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O teatro amador no interior do Rio na primeira metade do século XX

Matéria publicada em 3 de janeiro de 2018, 07:20 horas

 


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No in√≠cio de dezembro, ap√≥s dois anos de pesquisa nos acervos e nas entrevistas com artistas angrenses, fiz a defesa da disserta√ß√£o de mestrado intitulada “Teatro Amador em Angra dos Reis – o Gr√™mio Dram√°tico e Beneficente Quaresma J√ļnior (1930-1953)”. E, agora, aproveito o espa√ßo dessa coluna para compartilhar com voc√™s essa hist√≥ria que ficou escondida entre mem√≥rias e documentos.

A banca foi composta pelos Doutores em Teatro Angela de Castro Reis (orientadora/a direita da foto), Ana Maria Bulh√Ķes de Carvalho e Narciso Telles. A defesa foi feita atrav√©s de v√≠deo confer√™ncia, pois o professor Narciso est√° na Espanha fazendo o P√≥s-Doutorado

A banca foi composta pelos Doutores em Teatro Angela de Castro Reis (orientadora/a direita da foto), Ana Maria Bulh√Ķes de Carvalho e Narciso Telles. A defesa foi feita atrav√©s de v√≠deo confer√™ncia, pois o professor Narciso est√° na Espanha fazendo o P√≥s-Doutorado

Para chegar ao grupo analisado foi preciso construir uma linha do tempo do teatro produzido na ent√£o capital federal, o Rio de Janeiro, e como esse teatro adentrava junto das circula√ß√Ķes para as cidades do interior do estado. Durante o final do s√©culo XIX e in√≠cio do s√©culo XX o Rio de Janeiro presenciou o surgimento de companhias encabe√ßadas por nomes de destaque no cen√°rio teatral que promoviam um movimento estreito e fechado que n√£o dava margem para os “novatos” ou para os aventureiros apaixonados pelas artes c√™nicas, que ora n√£o tendo condi√ß√Ķes de ocuparem os grandes edif√≠cios, ora n√£o tendo interesse em se profissionalizarem, passaram a trilhar um percurso paralelo ao teatro profissional, juntando-se em grupos, associa√ß√Ķes e gr√™mios art√≠sticos, e construindo seus pr√≥prios equipamentos culturais (muitas vezes em garagens ou sal√£o de edif√≠cios) e formando grupos de Teatro Amador.

Indo de encontro a primeira defini√ß√£o estipulada pelos profissionais e cr√≠ticos de teatro da √©poca sobre esse teatro amador, que oficialmente seria aquele que cultiva qualquer arte por prazer e n√£o por of√≠cio, encontramos o termo pejorativo ‚Äúteatrinho‚ÄĚ, usado para denegrir e diminuir a import√Ęncia, designando aos n√ļcleos – compostos muitas vezes por oper√°rios, homens e mulheres de fam√≠lias tradicionais e outros cidad√£os dos mais diversos segmentos sociais – nenhuma qualidade art√≠stica, nem comprometimento e responsabilidade com a atividade c√™nica.

Esses grupos levavam teatro a um p√ļblico muitas vezes afastado dos grandes centros, inserindo espectadores nas discuss√Ķes e questionamentos levantados nos palcos daquele momento. Essa circula√ß√£o pelo interior do Estado, ap√≥s temporadas na capital, foi despertando nas cidades interioranas o interesse pelo fazer teatral. Esse processo de interioriza√ß√£o pode ser observado atrav√©s do n√ļmero expressivo de n√ļcleos dram√°ticos formados, em sua maioria, por moradores locais que visando promover cultura e reformular o contexto s√≥cio-cultural de cidades como Tr√™s Rios, Volta Redonda, Valen√ßa, Mendes e Angra dos Reis, come√ßam a fundar seus pr√≥prios grupos de teatro.

Em 1937 na cidade de Três Rios, surgiu, com o intuito de arrecadar recursos financeiros para as entidades beneficentes, o Grupo de Amadores Teatrais Viriato Corrêa (GATVC). Formado desde sua origem por pessoas da comunidade, o grupo de amadores trirriense pode ser considerado o mais antigo do Brasil ainda em atividade.

GATVC: Grupo de amadores trirriense pode ser considerado o mais antigo do Brasil ainda em atividade

GATVC: Grupo de amadores trirriense pode ser considerado o mais antigo do Brasil ainda em atividade

No mesmo per√≠odo na cidade Engenheiro Paulo de Frontin surgem os grupos: Grupo Dram√°tico “Apol√īnia Pinto” fundado com finalidade filantr√≥pica, e Grupo “Adrianino” que visava o entretenimento dos funcion√°rios da F√°brica de Fogos de Artif√≠cio Adrianino.

