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Ludicamente incorreto

Matéria publicada em 21 de novembro de 2017, 13:12 horas

 


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Atirei o pau no gato tô tô

Mas o gato tô tô

Não morreu reu reu…

 

Não sei quantas centenas de milhares de vezes cantei o refrão dessa inocente musiquinha infantil.

Inocente? Pera lá…

Só recentemente me dei conta de como as simbologias e enredos que povoaram a minha infância eram recheados de coisas que hoje consideraríamos inaceitáveis.

Na briga interminável entre gato e rato o Jerry sempre levava a melhor, e não media esforços para atazanar a vida do felino malino. Bater a cabeça dele com uma bigorna de ferro? Tá valendo. Jogar um piano de calda do alto de um prédio em cima do gato? Tranquilo. Atropelar o bichano até ele ficar fininho feito uma folha de papel? É nóis na fita, bichano. E apesar disso tudo, o gatôtô não morreu reu reu.

E o soldado, que além de ter cabeça de papel, se não marchasse direito ainda ía preso no quartel? Muito sádicos os compositores de músicas infantis da época.

E pra fazer a criança dormir então? Nana neném que a Cuca vem pegar! Seu pai foi pra roça, mamãe foi trabalhar! Que filme de horror é esse? O pai vai pra roça, a mãe sai pra trabalhar e pedem que a criança fique dormindo pra Cuca vir pegá-la. Chama o Conselho Tutelar! A última coisa que a criança vai querer fazer é dormir, pra pelo menos tentar fugir da Cuca. Ainda mais que a representação da Cuca que a gente tinha era de uma Jacaroa enorme, colorida, com a boca cheia de dentes e uma risada sinistra. Criança de antigamente não podia ter medo de Cuca, nem de careta e nem de boi da cara preta.

E o Lobo Mau que engoliu viva a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho.

Na minha infância, a gente também adorava brincar com umas plantinhas que fechavam as folhas ao serem tocadas, mas o mais estranho é que a minha turma tinha o hábito fúnebre de cantarolar uma musiquinha que era mais ou menos assim:

“Maria fecha a porta que teu pai já morreu”.

Que musiquinha mais sádica essa.

Seja como for, cresci uma criança pacífica, nunca tive vontade de jogar uma bigorna na cabeça de nenhum gato nem desejei que o pai de nenhuma planta morresse.

Acreditava que podia voar como o Super Homem mas nunca me joguei da janela do apartamento e achava que poderia me transformar no Homem Aranha, mas nunca comi mosca com sucrilhos no café da manhã.

Era uma outra geração, um outro mundo. Às vezes ludicamente incorreto, é verdade, mas ainda assim uma infância encantada, como todas as infâncias devem ser.

 

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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