ÔĽŅ O √≥cio criativo - Di√°rio do Vale
quarta-feira, 15 de agosto de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / O ócio criativo

O ócio criativo

Matéria publicada em 30 de janeiro de 2018, 07:35 horas

 


wp-coluna-contos-e-cronicas-alexandre-correa-lima
Nos anos 90 o soci√≥logo italiano Domenico de Masi lan√ßou um livro que fez muito sucesso e alguma pol√™mica, chamado o √≥cio criativo. Na realidade, desde o s√©culo 19, outros livros j√° abordaram o assunto, como o Direito a Pregui√ßa de 1880, e O Elogio ao √ďcio, de Bertrand Russel, lan√ßado em 1935.
Mas de Masi foi o que mais atraiu atenção da mídia para o tema. Segundo ele, vivemos a Revolução Pós-Industrial, com grande ganhos de produtividade causados pela tecnologia. Ele diz que no futuro o trabalho mais importante será o trabalho criativo.
O autor critica a idolatria do trabalho, o consumo e a competi√ß√£o exacerbada e diz que no futuro valorizaremos mais o tempo livre, o conv√≠vio, o amor, a leitura, o estudo e as atividades l√ļdicas.
Muita gente confunde o ócio criativo com não fazer nada, o que está muito longe de refletir o espírito do livro. Afinal de contas não fazer nada jamais será criativo, não é mesmo?
Segundo de Masi, existe um √≥cio alienante, que nos faz sentir in√ļteis e existe um √≥cio criativo, utilizado para estudar, conviver, questionar e que em √ļltima inst√Ęncia se traduz em inova√ß√£o e criatividade. Trabalhar sim, mas tamb√©m aprendendo e se divertindo. Parece meio ut√≥pico, falta tempo para tudo, como ent√£o praticar o √≥cio?
Mas estamos vivendo o dobro dos nossos avós e novas tecnologias permitem fazer as coisas de maneira muito mais produtiva.
E sua tese parece uma visão antecipada do que seria trabalhar no Google, com seus escritórios cheios de pufes coloridos e mesas de sinuca.
A verdade é que o ócio é fundamental para o processo criativo. E sabe por quê?
√Č que quando estamos preocupados, concentrados em resolver algum problema ou buscar alguma solu√ß√£o criativa, quem est√° no comando √© o nosso lado racional, objetivo, sisudo, uma esp√©cie de patr√£o, sempre nos patrulhando para que n√£o fa√ßamos besteiras.
Mas as ideias realmente inovadoras precisam de um tempo de incubação no lado mais moleque e rebelde da nossa cabeça, o subconsciente, que é uma usina de ideias poderosíssima. Mas essa usina só funciona a pleno vapor quando o lado racional não está no comando.
√Č por isso que muitas vezes temos ideias ou encontramos solu√ß√Ķes para os problemas quando n√£o estamos pensando nisso, como durante uma caminhada ou no banho, por exemplo.
A gente pensa que não está pensando no problema, mas nosso subconsciente está lá, trabalhando silenciosamente com sua paleta de cores infinitas para encontrar alguma solução criativa para o problema que temos.
Mas obviamente que o ócio sozinho não resolve. Você precisa mesclar ciclos de foco, estudo, dedicação e trabalho com ciclos de descanso e relaxamento. O lado racional é o responsável por abastecer a despensa com a maior quantidade possível de ingredientes e o lado inconsciente é o responsável por misturar esses ingredientes e chegar a um prato criativo e delicioso.
Criatividade é um processo que normalmente exige muito esforço e o ócio é necessário para libertar a imaginação das garras do concreto, do óbvio e do esperado.
Portanto, quando se trata de criatividade o ócio pode ser um grande negócio.

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

 

Untitled Document