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Os limites do saber e do crer

Matéria publicada em 13 de agosto de 2017, 07:00 horas

 


Sobre como o ceticismo precisa respeitar limites para não esbarrar no imobilismo e a fé depende do raciocínio para não virar fanatismo

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O saber científico tradicional só admite como verdadeiro aquilo que pode ser medido, observado. Esse é o princípio básico da ciência cartesiana, como define nossa aliada Wikipedia: “…consiste o método na realização de quatro tarefas básicas: verificar se existem evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada; analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas, em suas unidades de composição, fundamentais, e estudar essas coisas mais simples que aparecem; sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro; e enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento”.

O problema é que, no início do século XX, um estudante judeu resolveu perguntar: “Como se comportaria uma onda de luz se a estivéssemos acompanhando lado a lado?”. Essa pergunta era – e ainda é – impossível de responder pelos métodos empíricos, que se baseiam na observação. A resposta teve de vir de modelos matemáticos e é um dos pilares da Teoria da Relatividade. O estudante judeu, claro, era Albert Einstein.

A colaboração de Einstein com a ciência moderna vai bem além das descobertas dele, embora estas tenham remodelado nossa forma de pensar sobre o tempo, o espaço, a matéria e a energia.

A partir de Einstein, começamos a buscar formas de confirmar fenômenos que escapam aos métodos tradicionais de medida: por exemplo, o desvio da luz de uma estrela durante um eclipse mostrou que a presença de um corpo “curva” o espaço. É o efeito chamado de “lente gravitacional”. Esse método confirmou algo que antes só era real nas equações.

Coisas como o big bang (a explosão que gerou o universo) ou a evolução das espécies, que explica como existem tantas formas de vida na Terra (inclusive nós) foram teorias, antes que a ciência conseguisse confirmá-las.

Assim, o saber se formou a partir do crer. No caso da ciência, uma hipótese formulada se tornou verdadeira. Quem não se lembra do CQD, que se escrevia abaixo da demonstração de um teorema? Significa “como queríamos demonstrar”.

O afastamento das crenças

Há milhares de anos, o ser humano atribuía ao sobrenatural coisas que ele então não sabia explicar, como os fenômenos meteorológicos: muitas culturas têm deuses do trovão como o Thor dos nórdicos, outras atribuem os raios a divindades – os gregos, por exemplo, diziam que eles eram lançados por Zeus e os africanos o atribuíam a Xangô.

Hoje qualquer aluno do nono ano sabe como se formam os raios e o que provoca a repetição das estações, entre outras coisas que eram consideradas atributos divinos. A explicação religiosa para essas coisas entra no universo das lendas. Por exemplo, bombardear nuvens com sal é bem mais efetivo do que rezar para que chova, seja qual for a divindade. Neste sentido, o saber estaria afastando o crer.

O ser humano “empurra” a resposta religiosa para as coisas que a ciência não explica. Basta perguntar sobre o que acontece quando uma pessoa morre para gerar os mais diversos tipos de resposta.

As respostas religiosas vão se basear simplesmente no que quem está respondendo professa: um cristão dirá que vai para o céu se tiver aceitado Jesus; um espírita dirá que, dependendo das vidas atuais e das passadas, reencarnará depois de um período de aprendizado no mundo espiritual ou ascenderá para uma esfera mais evoluída; um ateu dirá que não acontece nada, e recentemente uma mistura de ciência e fé atribuiu uma qualidade quântica aos pensamentos de cada ser humano, abrindo a porta para o que poderia ser uma explicação científica da alma.

A ciência, contudo, ainda não tem elementos suficientes para explicar exatamente o que ocorre. Então, este é um campo onde o saber ainda não está estabelecido, o que abre espaço para o crer.

O imobilismo do saber

Se nos limitarmos a viver de acordo com o que sabemos, corremos o risco de eliminar a curiosidade de descobrir o que desconhecemos e podemos persistir em conhecimentos que talvez estejam errados.

Por exemplo, cerca de seiscentos anos atrás se acreditava que a Terra era o centro do universo, e a observação dos astros “confirmava” isso. Foi preciso que Copérnico, Galileu e Kepler lutassem muito para que essa “verdade” fosse desconstruída.

A postura visionária de cientistas como Einstein e Hawkings é uma forma de evitar que o dogmatismo científico forme “jaulas” que atrasam ou até impedem a aquisição de novos conhecimentos.

O exagero do crer

Em termos religiosos, tudo é possível. Alguém pode crer que um deus confeiteiro criou o homem a partir de chocolate e que fez nossos olhos de jujuba. Ou podemos dizer que após a morte nos transformamos em ondas de energia.

A partir daí, constroem-se teorias que aparentemente “comprovam” as crenças. Uma coisa reforça a outra e chega-se ao momento em que uma fé firme descamba para o fanatismo e faz as pessoas atacarem quem acredita de modo diferente ou não acredita em nada.

Assim, fé cega pode ser, como na música cantada por Milton Nascimento, faca amolada.

Simbólico: Na visão de Michelangelo, um deus grisalho traz o homem à existência; Darwin discorda (Reprodução internet)

Simbólico: Na visão de Michelangelo, um deus grisalho traz o homem à existência; Darwin discorda (Reprodução internet)

 

 

PAULO MOREIRA | paulomoreira@diariodovale.com.br

4 comentários

  1. >>>>>>> A MAQUINA HUMANA PENSA ;;; CHORA AMA E TEM ODIO….. A PERFEIÇAO DO CRIADOR… PORQUE ALGUEM CRIOU TODA ESTA PERFEIÇAO…. BASTA NOS CONHECERMOS A NOSSA ARVORE GENEOLOGICA NA ALIMENTAÇAO E TUDO SERA RESOLVIDO E TODOS SERES HUMANOS PASSAREMOS PARA OUTRA DIMENSAO NUM MUNDO MELHOR E MENOS COMPLICADO PORQUE O SABER NAO TEM LIMITE…. BASTA CRER

  2. A crítica marxista à religião tem razão na medida em que há religiões que são alienantes para o homem. Lembremo-nos que na África a crença nos espíritos ainda continua a ser um grande obstáculo para o desenvolvimento da terra e para a construção de uma estrutura econômica moderna.
    Conhecemos patologias até na religião cristã: a queima das bruxas é a retomada de um costume germânico que tinha sido superado com dificuldade com a evangelização na Alta Idade Média e que, depois, na Baixa Idade Média, voltou a surgir com o enfraquecimento da fé.
    Hoje, o grande problema é que ideologias como o bolivarianismo comunista estão tomando o lugar das religiões tradicionais, isso está levando à matança pela fome e pela doença daqueles que escapam da morte pela bala, pois quem não aceita Maduro como o Mestre e Salvador na Venezuela são considerados cidadãos de segunda categoria!
    O caso da Venezuela nos aterroriza e nos faz reafirmar a importância de um estado laico. O fundamentalismo comunista é uma das piores formas de intolerância por traduzir a visão de que os conceitos comunistas de plantão são absolutos e atemporais…

  3. Concordo plenamente em que não podemos, ainda, expor uma verdade absoluta para o Universo. No entanto, convenhamos nós, acreditar, à frente dos nossos conhecimentos científicos atuais, em um deus misericordioso, é “dose prá leão”. Haja saco!!!

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