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O ócio criativo

Matéria publicada em 30 de Janeiro de 2018, 07:35 horas

 


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Nos anos 90 o sociólogo italiano Domenico de Masi lançou um livro que fez muito sucesso e alguma polêmica, chamado o ócio criativo. Na realidade, desde o século 19, outros livros já abordaram o assunto, como o Direito a Preguiça de 1880, e O Elogio ao Ócio, de Bertrand Russel, lançado em 1935.
Mas de Masi foi o que mais atraiu atenção da mídia para o tema. Segundo ele, vivemos a Revolução Pós-Industrial, com grande ganhos de produtividade causados pela tecnologia. Ele diz que no futuro o trabalho mais importante será o trabalho criativo.
O autor critica a idolatria do trabalho, o consumo e a competição exacerbada e diz que no futuro valorizaremos mais o tempo livre, o convívio, o amor, a leitura, o estudo e as atividades lúdicas.
Muita gente confunde o ócio criativo com não fazer nada, o que está muito longe de refletir o espírito do livro. Afinal de contas não fazer nada jamais será criativo, não é mesmo?
Segundo de Masi, existe um ócio alienante, que nos faz sentir inúteis e existe um ócio criativo, utilizado para estudar, conviver, questionar e que em última instância se traduz em inovação e criatividade. Trabalhar sim, mas também aprendendo e se divertindo. Parece meio utópico, falta tempo para tudo, como então praticar o ócio?
Mas estamos vivendo o dobro dos nossos avós e novas tecnologias permitem fazer as coisas de maneira muito mais produtiva.
E sua tese parece uma visão antecipada do que seria trabalhar no Google, com seus escritórios cheios de pufes coloridos e mesas de sinuca.
A verdade é que o ócio é fundamental para o processo criativo. E sabe por quê?
É que quando estamos preocupados, concentrados em resolver algum problema ou buscar alguma solução criativa, quem está no comando é o nosso lado racional, objetivo, sisudo, uma espécie de patrão, sempre nos patrulhando para que não façamos besteiras.
Mas as ideias realmente inovadoras precisam de um tempo de incubação no lado mais moleque e rebelde da nossa cabeça, o subconsciente, que é uma usina de ideias poderosíssima. Mas essa usina só funciona a pleno vapor quando o lado racional não está no comando.
É por isso que muitas vezes temos ideias ou encontramos soluções para os problemas quando não estamos pensando nisso, como durante uma caminhada ou no banho, por exemplo.
A gente pensa que não está pensando no problema, mas nosso subconsciente está lá, trabalhando silenciosamente com sua paleta de cores infinitas para encontrar alguma solução criativa para o problema que temos.
Mas obviamente que o ócio sozinho não resolve. Você precisa mesclar ciclos de foco, estudo, dedicação e trabalho com ciclos de descanso e relaxamento. O lado racional é o responsável por abastecer a despensa com a maior quantidade possível de ingredientes e o lado inconsciente é o responsável por misturar esses ingredientes e chegar a um prato criativo e delicioso.
Criatividade é um processo que normalmente exige muito esforço e o ócio é necessário para libertar a imaginação das garras do concreto, do óbvio e do esperado.
Portanto, quando se trata de criatividade o ócio pode ser um grande negócio.

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

 

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