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O legado da Cassini

Matéria publicada em 5 de outubro de 2017, 07:00 horas

 


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A sonda espacial Cassini foi destruída ao mergulhar na atmosfera de Saturno. Mas a missão não terminou. A nave deixou um acervo de fotos que serão estudadas revelando novas descobertas durante os próximos anos. Um exemplo é esta foto, uma das últimas que a nave robô enviou das luas de Saturno. Mostra a lua gelada Encelado em sua fase crescente, iluminada pela luz pálida vinda do planeta gigante. Um dos motivos da destruição da Cassini foi evitar que este mundo de gelo fosse contaminado por micróbios trazidos da Terra.

Durante os 13 anos em que orbitou Saturno, a Cassini produziu muitas descobertas sobre as dezenas de luas que orbitam o planeta dos anéis. Uma delas foram os jatos de vapor de água que esguicham do polo sul de Encelado, em uma região de fendas conhecida como “listras do tigre”. Esses gêiseres indicam a existência de um mar de água líquida sob a calota de gelo que forma a superfície desta lua. A água seria mantida no estado líquido por atividade vulcânica e pelas marés gravitacionais provocadas por Saturno. E onde existe água pode existir algum tipo de vida.

Encelado tem um hemisfério norte cheio de crateras, provocadas pela queda de meteoros. Mas seu hemisfério sul é surpreendentemente liso, indicando que o gelo ali foi derretido e congelado de novo em uma época relativamente recente. Outra descoberta recente é de que Encelado encontra-se tombada de lado, em um ângulo de 55 graus. Onde era seu equador, há milhões de anos, agora são os polos. O que sugere que esta bola de gelo, com 504 quilômetros de diâmetro, pode ter sido atingida por um grande asteroide, cujo impacto deslocou seu eixo de rotação.

Impactos cósmicos são comuns em nosso sistema solar. Um dos maiores planetas, Urano, também gira tombado de lado devido a alguma pancada violenta que recebeu em tempos ancestrais. Em um de seus romances o escritor americano de ficção científica Lary Niven imaginou o tombamento de Urano como resultado do impacto de uma nave extraterrestre que voava próximo da velocidade da luz. Na vida real é mais provável que o deslocamento do planeta gigante tenha sido provocado pela colisão com alguma lua desgarrada ou um asteroide de grande tamanho.

As fotos da Cassini revelaram maravilhas como os mares de gases liquefeitos existentes na lua Titã. Onde existe uma atmosfera semelhante a da Terra antes do aparecimento da vida. Titã é fria demais para a existência de água líquida de modo que todas as apostas dos exobiólogos se concentram atualmente no mar de água líquida de Encelado. Há 50 anos cientistas e escritores podiam especular a vontade sobre os mistérios das luas de Saturno. Hoje, elas ainda guardam alguns mistérios, mas muitas de suas peculiaridades foram reveladas pelas fotografias da missão Cassini.

A lua Japeto, por exemplo, fascinou o escritor Arthur C. Clarke devido a suas características incomuns. Com um lado brilhante e outro escuro, que fazia a luminosidade deste pequeno satélite oscilar loucamente à medida que ele gira em torno do planeta dos anéis. No roteiro original do filme “2001”, Clarke imaginou a nave Discovery se aproximando de Saturno e observando seus anéis de cristais de amônia.

Hoje sabemos que os anéis de Saturno são feitos de água congelada, ou seja, gelo comum. E que a estranha geografia de Japeto é provocada pela matéria escura que cai de uma lua vizinha. Mas isso não torna essa região distante menos fascinante. Nossa lua, que brilha no céu da Terra, é coberta de lava escura como fuligem. E mesmo assim ilumina nossas noites com o luar. Agora imagine a intensidade do luar produzido por uma lua de gelo como Encelado. Seria muito mais brilhante.

Bela: A lua de gelo em fase crescente

Bela: A lua de gelo em fase crescente

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. A Cassini foi um dos mais bem sucedidos projetos da era espacial. Ainda lembro do meu deslumbramento ao ver as primeiras imagens da superfície de Titã fotografada pelo módulo Huygens, primeiro objeto humano a pousar em um planeta do Sistema Solar exterior. Surpreendentes também foram a descoberta dos gêiseres em Encélado e a confirmação dos lagos de metano líquido em Titã, teorizados décadas antes e confirmados por esta sonda.

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