sábado, 25 de novembro de 2017

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Modo avião

Modo avião

Matéria publicada em 18 de julho de 2017, 13:39 horas

 


wp-coluna-contos-e-cronicas-alexandre-correa-lima

 

– Essa aeronave é equipada com quatro saídas de emergência.

– Não, não. Eles pagaram quatro mil e novecentos e ainda está faltando mil e quinhentos.

– Mantenha o cinto de segurança afivelado sempre que o aviso luminoso estiver aceso.

– Eu acho melhor a gente tentar falar primeiro com o Silvio, pra ver se ele resolve o problema diretamente com o financeiro deles.

– Em caso de despressurização da cabine máscaras de oxigênio cairão automaticamente.

– Mas não libera a mercadoria não, se não a gente não vai receber a outra parte.

– Em caso de pouso na água retire os assentos flotantes embaixo da sua poltrona.

– Chama o Jurandir então pra resolver isso duma vez.

– Senhor o avião vai decolar, o senhor precisa desligar seu celular.

– Desejamos a todos um bom voo.

– Chama o Jurandir logo que a aeromoça já ta aqui querendo que eu desligue, Vanderlei.

Nessa altura, não era mais a aeromoça que queria que ele desligasse o telefone na cara do Vanderlei, mas todos os outros duzentos e trinta e sete passageiros, que já sabiam em detalhes toda a contabilidade da firma, e não queriam correr o risco de uma interferência nos equipamentos do avião por conta desse bate boca inoportuno.

Tudo bem que ele queira morrer em pleno voo por conta dos mil e quinhentos reais do segundo boleto que não foi pago, mas os outros passageiros não tinham nada a ver com isso. Nem tampouco eu, na fileira ao lado.

– Senhor, desligue esse telefone agora !

– Vai logo Vanderlei, chama o Jurandir que essa aeromoça está me aperriando aqui.

– Desligue!

– Só mais um minutinho dona aeromoça, suplicou o passageiro, que tinha um vozeirão que se fazia ouvir em todas as poltronas daquele voo.

Logo uma pequena vaia começou a se ensaiar no fundo do avião e se espalhar pelo corredor.

A aeromoça, num ato de valentia repentina, tomou o celular da mão do sujeito, desligou e disse que o aparelho só seria devolvido ao final do voo.

Aplausos aliviados ecoaram pelo avião, sufocando o som das turbinas que começavam a rosnar raivosas.

O passageiro praguejou alguma coisa ininteligível e disse que o Jurandir iria processar a companhia aérea assim que o avião pousasse.

Cinco minutos depois dormia com a cabeça pendida para a esquerda, para alívio de todos os passageiros daquele voo e do Vanderlei que não precisou mais atendê-lo.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

Untitled Document