Não me abandone - Diário do Vale
quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Não me abandone

Não me abandone

Matéria publicada em 26 de janeiro de 2018, 12:02 horas

 


‘A arte é bruxaria de espelhos. Quem não tem bons olhos não deve mirá-la’. Édouard Mane


Sempre fui um apaixonado pela música francesa; uma língua melódica, fina e agradável. Não são poucos os intérpretes que aprecio, a primeira de todas é indiscutivelmente Édith Piaf, a seguir Charles Aznavour, Yves Montand, Gilbert Bécaud, Mireille Mathieu, Maurice Chevalier, entre dezenas de outros nomes.
Já as letras são igualmente em grande número, mas uma em especial me toca e emociona: Ne me quitte pas, escrita por Jacques Brel em 1959. Traduzida e cantada em inúmeros idiomas, no Brasil sua principal tradução, já que houveram várias é “Não me abandone”, onde a versão mais linda aos meus ouvidos foi cantada por Maysa, que a gravou em 1961.
A tradução fala de um amor e da busca pela sua verdade, um grito apaixonado e desesperado para que a parceira não vá embora. São promessas e desejos que avançam e suplicam por toda a canção “não me abandone”.
Jacques Brel, falecido em 1978, sempre fez questão de dizer que sua letra não era sobre o amor e sim buscava mostrar a covardia dos homens. Ele a havia composto no decorrer da sua separação com Suzanne Gabriello, também cantora, falecida em 1992.
Assim como esta letra em outro idioma que tanto me marca e por vezes traduz o amor que sinto por uma mulher, certamente deve encantar outros apaixonados em outras línguas.
Ne me quitte pas, mais que a beleza e a importância que carrega, me serve de fio condutor para entender o poder da comunicação através da arte, mesmo que não entendamos a sua letra, a emoção acompanha todas as suas traduções, conseguindo de forma perfeita encantar a todos que a ouve.
Assim foi com The Beatles, Elvis Presley, Bob Marley, Tony Bennett, Amy Winehouse, Michael Jackson, Pink Flyd, Celine Dion, Shakira, Queen, Nina Simone, Nirvana, Louis Armstrong, Ray Charles, AC/DC, Led Zeppelin, Bruno Mars, Rihanna, Adele, Bon Jovi, U2, Madonna, isto para citar alguns poucos nomes do passado e do presente, sempre de uma interminável lista.
Ao ouvir cada um desses valiosos nomes, vamos nos envolvendo e nos apaixonando por algo maior que a própria palavra, algo que nos soma e multiplica, porque a música é um veículo usado para expressar sentimentos. A combinação de ritmo, harmonia e melodia é o que promove a viagem interior, a interação com algo que literalmente não conseguimos traduzir, pois mesmo que não saibamos falar as palavras, porque está em outra língua, a sentimos de maneira intensa, nos identificamos com ela e acabamos por criar a empatia e a partir daí fazemos a nossa própria tradução.
Da mesma forma que a letra de Ne me quitte pas me encanta e como já falei, emociona, mesmo que esteja em uma língua diferente da minha, essa ligação a princípio sem uma explicação plausível, é algo que acontece com boa parte da humanidade, algo que vai além da tradução, um “milagre” que só a comunicação através da cultura é capaz de promover, seja na música, nas artes plásticas e cênicas, na dança e em todas as outras. Como bem disse o professor e escritor H. R. Rookmaaker, “A arte não precisa de justificativa.” Pura verdade, a arte simplesmente ‘é’!
Incrível pensar que na Grécia antiga, a arte e a educação estavam unidas, eram o ponto de partida para se conhecer o tudo e o todo. Passados tantos séculos retrocedemos, pois não só, não a entendemos, como a preconceitualizamos sem lhe dar direito de defesa.
O modelo grego de educação somava todas as dimensões alcançadas pelo homem: o conhecimento, a arte e a beleza, a moral e a política. Hoje, lamentavelmente a educação tem apenas olhos para o conhecimento, dando total prioridade ao que ele deverá ser dentro em pouco: mão de obra para o mercado de trabalho, tornando-o nesse modelo de “educação” um puro e simples produto para a sociedade, algo muito próximo do que vimos nos filmes “Blade Runner” de 1982 e “Eu, Robô” de 2004.
A arte é um veículo condutor de ideias, ela vai ao encontro do destinatário e busca ser compreensível a este, em sua língua, tendo por objetivo se fazer entender pela sua multiplicidade, visando a sua comunicabilidade universal, o seu amplo entendimento, algo que consegue promover através da sua natureza social e política. Muitas vezes sem que saibamos a tradução entendemos através do que a arte em geral nos passa, a dor e a alegria, o amor, a verdade e o medo, a história real e ficção sonhadora.
A arte, em especial através da música, se alto traduz, se faz presente no mundo o tornando melhor, abraçando a todos, unindo povos em locais onde muitas vezes as mãos dos reacionários promoveram a destruição.
A arte precisa de nós, dos nossos sentidos para fazer a passagem para o nosso corpo e a alma, e assim poder continuar viva e pulsando. Protestando contra a sua eterna inquisição. Indiscutivelmente ela é ainda uma das melhores saídas para se exercitar a sensibilidade, e é talvez por isso que ela grite ininterruptamente: não me abandone!

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

 

Untitled Document