quarta-feira, 18 de julho de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / O submarino da morte

O submarino da morte

Matéria publicada em 8 de maio de 2018, 07:30 horas

 


Horror da vida real supera a ficção do cinema; tem notícia que a gente lê duas vezes e confere com outras fontes para ver se é mesmo verdade

Que o mundo está um horror todos já estão cansados de saber. Mesmo um jornalista experiente, com mais de 30 anos de redação, como este que vos escreve, surpreende-se com o noticiário. Tem notícia que a gente lê duas vezes. Histórias de horror que parecem ter sido inventadas por algum roteirista de filme B, mas que aconteceram realmente.
Um desses casos, onde a realidade mórbida superou o cinema, foi o assassinato da jornalista sueca Kim Wall, no ano passado. Morta e esquartejada dentro de um submarino experimental, o UC-3 Nautilus, de propriedade do inventor psicopata Peter Madsen. Kim Wall só tinha 30 anos de idade, mas já era famosa na Escandinávia, pelas reportagens que tinha feito no exterior. Que incluíam matérias na Coreia do Norte do ditador Kim Jong-un, na África e no Pacífico. Seu texto sobre os testes nucleares nas ilhas Marshall foi premiado pela imprensa alemã. Com um futuro brilhante pela frente, Kim Wall nunca iria imaginar que encontraria a morte em uma matéria banal, na pacífica Dinamarca, onde vivia.
A cidade de Copenhague era também o lar do milionário e inventor Peter Madsen. Madsen tinha construído seu próprio submarino particular e projetava um foguete suborbital, como a espaçonave Unity da Virgin Galactic. Interessada no assunto, Wall marcou uma entrevista com ele. Madsen respondeu que daria a entrevista a bordo de seu submarino, levando a repórter para um passeio subaquático pela baía de Koge, na costa dinamarquesa. Na hora marcada, sete horas da noite, ela embarcou no UC-3 Nautilus e nunca mais foi vista com vida.
O submarino apareceu encalhado perto de um farol, e seu proprietário foi resgatado pela polícia marítima. Ele disse que tinha deixado a repórter em uma praia próxima, mas ela não voltou para casa. Quando os policiais entraram no submarino encontraram os compartimentos sujos de sangue e uma escova com cabelos ruivos. Que o exame de DNA comprovou que era da jornalista desaparecida. Peter Madsen foi preso imediatamente e a polícia iniciou buscas para descobrir o que tinha acontecido com a talentosa Kim Wall.
Dois dias depois um pescador fez uma descoberta macabra. Ele encontrou um torso feminino boiando perto da costa. Um corpo de mulher sem a cabeça, os braços e as pernas. Na cadeia o suspeito mudou sua versão. Disse que a repórter tinha morrido quando uma escotilha do submarino batera na cabeça dela. E que apavorado ele tentara ocultar o cadáver. Mergulhadores da marinha dinamarquesa fizeram uma busca minuciosa no fundo da baía de Koge e encontraram o que faltava. Os braços, as pernas e a cabeça da jornalista. Tudo devidamente identificado por exames de DNA. Uma busca na casa de Madsen revelou que ele gostava de ver filmes de terror onde mulheres eram assassinadas. E assistia vídeos de sexo onde um dos parceiros era asfixiado. Na semana passada o inventor foi julgado e condenado a prisão perpétua. Ficou o submarino, como uma relíquia sinistra, que as pessoas apontam e dizem: Foi ali que a jornalista foi trucidada.
Para a minha geração os submarinos evocavam fantasias e aventuras maravilhosas. Crescemos vendo filmes como “Viagem ao Fundo do Mar” e “Vinte Mil Léguas Submarinas”. E ouvindo a alegre canção dos Beatles “Yellow Submarine”. A modernidade matou até essas fantasias. Um mês depois da morte de Kim Wall o submarino argentino Ara San Juan afundou no Atlântico Sul, matando os 44 tripulantes. E o sonho da minha infância virou pesadelo.
Kim Wall, coitada, deve ter sido vítima dessas fantasias de um tempo que já passou. Ela embarcou naquele submarino achando que ia viver uma aventura digna de um filme da “Viagem ao Fundo do Mar”. E encontrou “O Massacre da Serra Elétrica”.

Kim Wall: Morreu dentro do Nautilus

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

3 comentários

  1. Até na Dinamarca existe prisão perpétua. Se fosse no Brasil, provavelmente o assassino teria sido libertado já na audiência de custódia e responderia em liberdade, seria julgado daqui a uns dois anos em primeira instância, ainda em liberdade, em mais uns cinco anos seu primeiro recurso seria analisado, com ele ainda em liberdade, aí mais uns 15 anos de recursos no STJ e no STF, até que uma destas cortes superiores decidisse que ele deveria ser absolvido ou apenas punido com prisão domiciliar por alguns meses. Mas a onda de violência que o assola o país é devido à desigualdade, o criminoso é uma vítima e a culpa é da sociedade, imagine só!

  2. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    O mundo sempre foi um lugar complicado, mais até do que hoje… Justiça é algo muito recente na história humana, e polícia ainda mais. Matava-se pelos caminhos e veredas, de emboscada, e ficava por isso mesmo, a não ser que algum parente assumisse a “vendetta”… Guerras eram uma constante, dificilmente havia algum povo ou tribo em paz, mesmo que relativa. As doenças, mesmo as que hoje são tachadas de bobas, provocavam grandes devastações. A fome era uma constante, pois só se comia se a terra oferecesse…

    O mundo é bem menos hoje pior do que jamais foi um dia, pode crer…

Untitled Document