ÔĽŅ No tempo da Central do Brasil - Di√°rio do Vale
terça-feira, 21 de agosto de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / No tempo da Central do Brasil

No tempo da Central do Brasil

Matéria publicada em 5 de junho de 2018, 07:49 horas

 


Cidades da regi√£o cresceram em torno da ferrovia

Saudade: O trem de prata com a locomotiva diesel

Essa greve dos caminhoneiros deixou este cronista com mais saudade dos trens que circulavam aqui na regi√£o, em Pinheiral at√© o leite chegava de trem, no ‚Äútrem leiteiro‚ÄĚ que passava √†s seis horas da manh√£. Durante d√©cadas a ferrovia serviu e nutriu as cidades do Vale do Para√≠ba e nunca nos deixou na m√£o, sem falar no conforto e na comodidade que era andar nos v√°rios tipos de trens que circulavam por aqui, antes que acabassem com a Estrada de Ferro Central do Brasil durante os governos militares.
Na verdade as cidades da regi√£o cresceram em torno da ferrovia, que transportava de tudo, de gado a suprimentos b√°sicos. Meu av√ī assinava o Correio da Manh√£, um dos melhores jornais que j√° existiram nesse pa√≠s – que tamb√©m foi extinto pela ditadura militar, o jornal chegava de trem, vindo do Rio de Janeiro. Nas minhas f√©rias a fam√≠lia pegava o ‚Äúexpressinho‚ÄĚ na imponente esta√ß√£o Don Pedro II, cujo pr√©dio continua l√° no Rio de Janeiro, ao lado do Comando Militar do Leste. √Č uma constru√ß√£o imponente, que, guardadas as devidas propor√ß√Ķes, sempre me lembrou a Grand Central Station de Nova York.
Meu pai comprava as passagens e embarc√°vamos √†s oito horas da manh√£, nos vag√Ķes de madeira. A viagem era tranquila e muito bonita. Uma locomotiva el√©trica Westinghouse, apelidada de ‚ÄúEscandalosa‚ÄĚ, toda pintada de azul, puxava o trem at√© Barra do Pira√≠. Pra mim, quando crian√ßa, o momento mais emocionante era quando a composi√ß√£o passava pelo chamado ‚Äút√ļnel 12‚ÄĚ, no alto da serra, que tinha mais de um quil√īmetro de comprimento.
Na Barra, como diz√≠amos, tinha uma parada de uns vinte minutos para troca de locomotivas. A el√©trica ia para as enormes oficinas e engatavam uma pequena m√°quina diesel el√©trica, feita no Canad√°, que por isso os maquinistas chamavam de ‚Äúcanadense‚ÄĚ. Todas as locomotivas da Central tinham apelidos, uma delas se chamava ‚ÄúBiriba‚ÄĚ em homenagem a um cachorro mascote do Botafogo Futebol Clube.
Aproveit√°vamos a parada para comprar queijo e outros produtos que eram vendidos na plataforma da esta√ß√£o. Assim que a canadense engatava retom√°vamos a viagem, chegando a Pinheiral por volta das onze horas da manh√£. Tenho boas memorias das minhas f√©rias em Pinheiral, depois daquela viagem de trem. A volta era no mesmo trem, que passava √†s 18 horas e chegava ao Rio √†s 21 horas. Uma hora a mais de viagem do que nos √īnibus, mas o conforto era incompar√°vel. Na d√©cada de 1970 os vag√Ķes de madeira foram aposentados e passamos a viajar no chamado ‚Äútrem de a√ßo‚ÄĚ, depois ‚Äútrem de prata‚ÄĚ. Que usava uns vag√Ķes prateados fabricados pela empresa americana Budd.
Teve também a Litorina, uma automotriz de um carro só, que transportava executivos entre Rio e São Paulo. Era um trem mais luxuoso e só me lembro de ter viajado nele uma vez. Outro trem que deixou saudade foi o elétrico, que circulava entre Barra do Piraí e Resende. O percurso entre Pinheiral e Volta Redonda era feito em pouco mais de 15 minutos, e a passagem custava em torno de um real. Hoje, quatro décadas depois, os moradores de Pinheiral levam 45 minutos para chegar a Volta Redonda, pulando por cima de 33 quebra molas e a passagem custa mais de cinco reais.
O trem el√©trico deixou de circular na d√©cada de 1980, os fios da eletrifica√ß√£o foram retirados e as subesta√ß√Ķes de for√ßa demolidas a marretadas. O Brasil tinha optado pelo modelo rodovi√°rio, onde tudo √© transportado em carretas a um custo muito maior. Dos 35 mil quil√īmetros de ferrovias, estamos reduzidos hoje a uns dez mil. Agora o governo vai gastar 9,5 bilh√Ķes de reais, s√≥ este ano, para subsidiar √≥leo diesel para caminhoneiros. A √ļltima not√≠cia diz que v√£o tirar esse dinheiro do SUS, dos programas sociais e da seguran√ßa p√ļblica. Ainda bem que o povo apoia os caminhoneiros e este disposto a pagar a conta da greve. Que como eu escrevi aqui, na semana passada vai ser bem salgado.
Eu, de minha parte, continuo apoiando o trem elétrico.

