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O mise en place na vida

Matéria publicada em 14 de julho de 2017, 07:10 horas

 


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É fundamental a execução do mise en place para a boa elaboração de qualquer receita, isso para que não precisemos ir e vir na busca de ingredientes quando do momento do preparo de um prato. Por isso, na culinária, sobretudo na profissional, essa técnica é um dos passos essenciais para o bom desempenho das funções de um cozinheiro. Mise en place é um termo francês que significa “pôr em ordem, fazer a disposição” e, nessas épocas de MasterChef e outras dezenas de concursos de aroma e sabor, é algo que está muito em moda. Assim, igualmente como na vida, esse “pôr em ordem” também no plano existencial se faz importante: dividir, organizar, ter perseverança para compreender e executar cada etapa.

Portanto, da mesma forma que a cozinha nos desperta para uma nova existência e nos abraça por dentro quando saboreamos um prato delicioso, a vida também nos reserva esses momentos de profundo prazer e amor, de descobertas, de aromas e sabores variados, nascidos no dia a dia, a cada novo encontro.

Aprendi na cozinha da vida que existem tipos de arroz que precisam ser mexidos com vigor e sem parar, já outros precisam descansar calmamente em chama branda. Para o preparo do feijão, é necessário obedecer a regras e, até mesmo para um simples ovo frito, existe um ritual a ser religiosamente seguido. Vemos com isso que o ato de cozinhar envolve imensa dedicação. É algo que requer cuidado e amor, devendo ser respeitado o tempo de cada etapa, que não envolve apenas o alho e a cebola, displicentemente.

A comida se apresenta primeiramente para nós pelos olhos, a seguir pelo olfato e, por fim, pelo paladar. O amor também nos chega pelos sentidos, assim como a comida, de que podemos gostar ou não, pela qual podemos nos apaixonar ou simplesmente cumprir o ritual e depois seguir em frente.

De maneira similar à vida, cada alimento tem seu formato, sua cor e seu sabor, serve para criar um determinado prato e nos levar ao prazer, proporcionando alegria e felicidade. Não é à toa que somos a única espécie que cozinha os alimentos.

Portanto, cozinhar é buscar o caminho do encontro, é ter o equilíbrio de saber esperar cada etapa acontecer para depois se fundir, assim como dois corpos que se amam profundamente. Mas nem sempre o prato sai perfeito ou fica exatamente da forma como idealizamos: ele pode sair do controle. Aí é a hora de procurarmos o sentimento mais nobre dentro de nós e nos prepararmos para recomeçar, para voltar ao marco zero e, com o mesmo prazer, retornar à criação, tal como o fim de uma relação, na qual, por algum tempo, nos sentimos perdidos, tristes e até derrotados, para mais à frente, munidos de forças e novas esperanças, voltarmos em busca de um novo e saboroso amor.

Espaço de amor

Cozinha é um local especial, espaço onde mora a criatividade, o sonho e a alegria. Cozinha não é lugar para sofrimento, no máximo algumas lágrimas por conta de uma cebola mais ousada. Para a cozinha, devem estar reservadas todas as glórias e desejos, assim como fazemos com aquela pessoa a quem amamos. O fogão é um altar onde devemos depositar nossas emoções e nossos sonhos, esperanças de ver alimentos se transformarem em pratos deliciosamente inesquecíveis. Cozinha é lugar de encontro, de meditação, de ganhar experiências, de nos fartarmos com os mais variados aromas, lugar de viver o gosto e o gostar.

Na cozinha, sentimo-nos aconchegados pela memória afetiva das comidas da nossa vida, quando inevitavelmente nos permitimos remeter a um Natal ou uma Páscoa, épocas em que o sabor e a alegria eram sensações abundantes. Nesse espaço, relembramos um emocionante Dia dos Pais ou ainda a alegria de nossas mães ou avós ao verem que conseguimos reproduzir com perfeição um prato tantas vezes feito por elas. Isso porque, em volta de uma mesa farta, é possível saborear a comida e o sonho, celebrar o encontro e o tempero, tudo feito com ingredientes cheios de vida.

Uma comida bem feita serve de delicioso pretexto para reunir a família, rever parentes e amigos que raramente sentam ao nosso lado. Nesse instante, o prato fica ainda mais especial e inesquecível, o encontro ganha ares de festa, de celebração pela vida em um eterno saborear de velhas memórias.

O psicoterapeuta Diego Gutierrez disse que o ato de partilhar a comida com pessoas queridas pode ter suas bases na pré-história, quando grupos tinham muito mais chances de sobrevivência e sucesso em suas caçadas do que indivíduos isolados. Se caçamos juntos, nada mais coerente do que comermos juntos. “A mesa tem uma certa mágica porque nos coloca diante do outro e, em certa medida, estar diante do outro é estar diante de nós mesmos. Se temos alguma questão mal resolvida nessa hora, somos incomodados. É mais fácil sair da mesa, mas ficar pode mudar tudo”.

O escritor Mia Couto falou que cozinhar exige um misto de curiosidade e desejo de aprender. É o mais privado e arriscado ato. No alimento, coloca-se ternura ou ódio. Na panela, verte-se tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço, e sim um modo de amar os outros.

Cozinhar é dom, longe de ser a tradução de uma fórmula matemática, de um seguir a receita ao pé da letra. É algo mágico como viver. Precisa de criatividade e amor. Torna-se um momento de festividade no instante em que as conversas e os olhares se cruzam. Quando o silêncio vem precedido de sabor e o barulho dos talheres chama para o encontro, provocando risos e sorrisos. É uma hora santa, abençoada, pois estamos na presença de pessoas importantes e especiais, uma ocasião de pura epifania.

A vida é repleta de momentos agridoces, instantes que nos levam a grandes viagens, ora a mesas fartas, ora a outras que trazem apenas pão e água. Viver é saber saborear o prato nosso de cada dia, pois, como bem disseram os Titãs: “A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída para qualquer parte”. Bom apetite.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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