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‘Ler autor nacional pega mal’

Matéria publicada em 20 de janeiro de 2017, 07:00 horas

 


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Estava eu no meu agradável périplo semanal de garimpar bons livros, somando o prazer que tenho em ler boas obras e ainda o ofício de editor que me obrigada a buscar sempre algo deliciosamente agradável e inteligente do ponto de vista da construção do texto, quando sinto ao meu lado na livraria uma jovem dos seus 25 anos aproximadamente, abrindo e fechando capas, lendo rapidamente orelhas e contracapas dos livros da banca dos mais lidos, aqueles que acabam indo parar nas listas dos mais vendidos das revistas que habitualmente divulgam esse ranking.

Passado alguns minutos e já com quase todos os meus livros escolhidos, percebo que a tal moça ainda estava na sua luta por achar um livro que a agradasse.

No afã de ser útil, querendo dar a ela boas opções do que seria ideal e assim fazê-la “parar de sofrer”, aproximei-me, dei boa noite e me apresentei como um amigo curioso e não um vendedor daquela loja. Ela sorriu, agradeceu, mas não deu a atenção que eu esperava. Não satisfeito voltei a carga e perguntei se ela tinha ideia do que estava buscando, se procurava um romance, um livro de aventura ou de poesia. Sem parar e olhar para mim, estacionou ao meu lado com uma pilha de pelo menos seis livros e ainda nervosa, disse que não sabia o que escolher para um amigo que fazia aniversário. Tentei identificar o gosto do tal amigo, porque já havia sentido que intimidade com a literatura não era com ela.

Comecei a sugerir nomes dos mais variados e títulos igualmente interessantes, muitos dos quais já havia lido. Senti que ela não entendia minha sugestão, muito menos meu gosto por determinados autores e temas. Tentei ir nos mais óbvios e nada. Até que achei que poderia ter descoberto a saída para o impasse de qual livro poderia indicar e passei a buscar autores mais comuns aos brasileiros, nomes que nos são mostrados pela mídia no dia a dia e sobretudo porque são autores nacionais.

De posse de bons quatro títulos, tomei a liberdade de entregar-lhe os exemplares, citando os nomes dos autores e o que cada obra tratava. Tal não foi o meu espanto, quando ela levantou os olhos dos exemplares que estavam em suas mãos e me atirou a seguinte pérola: “LER AUTOR NACIONAL PEGA MAL”.

Tentando me recuperar da asneira que acabara de ouvir, consegui apenas dar um sorriso amarelo e balançar a cabeça em sinal de desaprovação ao que acabará de ouvir.

Em seguida expliquei melhor e mais detalhadamente quem eu era e o meu ofício de mais de três décadas trabalhando com livros e escritores, buscando patentear as minhas indicações e que a história que ler autor nacional pega mal, era uma tremenda falta de conhecimento. Por alguns instantes imaginei que talvez fosse a primeira vez daquela moça em uma livraria, tal a falta de senso e da forma com que cuidava dos exemplares que a cada instante abria e fechada, sem se deter por um minuto que fosse na leitura das orelhas ou da contracapa.

Percebendo que minha ajuda não servira de nada, me despedi e segui em direção ao caixa para pagar os livros que havia escolhido e que tinha exata certeza da qualidade. Qual não foi o meu espanto ao perceber que a jovem preconceituosa e desinformada já havia chegado ao caixa antes de mim e trazia nas mãos um exemplar não de um livro de um autor estrangeiro, já que os nacionais lhe causavam repulsa a sua pseudo intelectualidade, mas estava feliz comprando para o seu amigo uma agenda de 2017, onde não havia uma só linha de literatura ou referência a algum livro ou autor, mas sim, dias e meses, datas comemorativas, fases da lua e fuso horário dos mais variados países.

Pensei que essa cadeia para chegar até aquele gosto ou falta dele, começava lá atrás, nos primeiros dias de vida, no convívio com os livros dado pelos pais, depois na escola, a faculdade, entre outros fatores que nos levam a conhecer e amar a leitura e o prazer de ter nas mãos um livro seja de um autor brasileiro ou outro, porque a literatura como a música, a cultura em geral, têm uma linguagem universal.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. Brasileiro vai à livraria só pra folhear revista de fofocas e falar alto no celular.

  2. Triste realidade da leitura dos brasileiros.

    Recentemente um navegador de internet independente, livre e que não te obriga a nada (que não é o google) encomendou uma pesquisa com o objetivo de saber a quantas andam o conhecimento de internet do povo de vários países, incluindo o Brasil.

    55% ou 55 entre 100 brasileiros afirmaram que as redes sociais é a internet. Imagine só em que grau está o saber desse nosso povo brasileiro. No fundo está só 2 países e na ponta está os EUA com 5% dos americanos tbm afirmaram que redes sociais é igual a internet.
    Minha opinião: eles não sabem acessar um site escrevendo http://www.enderecovirtual.com O que é navegador de internet para eles?

    E olhe que esses jovens estão totalmente inseridos com a tecnologia da internet.

    Ás vezes eu arrisco a afirmar que as redes sociais estão deixando nossos jovens mais burros. Lembramos aqueles jovens na Praça Brasil iguais a zumbis sendo controlados pelos americanos através daquele “bichinho eletrônico” fazendo-os andar por cima de jardins, arranjos de flores, por entre os carros, entrando em lojas e talvez até por cima de outro jovem. Os americanos devem estar rindo dos analfabetos funcionais até hoje.

    Que vergonha para os pais daqueles jovens, não é mesmo?! Se é que eles têm. rsrsr

    Querer que esses jovens leem livros de autores nacionais ou não é exigir-lhes um sacrifício impossível.

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