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Olho vivo, que cavalo não desce escada

Matéria publicada em 15 de junho de 2018, 09:07 horas

 


“Olho vivo, que cavalo não desce escada”. Esta frase entre inúmeras outras, marcaram de maneira inquestionável a passagem do jornalista Ibrahim Sued, o papa do colunismo social durante mais de quarenta anos nas páginas de grandes jornais brasileiros. Falecido em outubro de 1995, deixou marcas que até hoje são copiadas, mas jamais igualadas.

Quando escrevia a sua coluna no jornal O Globo ou em programas de TV que participava, citava a frase que dá título a esta crônica, isto porque segundo ele, era hora de ficar alerta, pois algo fora da ordem estava acontecendo ou iria acontecer.

Passados 23 anos da sua morte, cavalo ainda teima em descer escadas como nunca se viu antes, e por conta disso a nossa vigilância tem que ser redobrada.

Vivemos diariamente surpresos, pois as notícias que nos chegam são capazes de nos espantar e provocar todos os tipos de reações equinas.

Como por exemplo, a liberdade dada por um ministro do Supremo Tribunal Federal ao mandante do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, morta em 2005 no Pará, isto surpreende.

Ou ainda os mais de quatro anos já passados após a tragédia que matou 242 pessoas na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde os acusados pelo incêndio ainda não foram a julgamento e surpreendentemente três pais de vítimas estão sendo processados por comentários que fizeram acerca do fato e da inércia da Justiça. Isso surpreende, olho vivo como dizia Ibrahim.

Também a catástrofe acontecida recentemente no edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, que desabou durante um terrível incêndio. Prédio onde viviam de maneira sub-humana inúmeras famílias. Uma habitação irregular como dezenas de outras na cidade paulista e que sinaliza diariamente a morte anunciada de quem ali vive.

As surpresas não param, é possível listar aqui dezenas, centenas delas, descasos de toda a ordem, todas capazes de fazer uma cavalaria inteira descer e subir escadas, assim como as da igreja da Penha, no Rio de Janeiro, com seus 382 degraus.

O que dizer da onda de crime que assola o país, nos seus quatro cantos. Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Ceará, Maranhão, Sergipe, Pará. Isto para citar apenas alguns locais, mas o crime toma literalmente de assalto o Brasil por inteiro. O poder paralelo, as facções dominam as cadeias e as ruas. São mais de 700 mil detentos vivendo em celas imundas, uma perigosa super população confinada em barris de pólvora prestes a ir pelos ares. E quantos estão aqui fora, a nos assaltar diariamente?

Temos uma polícia sem condições de enfrentar o crime, porque seus uniformes, carros e armas não são capazes de fazer frente ao poder de bandidos quase preparados para uma Terceira Guerra Mundial.

Os cavalos agora não apenas descem as escadas, eles já são capazes de pular obstáculos e a fazer piruetas à medida que o perigo avança sobre eles.

O governo tenta criar formas de neutralizar esse poder paralelo que devasta morros e asfalto. Busca através do Exército frear o medo que toma conta de todos, mas pouco ou nada consegue, os efeitos são mínimos, quase imperceptíveis e a nós resta apenas as celas de nossas casas e apartamentos, uma vez que ainda não vivemos como os cavalos de Ibrahim Sued, trancados em cocheiras e estábulos.

Vai começar a Copa do Mundo, e, não podemos diferente dos cavalos nos deixar transformar em vacas de presépio, essa história de futebol ser o ópio do povo já caiu em desuso. Na verdade o que temos que fazer é olhar com muito cuidado para o que vai acontecer no dia 7 de outubro em nosso país, momento de colocar na rua a cavalaria, na urna o nosso melhor voto e nas cadeiras da política menos preguiças, abutres, hienas e vermes.

 

 

 

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