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O primeiro dia

Matéria publicada em 10 de janeiro de 2017, 07:05 horas

 


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Já nos dias antecedentes você sente uma estranha força te empurrando pra frente. Novos projetos, novos desafios, novas conquistas. Verdade bem posta, velhos projetos e velhos desafios, agora vestidos de branco, com cara de novos.

O primeiro dia do ano surge imponente no horizonte: aberto, convidativo, ensolarado e você sente que pode tudo, é um super herói.

Mesmo com uma dose de etanol além da recomendável circulando nas veias, você mantém a firmeza de propósitos: arrisca uma caminhada mesmo sob um sol inclemente de fritar miolos.

Desembrulha aquele livro que ganhou no amigo invisível quatro anos atrás, lê a introdução e promete que neste ano vai ler mais, muito mais, o que não será tarefa difícil, já que não leu absolutamente nada no ano que se foi.

Também jura que cuidará mais dessa carcaça maltratada que carrega sua alma involuída: até arrisca uns abdominais no chão do banheiro.

Mas tamanha energia e obstinação se assemelham aos círculos que a lagoa gera no mergulho de uma pedra: cada vez mais fracos e distantes do foco original.

O teste de fogo é a primeira segunda feira do ano. O ímpeto arrefece e é quase impossível expulsar da cabeça aquele pensamento traiçoeiro:

“Ah, o ano está apenas começando, ainda há muitos dias para tirar o atraso e cumprir as promessas do ano novo, é só hoje, amanhã eu retomo o ritmo das coisas…”.

É a primeira semente do pé de vendaval: logo você estará procrastinando metas para a próxima segunda, para depois do carnaval, para o sábado (de aleluia), para o próximo mês, para depois do aniversário… E quando se dá conta, nos escombros de outubro, o ano seguinte começa a lhe acenar maroto, como um amigo sumido que te conhece melhor do que ninguém e você finge que aquele sorriso de escárnio não é com você.

Mas logo dezembro chega de novo, e você acredita, com razão, que tudo pode ser diferente, a despeito das evidências constrangedoras do seu passado recente.

Alguns evolucionistas dizem que isso é fruto de uma tendência ancestral de poupar energia que nos move a ficar imóveis, mesmo com tanta disposição inicial de cumprir as novas velhas metas.

Psicólogos dizem que estamos em eterno conflito entre o nosso eu cognitivo (aquele que deseja aprender inglês, emagrecer, comer mais espinafre, ler livros e levar uma vida mais saudável) e aquele ser das cavernas que habita um espaço imperscrutável lá pelos rincões basais do prosencéfalo: as forças inconscientes que impactam na maior parte das decisões que tomamos.

Não, não é fácil, mas é sempre possível vencer a si mesmo, romper com velhos hábitos, sair da letargia e (aleluia!) riscar da lista de pendências aquelas metas que você vem rescrevendo há vários réveillons.

E nem precisa ser primeiro de janeiro (em várias outras culturas o primeiro dia do ano é comemorado em outra data do calendário). O primeiro de janeiro pode ser todo dia ou pode ser nunca. A decisão é sempre sua.

Mãos à obra, e feliz ano novo!

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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