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O comercial do míssil nuclear

Matéria publicada em 21 de abril de 2017, 07:00 horas

 


Northrop Grumman Corporation mostra o seu produto em vídeo na internet; filme começa com um general falando da importância do Minuteman

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Todo mundo já viu comercial de cerveja, carro e operadora de celular. Comercial de míssil termonuclear é algo mais raro, que não passa na TV aberta. Mas pode ser visto na internet. O comercial do míssil Minuteman é a resposta americana as ameaças do líder coreano Kim Jong-un e foi postado pela empresa Northrop Grumman, fabricante, junto com a Boeing, da arma mais poderosa do arsenal do Tio Sam. O líder norte-coreano deve morrer de inveja desse filme de cinco minutos. Afinal, o míssil dele explodiu na plataforma, semana passada. Enquanto o Minuteman americano já foi testado várias vezes com eficiência de 100%. É a Ferrari do apocalipse atômico.

O filme começa com um general falando da importância do Minuteman para desencorajar um ataque contra os Estados Unidos. É a teoria do equilíbrio pelo terror, onde um inimigo potencial não lança um ataque sabendo que o contra-ataque americano será arrasador. Funcionou no tempo da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. O que resta saber é se a garantia de destruição total será suficiente para deter líderes agressivos como o ditador da Coréia do Norte.

Depois da explicação do general o filme mostra a casamata de lançamento do Minuteman. Onde dois homens vigiam os mísseis esperando uma ordem do presidente para lançá-los. Se a ordem chegar eles conferem se o código de lançamento está correto. O código é um conjunto de letras que mudam periodicamente. As letras são soletradas com base no código internacional usado pelos pilotos de avião. Assim JPPNKF é soletrado como Juliet, Papa, Papa, Novembro, Kilo, Foxtrot. Autenticado o código os homens acionam simultaneamente as duas chaves de segurança que ativam o gigante de 35 toneladas e 18 metros de comprimento.

Carregado e pronto para disparo o Minuteman fica armazenado em silos de concreto no subsolo, cobertos por uma pesada porta blindada. Quando os dois homens acionam as chaves de lançamento a tampa é lançada para o lado e os motores do míssil são acionados.

A partir daí todo o processo é automático e o homem não pode interferir mais. Ao contrário do que mostram os filmes de Hollywood, um Minuteman não pode ser desarmado ou destruído depois de lançado, ele sobe em trajetória balística em direção a um alvo que pode ficar do outro lado do mundo.

Depois do lançamento tudo acontece muito rápido. Em 19 segundos o Minuteman atinge a velocidade supersônica, 39 segundos depois ele já está voando a Mach 3, três vezes a velocidade do som. E continua subindo e acelerando até alcançar uma altura de duzentos quilômetros, saindo da atmosfera da Terra e entrando no espaço sideral. Os dois estágios de aceleração são descartados assim como o cone de proteção, que envolveu a ogiva durante a subida.

Guiado por um computador inercial o míssil se posiciona no espaço, mirando em seu alvo ainda a centenas de quilômetros de distância. Um computador de bordo Autonetics A-6280 guiado por sistema inercial faz o trabalho, disparando retrofoguetes azuis em torno da cabeça de combate. Encontrado o alvo, que pode ser uma cidade, uma base aérea ou um centro de lançamento de mísseis inimigos o Minuteman ejeta sua ogiva, que contém uma bomba termonuclear de 170 kilotons – só para comparação a bomba que destruiu Hiroshima tinha só 16 kilotons. A ogiva parece um cone de cerâmica e despenca do espaço até atingir o alvo e se transformar em uma imensa bola de fogo.

O comercial termina aí, e não mostra o que acontece com as pessoas na área do alvo. Em Hiroshima, a bomba de 16 kilotons matou 80 mil pessoas só no primeiro dia depois da detonação. Não é difícil imaginar o que a ogiva de 170 kilotons do Minuteman faria. Infelizmente a humanidade parece que já se esqueceu dos horrores de Hiroshima.

O comercial do Minuteman está no YouTube em (https://www.youtube.com/watch?v=Ygdv1aQnNRY).

Mortal: O Minuteman acelera para o espaço

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JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Tempos estranhos estes em que vivemos, mas nem se comparam aos tempos da ameaça que era a União Soviética. Paradoxalmente, as armas nucleares são as fiadores de uma paz instável entre as grandes potências do planeta.

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