12 coment√°rios

  1. Poxa, que texto lindo e triste ao mesmo tempo.

    Tive a oportunidade de conhecer o Japão há menos de um mês, e lá a qualquer cidadezinha se chega de trem. Mas fazer essa comparação seria muito injustiça, infelizmente.

    A gente pode se conformar em não ter, mas já ter tido e ter sido DEMOLIDO é revoltante.

    Nosso Brasil e suas incongru√™ncias…

    • Realmente o mais decepcionante √© o pa√≠s ter tido uma malha ferrovi√°ria de dar inveja a v√°rios pa√≠ses mais desenvolvidos e por causa de pol√≠tica de estado errada optar por destruir e sucatear patrim√īnio p√ļblico.

  2. J√° fiz dois coment√°rios hoje e n√£o apareceu nada.

  3. Essa reportagem me fez lembrar do final da d√©cada de 50, quando tinha os av√≥s maternos que moravam em Rio Claro e √≠amos pra l√° de trem. Tinha tamb√©m um irm√£o que morava em Santos (SP) e √≠amos at√© a cidade de S√£o Paulo de trem e l√°, peg√°vamos o √īnibus pra ir a Santos. N√£o n√£o temos nada disso. √Č um verdadeiro RETROCESSO!

  4. Bela época. Lembro-me quando tínhamos os avós que moravam em Rio Claro e íamos pra lá de trem.
    Tinha um irm√£o que morava em Santos (SP) e √≠amos at√© S√£o Paulo de trem e l√° peg√°vamos o √īnibus pra ir a Santos. Final da d√©cada de 50. Hoje n√£o existe nada disso mais. √Č um retrocesso!

  5. Candidato a Dom Paulo I

    N√£o s√≥ montadoras de caminh√Ķes fazem press√£o pelo transporte rodovi√°rio predominante, tem as f√°bricas de pneus (quem mandou trem n√£o usar pneu) e de pe√ßas para reposi√ß√£o, mas principalmente as distribuidoras de combust√≠veis e as empreiteiras que ganham muito mais com rodovias do que com ferrovias.
    Sobre monarquia, eu tamb√©m me apresento como candidato a imperador. N√£o pode √© um “pr√≠ncipe” com fama de antip√°tico, se achar automaticamente herdeiro do trono, sem aclama√ß√£o do povo, enquanto outro descendente de Pedro II, seu primo, e que poder√° ser o Pedro III, visto como mais simp√°tico, por√©m considerado fora pela ren√ļncia de seu av√ī, h√° mais de um s√©culo, por motivo que nada tem a ver com os tempos modernos.
    Chega que isso est√° parecendo conto da carochinha.

    • Eu voto em Vc para futuro Imperador do Brasil. Mas para isso Vc tem de assinar em apoio ao projeto de sugest√£o legislativa que est√° no Senado por j√° ter recebido mais de 35 mil apoios (20 mil necess√°rios) s√≥ aguardando o relator. Tenho certeza que o apoio do futuro ……….. Imperador do Brasil Dom Paulo I …….. ter√° muito peso e considera√ß√£o dos senadores.

