sábado, 15 de dezembro de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Ciência – Por Jorge Calife / O bizarro coração do caranguejo

O bizarro coração do caranguejo

Matéria publicada em 22 de março de 2018, 07:30 horas

 


wp-cabeca-ciencia

No ano de 1054 os astrônomos chineses observaram o aparecimento de uma nova estrela no céu. Coisa que não acontece todo dia. Os japoneses também registraram o surgimento de uma “estrela visitante” na constelação do Touro, que fica bem na faixa do zodíaco, no meio da esfera celeste. A nova estrela não durou muito tempo e desapareceu depois de algumas semanas. Mas o registro ficou. Muitos séculos depois, em 1731, o astrônomo inglês John Bevis apontou um telescópio na direção da estrela desaparecida e observou uma estranha nuvem luminosa.
No século XIX outro astrônomo, William Parsons, examinou a estranha nuvem com um telescópio maior, de 36 polegadas. Viu uma forma esgarçada que lembrava o corpo e as pernas de um caranguejo. Surgiu assim o nome moderno, de Nebulosa do Caranguejo. Classificada como objeto estelar M-1 no catálogo do francês Messier. Como uma estrela pode aparecer, sumir e deixar uma nuvem no seu lugar? No século passado os astrônomos perceberam que se tratava de uma estrela que explodiu. E cuja matéria foi derramada no espaço formando uma nuvem de gases luminosos.
Na década de 1960 a descoberta dos pulsares, restos comprimidos de estrelas explosivas, levou a um novo interesse pelo estudo da nebulosa do caranguejo. Observações com telescópios espaciais mostraram que a estrela detonada não desapareceu completamente. Seu centro ficou lá, no centro da nuvem de gases, formando uma bola de nêutrons com 30 quilômetros de diâmetro. Que gira no espaço lançando jatos de matéria e antimatéria de seus polos.
As últimas imagens deste astro fantástico foram divulgadas na semana passada pela agência espacial Nasa.
A foto aí ao lado é o resultado de uma fusão de imagens em vários comprimentos de ondas obtidas por diferentes telescópios instalados no espaço. A parte azul e branca representa as imagens de raios X obtidas pelo observatório Chandra, lançado em 1999. A parte roxa representa a luz visível e ultravioleta captada pelo telescópio espacial Hubble. E a parte rosada são os raios infravermelhos observados pelo telescópio Spitzer.
A bolinha branca no centro da imagem representa a estrela de nêutrons ou pulsar. Ao seu redor giram gases fluorescentes eletrificados pela energia magnética do pulsar. O intenso campo eletromagnético é produzido, segundo a Nasa, pela força magnética do pulsar e sua rotação. Apesar de todos os estudos intensos, ainda não sabemos com certeza a distância entre este objeto e nosso planeta, a Terra. Medições mais recentes sugerem uma distância de 6500 anos-luz, com uma incerteza de mais ou menos 1600 anos-luz. Levando em conta que um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros, trata-se de uma incerteza muito grande.

Núcleo: O centro energético da nebulosa na foto da Nasa

Núcleo: O centro energético da nebulosa na foto da Nasa

A nuvem deixada pela explosão tem uns 13 anos-luz de diâmetro e continua se expandindo ainda hoje, mais de 900 anos depois da explosão.
Por que as estrelas explodem? Elas explodem devido ao esgotamento de seu combustível. Uma estrela é uma enorme esfera de gases incandescentes, mantida em equilíbrio por duas forças: A gravidade, que tenta comprimi-la cada vez mais, e a pressão da radiação que tenta expandi-la. A pressão da radiação é produzida pela fusão termonuclear, que transforma o gás hidrogênio em hélio no coração das estrelas.
À medida que a estrela envelhece, o hidrogênio vai se esgotando. Novas reações ocorrem criando outros elementos além do hélio. Isso aumenta a pressão da radiação e a estrela incha como um balão. No caso de uma estrela muito grande, como a do Caranguejo, ela explode, lançando suas camadas externas no espaço. Enquanto seu núcleo colapsa e forma um pulsar. São as explosões estelares que produzem elementos pesados como o carbono e o oxigênio que existem em nossos corpos. De certa forma somos todos filhos das estrelas.

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

2 comentários

  1. Muito interessante saber destas coisas, pois nos dá uma nova perspectiva sobre a vida e sobre como estamos conectados aos eventos cósmicos de formas que não suspeitamos.

  2. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    Por falar em estrelas explodindo, fico imaginando o Sol indo… para o espaço, de uma hora para outra… E nós junto…

Untitled Document