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Eufemismos

Matéria publicada em 17 de abril de 2018, 07:26 horas

 


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Minha mulher tem parentes italianos.
Um belo dia recebemos a visita de um casal de tios da Florença. Como gentil cicerone, levei-os para conhecer a exuberância natural do Parque Nacional de Itatiaia.
Para deixar o roteiro ainda mais brazuca, no início da tarde fomos a uma churrascaria rodízio, onde nos empazinamos de todos os tipos de de carnes, uma extravagância que poucos lugares do mundo podem se dar ao luxo de oferecer.
A conta chegou e eu iniciei o tradicional ritual do “deixa que eu pago”. Quer dizer, achei que iniciei, porque não houve ritual nenhum. Assim que me ofereci para pagar a conta o casal soltou em ato contínuo um “Grazie mille, Alexandre” (muito obrigado), e por um instante eu me senti igual aqueles cachorros que correm atrás do carro, mas quando o carro para ficam sem saber o que fazer e saem cabisbaixos com o rabo entre as pernas.
Não que eu não quisesse, pudesse ou estivesse disposto a pagar, mas me espantou o modo imediato e sem rodeios com que os italianos aceitaram minha oferta. Esperava, como bom brasileiro, aquele longo teatro:
– Não, deixa que eu pago…
– De jeito nenhum, você é meu convidado…
– Puxa, vamos então pelo menos dividir a conta…
– Nananinanão! Você fica me devendo essa, e quando eu for na Itália você me paga uma bela lasanha ao tartufo nero.
Embora o resultado final fosse rigorosamente o mesmo (eu pagando a conta), de alguma forma não consegui entender a quebra de script, o gesto soou como um ato rude da parte deles.
O fato é que os povos possuem ritos sociais com os quais montam os alicerces de seus relacionamentos. Não são necessariamente certos ou errados, na maioria das vezes apenas convenções partilhadas num determinado tempo e lugar e razoavelmente aceitas.
O europeu é assim mais direto, sem tantos rodeios.
– O que você achou da macarronada que eu fiz?
– Muito salgada, Giuseppe.
No Brasil, a mesma pergunta receberia uma resposta mais ou menos assim:
– Como sempre, sua macarronada estava fantástica…. Que molho delicioso esse que você preparou, e está com aquele salgadinho gostoso ao fundo. Tem gente que é meio enjoada, reclama de sal na comida, mas eu não ligo. Poderia passar a água, por favor?
E como todo brasileiro, você provavelmente leria a verdade não pelo que foi dito, mas pelo que foi obliterado, caprichosamente solto em migalhas pelos caminhos curvilíneos da floresta semântica.
Dizem que os alemães são ainda mais diretos e cartesianos, como se o mundo fosse regido por uma planilha de Excel. Um é um, zero é zero.
Tenho um amigo de adolescência que trabalha nos EUA, e me relatou os estranhos convites de festas que recebe dos conhecidos americanos, com a delimitação exata da hora de início e fim dos festejos, cronograma respeitado por todos os convivas.
No Brasil tudo mais é mais fluido, malemolente, subjetivo.
Se no convite está marcado 7 da noite, o único horário que ninguém vai aparece é sete da noite, porque pega mal chegar no horário e ser um dos primeiros da festa. E se a festa estiver animada e a bebida farta, ninguém arredará pé da festança nem que o dono da casa já esteja babando no sofá.
No Brasil nada é absoluto, a verdade está sempre sambando camuflada em algum carro alegórico da linguagem.
– Abram alas que a Unidos do Eufemismo está entrando na passarela.
Bom, acho que já disse o que tinha que dizer, e espero que tenham gostado desta crônica. E nem venham me dizer que acharam bonitinha, porque eu sei muito bem que bonitinha é uma feia arrumadinha.

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Ah, ficou muito legal, até porque uma crônica nem precisa ser muito boa pra me agradar!

    Peguei a ideia?

    Brincadeira, ótima estória!

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