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Expectativas

Matéria publicada em 28 de julho de 2017, 07:00 horas

 


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Esperanças baseadas em supostos direitos, probabilidades, pressupostos ou promessas transformam-se em expectativas, as quais, por sua vez, configuram situações que, muitas vezes, vêm precedidas de aflição, dúvida e até medo. Palavra que quer saber, que vira pergunta na boca do outro, querendo resposta imediata.

O mundo atual vive em torno de inúmeras expectativas, de respostas que nem sempre chegam na hora que desejamos. Estamos quase todos os dias em estado de espera, aguardando, na maioria das vezes de forma ansiosa, algum acontecimento baseado em questionamentos e probabilidades.

Para uns, expectativa está diretamente ligada à iniciativa; já para outros, negativa é a primeira palavra que vem à mente. Na verdade, o segredo está em cada indivíduo se encontrar e, consequentemente, aprender a diferença entre o que pode ser controlável e o que não pode. Lembro que não podemos controlar o outro, o que a outra pessoa pensa e sente, quiçá o mundo, mas podemos e devemos controlar a forma como vemos e nos relacionamos com tudo que está em nossa volta e, com isso, temos a chance de conhecer e trabalhar cada detalhe da nossa expectativa.

Quando buscamos controlar o incontrolável, é fato que a frustração virá de forma imediata, mas, quando encontramos respostas verdadeiras ou racionais às nossas inúmeras perguntas, sentimos que temos como dar conta de nossos questionamentos e, de certa forma, conseguiremos domá-los, colocando-os debaixo de nossos pés, exercendo sobre eles o nosso comando.

Importante perceber que, quando vivemos esperando que a vida funcione exatamente da forma como idealizamos, querendo que tudo saia sem erros, criamos uma situação de pura ficção, vivendo na condição de escravos dos nossos pensamentos e desejos, algo que existe sob a nossa exclusividade, sem sofrer a interferência de fora. É hora de parar e reavaliar tudo!

A Ciência demonstra que pessoas que enfrentam a vida com otimismo e perseverança conseguem seus objetivos com mais facilidade. Em 1963, o psicólogo Robert Rosenthal publicou um artigo na revista American Scientist, mostrando como as expectativas dos pesquisadores podiam afetar os resultados dos experimentos. O texto indicava que esse tipo de profecia autorrealizável também estaria presente nas escolas, onde as expectativas que os professores têm sobre os alunos poderiam influir no seu rendimento acadêmico.

O escritor Paulo Coelho, de certa forma, interpretou a expectativa assim: “Quando você quer realmente uma coisa, todo o Universo conspira para que realize o seu desejo”. Algo que, na verdade, enquadra-se muito mais no esoterismo do que na psicologia científica.

Acredito piamente que as expectativas não servem para absolutamente nada se não vêm acompanhadas de ações objetivas. São as nossas decisões e ações que geram as condições necessárias para que as coisas aconteçam. Há momentos em que a expectativa me lembra uma cartomante, uma mera leitura de mãos ou cartas que beira o vazio, algo sem a menor solidez, são conjecturas que, na maioria das vezes, se conseguirem ganhar forma, certamente não será da maneira como preconizado pela pessoa que pratica a suposta arte divinatória.

Fenômeno

A biologia também está muito envolvida nesse fenômeno das expectativas, algo que sentimos na hora de enfrentar determinada tarefa e que influi incrivelmente em nossos níveis de atividade cerebral e que, por sua vez, influenciam totalmente nossas chances reais de sucesso ou fracasso. Se acreditarmos que hoje teremos um dia ruim, essa ideia produzirá em nós um estado emocional necessário para que isso ocorra. Imaginar que algo não irá funcionar nos impedirá de empreender o esforço necessário para que funcione e é bem possível que acabe dando errado. Isto está longe de ser algo com toques mágicos ou místicos, mas está ligado aos recursos mentais que mobilizamos para alcançar nossas metas.

Isso me lembra o mito do Pigmaleão. A mitologia grega diz que Pigmaleão era um príncipe que, procurando a mulher perfeita para se casar, decidiu que a teria esculpindo-a em uma pedra. Assim, durante vários dias e noites, ele entalhava a rocha para transformá-la na mulher ideal, aquela que sua mente imaginara ser a mulher perfeita. Assim, acabou se apaixonando por sua própria criação, que chamou de Galateia. Vendo a expectativa sem fim de Pigmaleão por aquele amor de pedra, a deusa Vênus teve pena dele e deu vida à estátua.

A psicanalista Regina Navarro Lins afirmou que é preciso repensar acerca do casamento e, mais ainda, da vida, o tudo e o todo. “A união pode ser muita boa, mas as pessoas vão ter que reformular as expectativas sobre o casamento, bem como outras ações que desembocam no convívio a dois. É importante que as pessoas tenham liberdade de ir e vir, de ter amigos, sem essa da vida dos dois se transformar em uma só, sem controle sobre o outro. Para vivermos bem, é preciso coragem a fim de romper valores equivocados que nos foram transmitidos. As pessoas sofrem muito e desnecessariamente por causa de fantasias, desejos, medos, culpas, vergonha, ou seja, expectativas que não vão dar em nada no final das contas”.

As pessoas não estão neste mundo para satisfazer nossas expectativas, assim como não estamos aqui para satisfazer as delas. Simples assim. Siga sua história, sua estrada e, logo, logo, ela irá cruzar com outra que, diferente das expectativas, será pura realidade. Então, não esqueça: nunca confunda esperança com expectativa. A primeira nos alimenta, a segunda nos decepciona. E, como dizia Cazuza, “o nosso amor a gente inventa pra se distrair e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu”.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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