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Neymar

Matéria publicada em 8 de agosto de 2017, 07:10 horas

 


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Hoje em dia me contento com discretas checadas no placar da rodada, entremeadas por arroubos de entusiasmo quando meu time, por algum descuido dos Deuses do esporte, chega com chances de título às rodadas derradeiras de algum campeonato.

Já vai um longo tempo desde que deixei de gastar meu fígado por aqueles onze homens iletrados de uniformes listrados.

Iletrados, nem todos, havia um médico no meio deles, o Dr. Sócrates. Corriam os animados anos oitenta e eu ainda criança me lembro da ligação quase familiar entre aquele jogador magricela e o meu time do coração. Sócrates e Corintians, pra mim, eram quase sinônimos. Alguns anos depois ele foi jogar num clube italiano, inaugurando uma tendência que se tornaria irreversível nas décadas seguintes.

Acho que a mesma ligação afetiva os flamenguistas devem ter nutrido por Zico, os santistas por Pelé e os colorados por Falcão. Outros tempos aqueles.

Uma época em que o jogador era revelado, jogava e pendurava as chuteiras num mesmo clube. Fácil memorizar a escalação do time e até do banco de reservas.

As coisas mudaram: o futebol se profissionalizou e depois se transformou numa indústria bilionária. Compreensível que os jogadores troquem de clube ao sabor das ofertas. Se um profissional pode mudar para uma empresa que lhe oferece um pacote de benefícios melhor, porque um atleta não poderia fazê-lo?

Se num clube eu ganho “apenas” (enfase no grifo irônico) 100 milhões de euros por ano, porque não trocar por um que me pague 200?

Impossível não traçar um paralelo aqui com Neymar, e sua midiática transferência do Barcelona para o Paris sãint Germain, numa operação de 222 milhões de euros (quase 1 bilhão de pixulecos tupiniquins), a mais cara transação futebolística da história desse esporte.

Fico me questionando o que teria movido o maior craque brasileiro trocar o mais bem sucedido clube de futebol do mundo, um verdadeiro armazém de gênios da bola. Mais dinheiro? Mais liberdade para jogar? Possibilidade de brigar pelo posto de maior jogador do mundo, saindo das sombras do eterno camisa 10 catalão, Leonardo Messi?

Não saberemos jamais. Não estamos dentro da cabeça dele (ou do pai dele), e cabeça de craque é sempre difícil de entender mesmo. E é pouco provável que venham a abrir as entranhas de suas motivações para o mundo.

São novos tempos os que vivemos, fluídos, acelerados, quase líquidos, como bem definiu Zygmunt Bauman. Tudo que é sólido se dissipa no ar, só a impermanência permanece.

Nada mais é. Tudo está. Agora não está mais. O Neymar do Santos virou do Barcelona que virou do PSG. Os torcedores que o chamavam de gênio agora o chamam de mercenário, enquanto os parisienses em êxtase fazem promessa de amor eterno.

Que seja eterno enquanto dure.

Os Sócrates morreram, o filósofo de cicuta, o jogador de cirrose.

Que pelo menos a velha e inimitável arte do futebol brasileiro permaneça viva nos gramados do mundo, seja com que camisa for.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Quem é esse tal de Leonardo Messi? Primo do Márcio Biancucchi?

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