      S√≥ para lembrar: Dentre os 10 pa√≠ses mais desenvolvidos do mundo em v√°rias quest√Ķes, 08 s√£o monarquias. Apenas 02 rep√ļblicas na rabeira e bem ao fundo: EUA e Irlanda do Norte.

      N√£o v√° me dizer que as monarquias s√£o ruins para melhorar o transporte ferrovi√°rio no Brasil para ajudar o Calife e outros apaixonados a reviver o tempo que usou o trem.

  6. Bela e oportuna cr√īnica!…

  7. E quem diria que o nosso país já era moderno na época de D. Pedro II com a MONARQUIA quando a ferrovia era maior ou igual a dos EUA. Aí veio a REPÚBLICA e destruiu tudo e continua a destruir. Eles não conseguem fazer uma linha.

    A presidente do STF, Carm√©n L√ļcia queria colocar em pauta o parlamentarismo, mas desistiu ao ser aconselhada que n√£o era a hora adequada para uma mudan√ßa de SISTEMA DE GOVERNO de presidencialismo para parlamentarismo. De nada adianta mudar para parlamentarismo sem mudar tbm de REP√öBLICA para MONARQUIA como FORMA DE GOVERNO.

    Mudar para parlamentarismo com os deputados que temos em Bras√≠lia √© fazer chover no molhado. O primeiro ministro sempre comprar√° os parlamentares para se manter no posto. Ao contr√°rio de um monarca, no caso do Brasil, um imperador. A primeira luz acessa de descontentamento do povo, o imperador j√° destitui o governo. Isto foi feito 15 dias atr√°s na Espanha e nesta semana na Jord√Ęnia. S I M P L E S M E N T E com uma canetada se acaba com os corruptos.

    Aí vem um politiqueiro dizendo ser balela e o povinho acredita pq o povo aprende política é com os politiqueiros.

    O povo, especialista em futebol, novelas e em política, não procura aprender política com os livros sobre o assunto.

    A Vc que chegou lendo até aqui: Se não acredita em mim, que pelo menos abra um livro didático sobre o assunto de política ou estude Ciência Política. Para o bem do Brasil e futuro de seus filhos e netos, não dê ouvidos a analfabetos políticos que nesta eleição de 2018 aparecerão 99.9% deles.

  8. minha opini√£o

    Como vi na com√©dia “Todo Mundo Quase Morto” um filme sobre zumbis em Londres um personagem fala com o outro :Cad√™ seu carro? e o outro responde:Eu moro em Londres por que eu teria um carro? . Brincadeiras a parte e isso mesmo ele quis dizer em uma cidade que o transporte funciona com qualidade e que n√£o e visto pelas classes mais abastardas como uma coisa desqualificante vc segue precisa ter um carro. A escolha do sistema rodovi√°rio em detrimento do ferrovi√°rio durante o governo JK e posteriormente maximizadonos governos militares deu nisso ai.

  9. Pagador de impostos

    Me lembro vagamente de ter andado de trem algumas poucas vezes na minha inf√Ęncia. Mais recentemente, durante uns meses √† trabalho em S√£o Paulo,usei muito os servi√ßos da CPTM para me deslocar do hotel at√© o local do trabalho, num percurso de pouco mais de 30 minutos, feitos ap√≥s uma caminhada de 15 minutos, do hotel at√© a esta√ß√£o. Do trem, assistia, tranquilo e relaxado, os milhares de motoristas presos nos engarrafentos das avenidas marginais daquela cidade. Meu sonho era ter um op√ß√£o desse tipo para nossos deslocamentos para Barra Mansa e outras cidades pr√≥ximas. Ser√° que ainda veremos isso meu caro Calife ?

  10. Isso √© pura verdade o Brazil retrocedeu muitos anos em deixar sucatear as nossas ferrovias para favorecer a ind√ļstria de caminh√Ķes .. estamos pagamos o pre√ßo por ter desperdi√ßado milhares de horas os trabalhos , ferrovias e m√°quinas que foram deixadas de lado ate parar .

Untitled Document