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Observatório LIGO detecta colisão de estrelas de nêutrons

Matéria publicada em 19 de outubro de 2017, 07:05 horas

 


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Na semana passada a equipe de astrofísicos do Observatório LIGO, de ondas gravitacionais, tinha prometido o anúncio de uma grande descoberta para o dia 16 de outubro. Foi a construção deste observatório que deu o prêmio Nobel de Física deste ano para os cientistas Kip Thorne, Barry Barish e Rainer Weiss. Eles comprovaram uma previsão da teoria da relatividade de Einstein ao detectar as ondas gravitacionais provocadas pela colisão de dois buracos negros em setembro de 2015. Agora, o LIGO permitiu observar a colisão de duas estrelas de nêutrons, dois astros feitos de matéria atômica condensada, que sacudiram o tecido do espaço tempo ao se chocarem na galáxia NGC 4993, no céu do hemisfério sul, a 130 milhões de anos-luz da Terra.

Detectando a ocorrência do evento a equipe das ondas gravitacionais informou aos outros observatórios. E os astrônomos do Observatório de Las Campanas, no Chile, conseguiram fotografar o clarão de luz visível provocado pela catástrofe cósmica. A astronomia moderna funciona assim, captando as mensagens que os astros nos enviam através de “janelas” diferentes. Enquanto nossos olhos só podem observar o universo na luz visível, os telescópios modernos enxergam o céu com olhos de raios X, micro-ondas, infravermelho, ultravioleta e agora através das ondas gravitacionais.

Embora a colisão de estrelas tenha acontecido a 130 milhões de anos, as radiações produzidas por este evento só chegaram a Terra no dia 17 de agosto passado. Primeiro a perturbação atingiu os detectores de ondas de gravidade, o LIGO, situado no estado de Washington, e o Virgo, perto de Pisa, na Itália. O sinal durou 100 segundos, um tempo muito maior do que as frações de segundos das perturbações geradas por uma colisão de buracos negros.

Os astrofísicos logo suspeitaram de que se tratava de um evento envolvendo estrelas de nêutrons. David Shoemaker, porta-voz da equipe LIGO, conta que as características do sinal sugeriam uma colisão de dois objetos com massas em torno de 1,1 a 1,6 vezes a massa do Sol.

Logo depois o telescópio de raios Gama Fermi, da agência espacial americana Nasa, detectou uma descarga de raios Gama que ocorreu quase ao mesmo tempo que as ondas de gravidade.

Com essas informações a equipe pediu ajuda a astrônomos do mundo inteiro para observar aquela região do céu com telescópios comuns em busca de algum sinal da catástrofe.

Nos Andes chilenos os astrônomos do Observatório de Las Campanas, apontaram o telescópio Swope para a região da galáxia NGC 4993 e viram um clarão azul branco. “Foi a primeira vez que observamos os destroços brilhantes de uma fusão de estrelas de nêutrons”, disse o porta-voz da equipe.

A colisão desse tipo de estrelas é responsável pela existência de elementos pesados no universo. Se o leitor tem um anel ou aliança de ouro fique sabendo que esta joia não existiria sem as colisões de astros superdensos. Elas comprimem a matéria criando elementos como ouro e platina e muitos daqueles metais raros usados nos circuitos dos telefones celulares.

Segundo o cientista Edo Berger, do Centro Harvard Smithsonian de Astrofísica, a colisão observada em agosto deve ter produzido uma quantidade de ouro equivalente a 10 vezes a massa do planeta Terra.

As estrelas de nêutrons e os buracos negros são o resultado da evolução de estrelas gigantes, como a conhecida Antares, na constelação do Escorpião. Quando o combustível dessas estrelas se esgota elas implodem, desabando sobre si mesmas. As maiores dão origem a um buraco negro, que pode ter uma massa equivalente a dezenas de sóis. Já as estrelas menos maciças têm seus átomos esmagados até virarem uma bola de nêutrons. Uma colher de matéria de nêutrons pesa mais do que todos os bilhões de seres humanos do planeta Terra.

Choque: Colisão produziu ouro e platina

Choque: Colisão produziu ouro e platina

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. Muito boa matéria. Calife como sempre trazendo ao público leigo as últimas novidades da astronomia. Parabéns!

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