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Feliz aniversário

Matéria publicada em 15 de setembro de 2017, 07:00 horas

 


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Celebrar é palavra de ordem para muitos, já outros preferem um confortável ostracismo.

A palavra “aniversário” vem do latim annus (ano) vertere (voltar), ou “aquilo que volta todos os anos”. Reza a lenda que no Egito e Grécia antigos, as pessoas já tinham o costume de comemorar seus nascimentos a cada ano.

Fazer aniversário é ter a certeza de que pelo menos uma vez no ano a vida será vista de outra maneira, através de um olhar mais feliz e sorridente. Claro que nem todos pensam assim, muito querem o silêncio, sequer desejam ser lembrados.

Realmente certos aniversários acabam por marcar de maneira dolorida, pois coincide com algo triste que tenha ocorrido naquele dia, data que deveria ser especial, mas quando ela chega a lembrança que se tem acaba sendo mais de dor e saudade do que de alegria, provocando incômodo, não nos permitindo festejar esta “nova” fase em nossa vida.

Na crença dos povos pagãos completar um ano a mais de vida era verdadeiramente uma mudança significativa, mas os espíritos do mal podiam se apossar do aniversariante. Então, dar presentes era uma forma de trazer o bem para o aniversariante, dessa forma o mal seria totalmente afastado, assim como fazer um pedido antes de assoprar as velas era tido como um sinal positivo enviado aos céus.

Diz-se que os festejos começaram como uma forma de proteção. Assim, para proteger o aniversariante do mal que o rondava naquele momento de celebração, a família e os amigos se reuniam para desejar coisas boas e trazer bons pensamentos.

O aniversário é a certeza de que, de alguma maneira, estamos crescendo. Já para muitos, envelhecendo. Já para outros é o acúmulo de experiências para se lidar com a vida e consequentemente com as pessoas.

Oscar Wilde dizia com muita propriedade: “Os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo”. Quando se é jovem sabemos de tudo, conhecemos tudo, somos quase os donos do mundo ou pelo menos amigo dileto do dono. Mas, com o passar dos anos, a vivência que soma quedas e ascensões nos permite ter a certeza de que no mínimo somos conhecidos do dono, jamais o próprio.

Presentes da vida

A vida ao longo dos anos nos presenteia com alegrias e tristezas, surpresas e decepções, risos e lágrimas e nós sabiamente temos que ter a destreza de saber lidar com tudo isso, administrando cada uma das etapas dessa estrada. Soprando as velinhas da maneira como nos chegam.

O aniversário nos ensina o conceito de renascer, portanto, festejá-lo é celebrar um novo começo. Assim, o renovar do amanhã já começa a partir de hoje. Com isso nessa data especial costumamos fazer um balanço de nossas realizações passadas, para imediatamente assumirmos novas decisões. Elaboramos projetos, sonhos e buscamos torná-los reais. Muitos vão deixando estas vontades pelo caminho, permitindo-se levar pelo desânimo e a falta de querer. O aniversário é um estágio em nosso desenvolvimento, quando sentimos de verdade que estamos crescendo de todas as formas, é a ocasião propícia para uma introspecção, uma avaliação sincera e totalmente pessoal.

Sei de pessoas que usam essa data para se dar presentes: roupas, sapatos, joias. Outros vão em busca de um local tranquilo no afã de se encontrarem com seu eu interior. Há quem promova festas memoráveis, fazendo gastos sem tamanho, enquanto outros buscam dividir esse dia especial com pessoas carentes e necessitadas de amor e carinho. Cada pessoa sente de uma maneira, canaliza o desejo e o sonho para fazer dessa data o seu melhor, seja ele como for.

Santo Agostinho disse: “Não digas que os tempos passados foram melhores que os de agora. Os bons dias são feitos pelas virtudes, os maus pelos vícios”. Creio que seja esse o raciocínio que devemos ter, ou seja, não culpar o passado, mas sim pensar em como tornar o presente e consequentemente o futuro melhor, mais feliz e palatável. Porque errar, viver percalços é do mundo, da vida, está no dia a dia de todos nós. O que temos que trabalhar em nosso exterior e, sobretudo, interior, é a saída que queremos e iremos dar aos obstáculos, como transpô-los sem machucar e ferir ninguém.

Assim é mister que saibamos que tudo o que existe, existe no tempo, há uma dimensão e que é importante perceber que nela existe a finitude. A existência se compõe de nascimento, desenvolvimento e fim. O filósofo Martin Heidegger dizia que as pessoas vivem como se não fossem morrer, elas escondem de si mesmas que não têm todo o tempo do mundo. Imaginam que viverão uma vida eterna. Nada contra as concepções religiosas da eternidade da alma, do espírito ou da reencarnação, mas acredite, de uma forma ou outra ela terá fim. Sabendo disso, querendo ou não, temos que pensar sobre a nossa própria existência e igualmente na finitude dessa existência.

Então, seja como for a nossa comemoração, só ou em grupo, de maneira alegre e expansiva, ou recolhido em nosso interior, temos que saber que todos os caminhos irão nos conduzir a um mesmo lugar ao final de um tempo. E o que vale é saber como queremos chegar nesse lugar, vestidos ou nus, de mãos limpas ou com grandes bagagens.

Como queremos ser recebidos por aquele ou por aquilo que acreditamos?

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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