues, vão e voltam e acabam por nos acidentar, muitas vezes de maneira fatal.

Acredito que sempre haverá no fim do túnel o et cetera, até porque ele dá ideia de continuidade, mas sem as reticências, pois com ela a abreviação estará errada e para nós não irá ajudar em nada em nossos planos, fazendo tudo ficar muito longo e distante.

Nós sempre iremos querer todas as opções possíveis e imagináveis que a vida possa nos dar, mas sem jamais aplicá-las ao se referir a pessoas, et cetera são para as coisas, jamais para seres humanos. Estes são maiores que isso, não se permite fracionar. Somos singulares dentro da enorme pluralidade do universo.

 

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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