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Jaboticaba capitalista

Matéria publicada em 15 de dezembro de 2017, 07:00 horas

 


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“Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”, Karl Marx.

 

Eis que chega o Natal e com ele em alguns casos já que em termos de Brasil isso já não é mais praxe: o Décimo Terceiro.

Então, para alguns felizardos com um pouco mais de dinheiro no bolso, partem para as ruas e estas ficam bem mais povoadas, tomadas de pessoas e vendedores, os famigerados camelôs, figuras singulares que exibem muitas vezes mercadorias duvidosas, oriundas de importações made in algum lugar, algo que nem sempre podemos chamar de qualidade, mas é fato que já caíram no gosto do brasileiro.

Existem ainda os vendedores ambulantes de frutas, que carregam em seus carrinhos de mão, de jaboticabas a goiabas, frutas perfeitas, verdadeiras ilusão para os olhares famintos de quem os encontra pelas esquinas das cidades, suculentos objetos que mais parecem peças cenográficas.

Ao longo do ano não encontrar camelôs pelas ruas é algo totalmente impossível e nessa época de Natal então, nem se fala. Algo que acontece em todas as cidades brasileiras, seja ela de que tamanho for.

Só no Rio de Janeiro são 18 mil ambulantes divididos entre brasileiros, bolivianos, peruanos, chilenos e angolanos. E o prefeito Marcelo Crivella pensa em liberar mais 4,3 mil licenças, fazendo de vez os pedestres caminharem pelas ruas, abandonando de vez as calçadas.

E passando por esse problema, muito certamente oriundo da crise que tomou conta do país a partir de 2015, as cidades menores se comparadas ao Rio de Janeiro, já recebem a visita desses comerciantes informais, inclusive os de frutas.

As cidades do Sul Fluminense já sentem a presença desses vendedores, que muitas vezes deixa de ser silenciosa e passa a figurar na imprensa com enorme alarde, como aconteceu recentemente em Barra Mansa onde um desses ambulantes teve o seu carrinho cheio de jaboticabas apreendido, algo que gerou uma comoção em vários veículos, principalmente nas redes sociais, onde boa parte dos internautas reclamava do tratamento dado ao vendedor da fruta.

Quem tem razão? A Postura que disse ter feito o seu papel? Ou a postagem que reclamou um olhar mais carinhoso para o ambulante? A lei e a ordem ou o bom senso? São muitas respostas, com certeza, diversas razões, mas sempre, ao meu ver, diante do quadro nefasto vivido por nós brasileiros no dia a dia, onde dinheiro é artigo de luxo, já que ele foi sumariamente partilhado entre poucos colarinhos, deixando o povo a ver navios ou nem isso, sempre vou acreditar que o equilíbrio é, e será sempre a melhor forma de lidar com todos os tipos de problemas.

Tirar o produto da rua é deixar de dar a quem o comercializa o direito de ganhar o seu quinhão. Por sua vez, este deve seguir as regras do jogo e se legalizar. Legalizar, na maioria das vezes significa pagar algo muitas vezes escorchante para certos bolsos.

Desequilíbrio

Os defeitos de uma cidade, de todas, é o desequilíbrio, olha-se com certa voracidade para algumas coisas e se esquece de outras. Tudo bem que são pastas e posturas diferentes, mas que são parte de um todo.

Em Cuiabá, município de Mato Grosso, o prefeito chegou a pedir desculpas a um vendedor de picolé pelo tratamento um pouco mais acalorado dado pelos fiscais da Secretaria de Ordem Pública.

Um ambulante na calçada incomoda, mas uma calçada sem calçamento também, assim como uma rua sem asfalto, um poste sem luz, uma limpeza negligente. Isso sem detalhar segurança, educação, saúde e saneamento, entre outros.

O conjunto é falho e a conta não fecha. O problema muitas vezes menor recebe maior “atenção” ou fiscalização, já o maior o tempo acaba muitas vezes se incumbindo de maquiar.

Marx dizia que o capitalismo era o principal responsável pela desorientação humana. Defendia com todas as suas forças a ideia de que a classe trabalhadora deveria unir-se com o propósito de derrubar os capitalistas e aniquilar de vez a característica abusiva desse sistema que, segundo ele, era a maior responsável pelas crises que se viam cada vez mais intensificadas pelas grandes diferenças sociais. Teria ele, razão?

É fato que nesse caótico e quase sem solução cabo de guerra urbano, quem sempre ganha é a lei, o poder e por fim em muitos casos, a força. Equilíbrio muitas vezes só entre o volume de jaboticabas e o seu peso.

Ao “vencedor” não as frutas, mas sim as batatas.

 

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br


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