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O Brasil no acostamento

Matéria publicada em 1 de junho de 2018, 08:02 horas

 


O mundo ao longo dos séculos já conheceu milhares de greves. A primeira no Brasil ocorreu em 1858, no Rio de Janeiro. Foi a greve dos tipógrafos da então Corte. A cidade passava por problemas de profunda carestia, com falta de todo o tipo de alimento devido ao aumento de preços e ainda de aluguéis. E a paralisação prejudicou seriamente a publicação dos jornais e folhas diárias editadas no Rio de Janeiro.

A primeira greve geral do país aconteceu em 1917, foi iniciada por mulheres e durou cerca de 30 dias. Isto ocorreu décadas antes da consolidação das leis trabalhistas no país, onde cerca de 400 operários, boa parte de mulheres de uma fábrica têxtil em São Paulo resolveram cruzar os braços. Greve que se espalhou por alguns Estados, provocando uma enorme paralisação para aquela época.

A palavra greve teve origem na Place de Grève, hoje conhecida como Place de L’Hotel-de-Ville, um famoso logradouro da cidade de Paris, local onde antigamente era repleto de areia e cascalho, espaço que facilitava o transporte das charretes que levavam as mercadorias até o cais do rio Sena. Neste local diz-se que eram executados os criminosos, onde se reuniam os trabalhadores que abandonavam o trabalho.

Não são poucas as formas de greve: branca ou de braços cruzados, tartaruga, greve de zelo, de ocupação ou greve de habitação, selvagem, de advertência, greve ativa, intermitente, greve seletiva, política, greve de solidariedade e greve geral.

A greve que mais afetou o novo país e em todos os seus 27 Estados e até fora dele, uma vez que atingiu drasticamente as exportações, foi a grave dos caminhoneiros, algo que nos marca a mais de uma semana.

Mais que dissecar essa greve com seus inúmeros porquês, quem a realmente a provocou e qual será o seu resultado prático ao final de tantos dias, creio que temos que pensar como fazer para que ela não seja algo constante e isso tem muito haver com quem nos governa. A partir daí vamos entender muitas coisas sobre as greves e um pouco mais do que diz respeito este assunto.

Portanto, na hora de escolhermos um candidato para votarmos durante as próximas eleições, temos que considerar as propostas apresentadas por cada um e isso passa, sobretudo, pelos investimentos em infraestrutura no país. Nada pode ser pensado em curto prazo, afinal o Brasil não tem data para acabar e sim para ser reconstruindo.

Um levantamento feito pela Empresa de Planejamento e Logística do governo federal revela que 65% da carga do Brasil é transportada por meio de rodovias e somente 15% circulam através de ferrovias. Então, não é de se surpreender que uma categoria como a dos caminhoneiros, tenha tamanha influência e mexa significativamente na estrutura do país.

Ao enfatizar a construção de estradas em seu governo, o presidente Juscelino Kubitschek desde que lançou o lema “50 anos em 5”, deu total atenção as rodovias durante o seu governo e a partir daí o país abandonou de vez o desejo de se tornar ferroviário. Porque é muito mais barato construir uma estrada do que uma ferrovia. Na verdade não foi apenas JK que alimentava o desejo de construir estradas em grande número, isso era algo que passava também pela cabeça dos militares que acreditavam que esta seria eternamente a melhor opção.

Esse pensamento foi indiscutivelmente um tiro no pé e fez o Brasil entrar de cabeça na contramão do que aconteceu nos principais países desenvolvidos do mundo.

A descontinuidade dos governos só fez piorar, porque o que um faz ou outro que o sucede não da continuidade e as obras ficam paradas, esquecidas, inclusive as ferroviárias, como por exemplo, a Norte-Sul que se iniciou no governo José Sarney, em 1996, já no governo de Fernando Henrique Cardoso muito pouco havia sido feito, algo que perdura até hoje, visto que até o momento não foi totalmente concluída.

Analisando com toda a frieza, é possível entender a verdadeira razão que leva o nosso país a ser tão completamente miserável em todas as estatísticas mundiais. Em países realmente sérios o povo se une em tempos de crise em torno de soluções que ajudem a todos e não para levar vantagens, assim como aumentar os combustíveis e os alimentos, tentando ganhar mais um por fora. Aqui o que vale é o salve-se quem puder.

Portanto, a única saída para que o nosso país sofra menos e não viva este caos do qual estamos sendo vítimas por longo tempo, até porque quem vai pagar essa conta enorme seremos nós, será o de investir na diversificação da infraestrutura, sobretudo nas ferrovias. O Brasil pouco ou nada investe nesse setor, muito diferente da China e Índia, países cortados por trilhos.

Enquanto isso ficamos a mercê dos acordos e desacordados, eternamente estacionados no acostamento, sem combustível, alimento, remédios e respeito.


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Um comentário

  1. Em 1876 D. Pedro II mandou desenhar a linha ferroviária do Brasil. Na época a malha era maior ou igual a dos EUA. Diante disso podemos afirmar que o Brasil investia sim em ferrovias. A diferença é que era no Brasil Império e não no Brasil república que não consegue construir uma linha, e nem metrô.

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