Em Valen√ßa surge em 15 de novembro de 1945 o Gr√™mio Dram√°tico Jos√© Guimar√£es, que al√©m de realizar espet√°culos para os valencianos, tinha a finalidade de arrecadar fundos para as obras da Irmandade de Nossa Senhora da Gl√≥ria, que sedia desde 1920, com essa finalidade, o espa√ßo do Pavilh√£o Leoni, localizado no centro da cidade, para as apresenta√ß√Ķes de grupos amadores e eventos musicais.

No mesmo ano de funda√ß√£o do “Jos√© Guimar√£es”, surge em Volta Redonda, a partir do desejo de dois oper√°rios em possibilitar o lazer dos funcion√°rios da recente ind√ļstria sider√ļrgica instalada na cidade, o Gr√™mio Art√≠stico e Cultural Edmundo de Macedo Soares e Silva (Gacemss). Nome escolhido para homenagear o presidente da Companhia Sider√ļrgica Nacional (CSN).

Gacemss: Nome foi escolhido para homenagear o presidente da Companhia Sider√ļrgica Nacional

Gacemss: Nome foi escolhido para homenagear o presidente da Companhia Sider√ļrgica Nacional

Com a construção do ramal férreo que ligava Volta Redonda a São Paulo, Angra dos Reis, que vivia do setor industrial e do escoamento dos minérios pelo seu porto, teve uma baixa significante no comércio local, refletindo diretamente no setor cultural, que deixou de atrair e receber companhias que vinham fazer temporadas no município.

A cena teatral de Angra só foi modificada com a chegada do diretor e ator carioca Theóphilo Massad nos anos 30, e pelo seu desejo em manter viva as experiências e aprendizados do tempo em que esteve atuando na capital e na Escola Dramática do Rio de Janeiro. Massad movimenta o setor cultural e possibilita a sociedade angrense voltar a desfrutar de um espetáculo teatral composto por artistas da cidade que acabam formando um grupo intitulado Grêmio Dramático João Caetano.

Os integrantes desse grupo passaram a se reunir em uma sala da principal igreja da cidade, o Convento do Carmo, que recebeu o nome de Teatrinho do Carmo. Em 1940, o espa√ßo j√° n√£o comportava, tanto estruturalmente, quanto conceitualmente, os desejos dos integrantes que visavam ampliar o repert√≥rio e n√£o acatar a censura por parte da igreja que passou a fazer exig√™ncias em rela√ß√£o ao conte√ļdo e a presen√ßa de mo√ßas no elenco. Assim saindo do espa√ßo religioso ocupam o antigo pr√©dio onde funcionou em no s√©culo XIX o Teatro Angrense, e fundam o Cine-Teatro Odeon, passando a partir de 27 de abril de 1941 a se chamar Gr√™mio Dram√°tico e Beneficente Quaresma J√ļnior.

Artistas do Gr√™mio Dram√°tico Quaresma J√ļnior com o grande ator Oscarito

Artistas do Gr√™mio Dram√°tico Quaresma J√ļnior com o grande ator Oscarito

Essa descoberta inconsciente dos amadores junto de Massad sobre a arte de atuar serviu para concretizar a base hist√≥rica e prim√°ria do teatro angrense, que repercute at√© as novas gera√ß√Ķes de artistas. Pois, por se tratar de uma forma√ß√£o art√≠stica pautada na pr√°tica e no aprendizado di√°rio, onde o ensinamento √© transmitido atrav√©s das viv√™ncias e n√£o de uma sistematiza√ß√£o escolar, fez com que todo o conte√ļdo ofertado pelo diretor c√™nico ganhasse novos desdobramentos e seguisse para as novas gera√ß√Ķes sem uma identifica√ß√£o de sua origem.

A d√©cada de 40 promoveu uma verdadeira revolu√ß√£o das artes no interior do Estado do Rio de Janeiro, fazendo efervescer em cidades distintas, diversos gr√™mios amadores que al√©m de estabelecerem processos pr√≥prios de aprendizado sobre o teatro e suas fun√ß√Ķes c√™nicas, visava ampliar e recontextualizar a import√Ęncia desse outro teatro, articulado e independente, que servia tamb√©m para unir a comunidade em torno de prop√≥sitos. Esses n√ļcleos amadores se tornam verdadeiras escolas teatrais que fazem as artes c√™nicas se perpetuarem longe dos grandes centros.

 

 

 

JOÃO VITOR MONTEIRO NOVAES  | joao.vitor@diariodovale.com.br

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