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Hollywood e a corrida espacial

Matéria publicada em 7 de abril de 2017, 07:10 horas

 


‘Estrelas além do tempo’ modifica uma história bem conhecida; filme termina com o suspense que cercou o voo do astronauta John Glenn

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“De boas intenções o inferno está cheio”, já dizia o ditado popular. O filme “Estrelas além do tempo” (Hidden figures) começou com uma boa intenção. Contar a história de três americanas negras que trabalharam como calculadoras nos primeiros anos do projeto Mercury da Nasa. O que em uma época em que os Estados Unidos viviam num regime de aparthaid, semelhante ao da África do Sul, foi uma demonstração de talento extraordinária. Katherine Goble, Dorothy Vaughan e Mary Jackson revisavam os cálculos dos engenheiros no Centro Espacial Langley, que fica na Virgínia, lá no norte dos Estados Unidos.

O problema é que o filme altera fatos históricos para fazer as três afro-americanas parecerem gênios, que deixam embasbacados os cientistas brancos da Nasa. O que não é verdade. Os erros são visíveis, para qualquer pessoa que tenha acompanhado a história real, do programa espacial americano. A história se passa em 1961 e, em dado momento, Katherine Goble descobre que o foguete Atlas vai ser usado para colocar em órbita a cápsula Mercury. Acaba trancada em uma sala e interrogada por ter descoberto “uma informação secreta”!

Acontece que o uso do míssil Atlas como lançador das Mercury nunca foi segredo de estado. A foto aí ao lado foi tirada durante uma entrevista coletiva com os astronautas do Mercury, realizada em Washington no dia 5 de abril de 1959. Nela os sete astronautas mostram para os jornalistas os modelos do foguete Atlas e da cápsula Mercury que iam pilotar. Até as crianças montavam modelos do Atlas Mercury produzidos pela fábrica de brinquedos Revell.

A heroína afro-americana também “descobre” que o foguete Redstone não tem potência para colocar a espaçonave em órbita. Isso também era conhecimento comum naquela época. Desde que o projeto Mercury foi estabelecido em 1958, no ano da criação da Nasa, a equipe de propulsão, liderada pelo engenheiro alemão Werner Von Braun já tinha escolhido o Atlas para os voos orbitais, ficando o Redstone relegado a propulsão nos voos suborbitais de teste. Como as missões dos astronautas Allan Shepard e Virgil Grisson que são mostradas no filme.

Em outra sequência de “Estrelas além do tempo”, a Nasa recebe um computador IBM 7090 e ninguém sabe como ligá-lo. Até que Dorothy Vaughan, que tinha roubado um livro sobre Fortran da Biblioteca Pública, vai lá e liga o computador para espanto dos brancos basbaques.

Isso é o cúmulo do absurdo. A IBM era a maior empresa de computadores do mundo naquela época. E quando vendia um de seus computadores para alguém enviava técnicos para montar e acionar a máquina. No caso da Nasa, uma importante agência do governo, a IBM jamais deixaria de oferecer o suporte técnico.

Kevin Costner é o diretor do Grupo Tarefa do Espaço. No filme ele se chama Al Harrison e aparece destruindo uma placa que reservava um banheiro do centro espacial para os negros. Na vida real do diretor do grupo foi Robert Gilruth e ele nunca precisou combater o racismo na Nasa. Desde a fundação da agência, em 1958 que a separação racial tinha sido abolida. Na vida real a personagem nunca teve que usar um banheiro destinado aos negros. Essa separação só existiu nos anos de 1950, antes da criação da Nasa.

O filme termina com o suspense que cercou o voo do astronauta John Glenn. Depois de três órbitas em torno da Terra uma luz de alerta indicou que o escudo térmico da nave tinha se soltado. No filme Katherine sai de sua sala, atravessa um corredor e entra no centro de controle da missão. Onde sugere ao diretor de voo que o astronauta faça a reentrada com os retrofoguetes presos a nave. Para segurar o escudo. Acontece que a personagem trabalhava no Centro Espacial Langley, na Virgínia, enquanto o Centro de Controle da Mercury ficava em Houston, no Texas, a mil quilômetros de distância. Na vida real foi o diretor de voo Chris Kraft e o diretor de missões Walter Williams que tiveram a ideia de manter os retrofoguetes durante a reentrada.

Esse desprezo pela história recente já aconteceu em outros filmes, como o “Cowboys do espaço” do Clint Eastwood. “Estrelas além do tempo” funciona melhor ao relembrar o racismo nos Estados Unidos, mas modifica tanto os fatos que sua mensagem se perde.

Segredo: Astronautas mostram o modelo do Atlas Mercury

Segredo: Astronautas mostram o modelo do Atlas Mercury

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Esse é o problema dos esquerdistas – Hollywood está cheio deles – que distorcem a realidade para que tudo se adeque à narrativa da agenda deles. Vêem racismo e “injustiça social” em tudo, chegando ao cúmulo de caluniar pessoas e instituições, tudo pela causa. Na arte da mentira do mundo “pós-verdade” que eles inventaram para acusar a oposição, eles são mestres!

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