segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / O que dizer de tudo isso

O que dizer de tudo isso

Matéria publicada em 24 de novembro de 2017, 09:05 horas

 


wp-coluna-cultura-geral-artur-rodrigues

Escrever é algo que me toma mais que as mãos, vai além dos meus sentidos, toma por inteiro meu corpo e até a alma.

Este é meu ofício de décadas, muitas. Uma paixão que virou profissão, mas que às vezes me coloca em cheque, assim como agora ao me deparar com uma folha em branco esperando as letras que irão se depositar uma a uma em seu espaço. Mas, nem sempre a ideia, a inspiração vem por inteiro. Muitas vezes ela chega pequena, ínfima, fragmentada, forçando-me a adivinhar o que devo escrever.

As ideias muitas das vezes não se apresentam com a devida clareza, de maneira arrebatadora e apaixonada. Como é bom receber aquele texto que já chega pronto, cheio de inspiração.

Hoje é um desses dias, onde a cabeça voa em busca de algo para dizer, mesmo sabendo que existem milhares e milhares de temas a serem colocados nesse espaço, perfilados para promover um debate. Posso falar de livros, música, política, sonhos, amores, filmes, relembrar fatos importantes que marcaram a história do Brasil e do mundo. Temas não faltam, nunca! O Brasil é um celeiro de coisas para se dizer, certamente que no momento atual não está muito inspirador, a política toma literalmente de assalto, juntamente com os assaltos à mão armada as manchetes dos jornais e das demais mídias.

Nunca a política foi tanto a bola da vez. Esse tema nunca se esgota porque seus protagonistas, os políticos, se fazem presentes a cada instante, mostrando suas artes e artimanhas, desfilando suas grifes seja em um avião confortavelmente sentados na primeira classe ou a bordo de um carro da Polícia Federal.

O tal branco que as vezes me acomete, talvez seja pelo excesso de coisas a dizer, dos medos e certezas que temos e, sobretudo, das expectativas. Muitos de nós inevitavelmente acabamos pensando ininterruptamente em nossos filhos que estão por aí a mercê do mundo, sujeitos a serem abduzidos pelas drogas e pelo álcool, acreditando em “bons” amigos ou ainda quando buscamos freneticamente que estudem, cresçam e se tornem homens de bem, até porque não conheço caminho mais completo que a educação para se chegar a algum lugar com segurança, pois nem sempre um berço rico ou a loteria premiada poderá garantir essa solidez.

Hoje, são muitas as mães que sonham com a filha desfilando em uma passarela ou fazendo parte do elenco de uma “Malhação” da vida. Em pensar que em um passado não tão distante, atrizes tinham carteira semelhante as das prostitutas, um registro que era obrigado a ser feito pelos artistas do palco e da música junto à Polícia Federal.

Já os homens se não forem bem sucedidos jogadores de futebol, tem nos sonhos de muitos pais a ambição de ser um artista e em muitos casos, um político bem sucedido, com vistas a serem presidentes em alguma Casa Legislativa, principalmente se o pai já é do métier, aí então que a tal hereditariedade deve se manifestar, algo quase mediúnico.

Divisão

Vivemos em um mundo maniqueísta e abjeto, onde existe uma clara e lamentável divisão de classes. Uma pirâmide que tem no seu topo aqueles que têm dinheiro e também poder. No topo muito distante da base, local onde muitos de nós nos encontramos e nos achatamos, inertes a espera dos mandos, obrigados a conviver com impostos absurdos e escorchantes.

Imagine que durante cinco meses de cada ano “vivemos” quase que exclusivamente para trabalhar para que possamos pagar os impostos, algo que compromete mais que 40% da nossa renda.

Pagar e não ver o resultado. Pagar as luzes de ruas e avenidas que teimam em se manter apagadas, por falta de lâmpadas e até de postes. A água que nunca chega a torneira, apenas a conta. O esgoto que corre pelas valas negras de bairros esquecidos, a segurança que não segura, que só chega após o crime, depois que o corpo inerte já é fato consumado, da educação que não educada os mais de 13 milhões de analfabetos espalhados por todos os Estados, da saúde que não cura porque não há hospitais, médicos, leitos e remédios. Isto porque em mais de 80% dos hospitais brasileiros faltam médicos e naqueles onde existem leitos vazios é porque estão desativados já que não contam com equipamentos básicos para um pronto atendimento.

Estamos mergulhados na lama podre de uma crise ética sem precedentes. O caos social em que vive o Brasil tem a corrupção e o desvio de dinheiro público como principal responsável. Uma luta nos três poderes, dezenas, centenas de caciques querendo dar suas ordens, tentando a todo custo mostrar suas pinturas de guerra, ostentando poder. Uma anomia social, uma nação sem regras e sem ética sempre tutelada pelo caos ou por aqueles que não sabem como acabar com ele.

É por essa razão e tantas outras, que muitas vezes a inspiração passa ao largo, não me permite falar de trivialidades, assim “como ter uma casa no campo, onde eu possa compor muitos rocks rurais, e tenha somente a certeza, dos amigos do peito e nada mais”… como bem disse Zé Rodrix.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document